
   Um Amor Desastrado
   Wife is a 4-letter word
   Stephanie Bond



Como se soletra desastre?
E-S-P-O-S-A!
Pelo menos, era o que Alan Parish pensava. Ser abandonado no altar o impedira de cometer o maior engano de sua vida. Daquele momento em diante, abraaria a vida
de solteiro! E como j havia pago pela lua-de-mel, trataria de aproveit-la... com ou sem esposa. Pamela Kaminski, a melhor amiga de sua ex-noiva, apareceu para
confort-lo e acabou com ele no avio. Mas tomou o cuidado de deixar bem claro que jamais poderia haver algo entre eles Pam era a honestidade, a vivacidade e a exuberncia.
Ele era a discrio, o conservadorismo e a satisfao com a vida de solteiro. Ento, como a falsa lua-de-mel se tornou verdadeira?


     Digitalizao: Al M.
     Reviso: Talita Fernanda de Alencar





     Copyright  1998 by Stephanie Hauck
     Publicado originalmente em 1998
     pela Harlequin Books, Toronto, Canad.
     Esta edio  publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V.
     Ttulo original: Wife is a 4-letter word
     Traduo: Dbora da Silva Guimares Isidoro
     EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.




     CAPTULO I

     Alan Parish chutou uma lata de alumnio sem importar-se com o dano causado ao sapato de couro alemo. Com as mos nos bolsos, viu a lata subir e cair na calada 
deserta e molhada, imaginando que podia ser a cabea de John Sterling entrando em contato com o pavimento duro.
     A boca preparou-se para proferir um palavro, mas ele no conseguiu pensar num termo capaz de descrever o sujeito basicamente correto que acabara de lhe roubar 
a noiva... no altar. No momento, o nico adjetivo em que conseguia pensar era... esperto.
     Olhando em volta. Alan procurou mais alguma coisa para chutar, lamentando no poder promover um encontro entre o p e o prprio traseiro. Devia ter pedido Lucy 
em casamento meses antes. No, anos antes! Em vez disso, acomodara-se num relacionamento estvel e dera espao para que ela se apaixonasse por um cliente, cancelando 
o casamento antes que sua me, sentada no primeiro banco da igreja, pudesse derrubar a primeira lgrima emocionada.
     Nesse momento, os amigos e associados deviam estar brindando ao feliz casal, literalmente s custas de Alan. Furioso, lembrou-se da caixa de champanhe que fizera 
questo de deixar atrs do bar no salo reservado para a recepo.
     O som de um carro se aproximando e uma buzina insistente e conhecida chamaram sua ateno. Havia acabado de olhar para trs quando o veculo, dirigido em alta 
velocidade, passou por uma poa de gua e o molhou da cabea aos ps. Alan ergueu os braos num gesto impotente e resignado, sentindo a gua suja escorrer pelo colarinho 
da camisa e atingir suas costas. O Volvo branco e velho passou por ele e subiu na calada com um solavanco assustador antes de parar. Uma das rodas permaneceu sobre 
a rea de pedestres.
     Bem, j vira Pamela Kaminski executar manobras bem piores.
      Desculpe  ela gritou, emergindo da armadilha mortal que costumava dirigir pela cidade.  A barra deste maldito vestido enganchou no acelerador  e bateu 
a porta antes de comear a mancar na direo dele.  Quebrei o salto do sapato, tambm  contou.
     Alan passou os dedos pelas lentes dos culos para remover a gua que o impedia de enxergar. Pamela devia parecer ridcula no vestido de organza cor de pssego 
com um babado de chiffon em torno dos ombros, mas com seu ar irreverente e sua aparncia fascinante, ela exibia o traje de gosto duvidoso com a mesma graa que demonstrava 
em qualquer tipo de roupa.
     Pamela extraiu um leno branco do decote assustadoramente baixo e comeou a limpar o queixo de Alan.
      Sinto muito  murmurou.
      No tem problema. Eu precisava mesmo esfriar a cabea.
      Estou falando sobre o casamento.
      Oh.  Tentando manter os olhos longe do decote da melhor amiga da ex-noiva, Alan decidiu que nunca havia sido mais infeliz que nesse momento. Quieto, permitiu 
que Pam continuasse tentando sec-lo com aquele minsculo leno de renda.  Ainda no acredito que Lucy tenha escolhido esse vestido para voc  comentou.
      Ela no o escolheu. Algum confundiu os pedidos, mas Lucy parecia to estressada quando as roupas foram entregues que achei melhor no incomod-la com detalhes.
      Aposto que ela nem notou a diferena. Pelo que vi na igreja, Lucy s tinha olhos para John Sterling.
      Tem razo.
      Eles se casaram?
      Sim. Eu estava deixando a igreja quando ouvi Lucy comunicando a mudana de planos a alguns membros da famlia.
      E no ficou para testemunhar o enlace?
      No. Lucy, o noivo e os trs filhos dele ocuparam todo o altar.  Pam tentou rir.
      No acredito!  Alan disparou irritado.  Depois de todos esses anos repetindo que no queria ter filhos, ela acabou se casando com um homem cheio deles!
      Tem razo. Trs filhos!  Ela jogou o leno arruinado numa lata de lixo prxima e examinou o interior do decote, possivelmente procurando outro.
     Alan engoliu em seco. Nunca pensara em Pamela Kaminski em termos romnticos, mas, como toda a populao masculina de Savannah, admirava seus dotes fsicos. 
A viso de um suti preto e sem alas sob o vestido inocente foi suficiente para secar seu fraque de dentro para fora. Quando ela encontrou mais um delicado leno 
rendado, ele deslizou o dedo pelo colarinho para afroux-lo.
      Estava pretendendo inundar a igreja com suas lgrimas, Pam?  perguntou.
      Oh, no! Eram para Lucy. A pobrezinha passou o dia inteiro chorando.
      Obrigado.
     Pam encarou-o e sorriu com tristeza.
      Sinto muito, Alan. No quis ferir seus sentimentos. Sei como a ama.
     A raiva, a dor e o ressentimento ameaaram domin-lo, e por isso ele decidiu mudar de assunto.
      Por que me seguiu?
     Ela jogou no lixo o ltimo leno ensopado e manchado.
      Pensei que pudesse precisar de um ombro amigo. Onde est seu padrinho?
      Deve ter ficado na igreja. Aposto que aceitou ser padrinho de Sterling. Bando de traidores!
      Aonde estava indo?
      Para o aeroporto.
     Ela o encarou e riu.
       uma caminhada e tanto!
      O vo para Fort Myers s partir dentro de quatro horas. Quis ter certeza de que poderamos nos despedir dos convidados sem pressa.
      Ei, no pode estar falando srio! Vai partir em lua-de-mel?
      Por que no?  Ele encolheu os ombros.  A viagem j foi paga. Vou afogar minhas mgoas em baldes de margaritas na praia. Chuparei tantos limes com toda 
aquela tequila que passarei o resto da vida com a boca enrugada.
     Pam o encarou em silncio, os olhos azuis atentos a qualquer sinal de insanidade. Depois piscou e olhou para cima ao sentir o primeiro pingo de chuva no rosto. 
Em alguns segundos a gua caa como uma cortina sobre os dois.
     Alan no se incomodava com nada. Era pouco provvel que o dia se tornasse ainda pior.
     De repente um relmpago cortou o cu e atingiu os galhos de uma rvore alguns metros  frente. Pensando bem, melhor no abusar da sorte.
     Pam j o empurrava para o carro.
      Venha, vou lev-lo ao aeroporto. Onde est sua bagagem?
      No porta-malas da limusine, na igreja. Comprarei tudo que for necessrio em Fort Myers.  Ele abriu a porta do passageiro. Estranhando o ngulo estranho que 
ela formava com a coluna do automvel, e mergulhou no banco de pele de carneiro.
      Feche a porta!  Pam gritou enquanto ligava o motor. Com um solavanco horrvel, desceram da calada em marcha r e, cantando pneus, Pam fez um retorno proibido 
no meio da rua. Enquanto seguiam na direo da auto-estrada, Alan encolhia-se a cada troca de marchas, odiando o rudo que ela fazia por no pisar at o fim na embreagem. 
Por medida de segurana, apoiou um brao sobre o painel de vinil. Um ombro deslocado era a menor leso que podia esperar quando o resgate os tirasse ferragens retorcidas.
      Pam...
     Ela se virou para fit-lo e o volante acompanhou o movimento. Apavorado, Alan viu o carro sair para o acostamento e retornar  pista.
      O que ?  ela perguntou, sem perceber o pavor nos olhos do passageiro.
      Esquea. Conversaremos no aeroporto. Sabe o que est fazendo?
     Ela riu e ultrapassou um automvel que procurava manter-se dentro dos limites de velocidade permitidos para aquela regio Depois puxou o vestido at os joelhos. 
Estava descala.
      Alan, voc sabe que eu praticamente moro no meu carro. Saber o que estou fazendo  parte do meu trabalho.
     De repente Alan compreendia por que Pamela era a corretora imobiliria de maior sucesso em Savannah. Depois de dez minutos no carro dela, os clientes ficavam 
to aliviados por ainda estarem vivos que compravam qualquer coisa.
     Horrorizado, viu que ela ligava o rdio e tentava sintoniz-lo, os olhos fixos no aparelho como se a estrada no tivesse a menor importncia. Alan jogou o corpo 
para frente e tentou encontrar uma estao. Sintonizou num rock suave e reclinou-se no banco, tentando relaxar.
     Pam reclamou.
      Isso  tudo que pode encontrar? Ouo esse tipo de msica no consultrio do dentista!
     Alan suspirou e procurou uma estao mais barulhenta. Percebeu que ela estava satisfeita quando a ouviu cantarolar com a melodia. De repente notou algo estranho 
no pra-brisa e franziu a testa.
      Aquilo  uma meia masculina?  perguntou espantado.
      Sim, o limpador quebrou, e o som do metal arranhando o vidro me deixava nervosa.
     Alan estremeceu. Ela sorriu e fitou-o.
      A meia preta quase no aparece e  eficiente.
     Gostaria de dizer que ela era a maior maluca que j conhecera, mas no se atrevia a contrari-la. Tentando no pensar em qual dos admiradores de Pamela deixara 
a til recordao, fechou os olhos e pensou em praias de areia branca e quantidades ilimitadas de lcool. Compraria e leria toda a coleo de fico cientfica lanada 
recentemente, e esqueceria de uma vez por todas a Sra. Lucy Montgomery Sterling, me de trs crianas mal-educadas e choronas.
     Pamela respeitou o silncio do amigo. Cantarolando com o rdio, no tentou conversar. Depois de alguns minutos ele abriu os olhos e fitou-a. Seu perfil era 
quase perfeito. A inclinao do nariz, a proporo das faces, o formato do queixo... a nica exceo era a boca, cujo lbio superior impunha-se ao inferior criando 
a impresso de que algum montara o conjunto de cabea para baixo. Os cabelos louros e abundantes e os olhos azuis completavam o quadro de beleza quase intimidante. 
Pamela tinha metade dos homens solteiros de Savannah correndo para sua cama, e a outra metade, a mais esperta, correndo para longe dela.
     Ouvira histrias sobre a srta. Kaminski no vestirio do clube. As incurses sexuais de Pam eram lendrias. Mas sempre imaginara que poro dos rumores era baseada 
em fatos reais, e quantos haviam sido imaginados tomando por base o passado da jovem exuberante. Ela crescera em Grasswood, a mancha negra no elegante centro de 
Savannah. Grasswood era um projeto social conhecido por sua populao ecltica. Vrias geraes de drogados, prostitutas e ladres baratos haviam sado de l.
     Na primeira vez em que vira Pamela, tivera de arranc-la das costas de outra garota no meio do saguo de sua escola particular, e ela o recompensara com um 
doloroso chute na canela. Em resposta  presso da opinio pblica, o Colgio Saint London oferecera bolsas de estudos para uma dzia de famlias do projeto, e Pamela 
havia sido uma das sorteadas. Lembrava-se dos irmos dela, dois grandalhes arruaceiros, e de como ela sempre fora rebelde e indisciplinada, irreverente e desbocada, 
sempre provocando brigas horrveis com os colegas e os professores. Um a um, todos os Kaminski acabaram expulsos da escola.
     Quando comeara o relacionamento com Lucy, muitos anos atrs, surpreendera-se ao descobrir que a namorada e a antiga colega de escola eram grandes amigas, e 
ficara ainda mais surpreso ao saber que a temida Pamela transformara-se numa das mais eficientes corretoras da maior imobiliria da cidade. Lucy no se importava 
com a exuberncia e a reputao da amiga, e logo Alan relaxara e aprendera a desfrutar da alegre companhia de Pamela, apesar de seu comportamento imprevisvel e 
escandaloso.
     A primeira vez que Lucy pedira a ele para acompanhar Pam numa de suas inmeras funes de caridade, sentira-se incomodado e apreensivo, e rezara para que a 
me, uma mulher conservadora e rgida, jamais soubesse disso, ou passaria meses ouvindo seus sermes. Mas assistira fascinado  transformao da sereia sexy em profissional 
competente. Desembaraada, Pam cativara a ateno de uma sala repleta de eventuais clientes e, para retribuir o favor, ela o apresentara a algumas pessoas que foram 
muito teis nos primeiros meses de sua empresa de consultoria em informtica.
     Era to diferente de sua ex-noiva como a noite do dia. Lucy era um confortvel banco de leitura, Pam era a cama desfeita. Lucy era um pacato gato domstico, 
Pam, uma tigresa faminta.
     Alan franziu a testa. A mulher era assustadora.
      Vou ficar e esperar com voc  ela anunciou ao entrar no estacionamento do aeroporto.
      No  necessrio.
      Fao questo de pagar um drinque  ela insistiu, desligando o motor e saindo do carro.  S preciso calar sapatos decentes.
     Erguendo a saia acima dos joelhos, ela se dirigiu ao porta-malas usando apenas as meias. Alan a seguiu e, intrigado, viu a espantosa coleo de sapatos que 
ocupava o bagageiro do automvel. Havia um pouco de tudo. Mocassins, sandlias, tnis, sapatos de saltos altos, botas... Devia haver cerca de cinqenta pares.
      Est tentando ganhar dinheiro como vendedora ambulante?
     Ela riu:
      Nunca sei que tipo de terreno encontrarei ao levar um cliente para visitar um imvel, e por isso tento estar preparada.
     Alan estendeu a mo e apanhou uma bota vermelha cujo cano ia at o meio da coxa.
      No esqueceu o chicote?  perguntou.
     Ela riu e arrancou o calado da mo dele. Depois de vasculhar a pilha desorganizada, Pam encontrou um mocassim de saltos mdios e calou-o, jogando o sapato 
com o salto quebrado no meio dos outros. Foi preciso bater a porta trs vezes antes que ela conseguisse fechar o compartimento.
      A fechadura est enferrujada!  ela comentou jogando a bolsa sobre o ombro.  Vamos.
     No houve uma nica pessoa que no se virasse para olhar o estranho casal que atravessava o saguo em direo ao bar. Para criar um clima propcio  viagem, 
Pam pediu uma jarra de margaritas com gelo e serviu a bebida nas taas de cristal fino. Depois de lamber a mo, cobriu a rea com sal e esperou que Alan fizesse 
o mesmo.
      Muito bem, voc faz o brinde  disse.
     A beleza da loura o pegou de surpresa mais uma vez e, confuso, ele disse qualquer coisa.
       vida de solteiro.
      timo brinde. Bebamos a ela!  Pam esvaziou metade do copo de um gole, lambeu o sal da mo e chupou uma fatia do limo cortado que o garom deixara ao lado 
da jarra.
     Alan a imitou, mas no conseguiu impedir uma careta ao sentir o sabor azedo do sumo.
      No queria mesmo me casar  disse.
      Ento, por que a pediu em casamento?
      Sei que vai soar tolo, mas na poca me pareceu a atitude mais correta.
     Ele parecia confuso, e por isso Pam decidiu no question-lo. Em vez disso, riu e balanou a cabea.
      Voc est horrvel.
     Alan examinou o fraque molhado e sujo e sorriu.
      Voc no est muito melhor.
     Os dois gargalharam e ele afrouxou a gravata borboleta, deixando as pontas carem soltas sobre a camisa respingada de barro.
      Que dia!  exclamou, balanando a cabea e pegando o copo que deixara sobre o balco.
      Tem razo  ela concordou, esvaziando a taa e repetindo o ritual com o sal e o limo.  Sabia que ela estava interessada em John Sterling?
      Sabia que ele estava interessado nela, mas nunca imaginei que Lucy pudesse olhar para um homem com tantos filhos  e esvaziou o copo, realizando mais uma 
vez a operao de lamber o sal e chupar o limo.  E voc? Sabia de alguma coisa?
     Pam negou com a cabea e encheu o copo.
      Sabia que algo a estava aborrecendo, mas deduzi que fosse apenas tenso pr-nupcial  e bebeu uma boa dose de margarita.
      Sinto-me um idiota  ele anunciou, imitando o procedimento completo.  Todos esto rindo de mim.
      Bobagem  ela argumentou, tentando ajeitar as mechas que escapavam do penteado rebuscado. Os cabelos estavam duros em funo do excesso de laqu.  Devem 
estar sentindo pena de voc.
      Muito obrigado. Agora me sinto muito melhor.
      Alan, quando voc voltar de viagem, todos tero esquecido o episdio  e encheu os dois copos pela terceira vez.
     O lcool comeava a fazer efeito no estmago vazio de Alan. A lngua e as pontas dos dedos estavam entorpecidos, e a viso comeava a ficar turva.
      Espero que sim, mas no tenho tanta certeza. Talvez mude de cidade.
      Isso  ridculo. Voc mora em Savannah desde que nasceu. Seus pais ficariam magoados, seus negcios seriam prejudicados... No pode partir sem conquistar 
a conta do velho Gordon! Tive muito trabalho para apresent-lo a ele naquele jantar de caridade  e bebeu com voracidade.
      Eu sei  Alan choramingou, esvaziando o copo e esperando que ela o servisse mais uma vez.   claro que tem razo! Mas meu ego est ferido, e preciso viver 
essa tristeza intensamente, ou jamais conseguirei super-la.
      Voc vai superar  Pam afirmou confiante.  Haver uma fila de debutantes na porta de sua casa quando voltar de viagem.
     As palavras soavam confusas e a voz pastosa. Ou seria ele que j no conseguia ouvir direito?
      No.  Alan balanou a cabea, levando o polegar ao peito num gesto desajeitado.  Nunca mais pensarei em me casar. De hoje em diante, esposa ser uma palavra 
de seis letras.
      Alan  Pamela inclinou-se para frente , esposa sempre foi uma palavra de seis letras.
      Voc sabe o que quero dizer.
     Tonta, ela olhou para o amigo e sentiu-se invadida por uma inveja sbita. Gostaria de saber como era ter um homem to apaixonado a ponto de jurar nunca mais 
se casar, depois de saber que no poderia ter a mulher amada. Conhecia Lucy Montgomery h anos, e a amiga sempre demonstrara muito bom senso. At hoje.
     O que podia t-la possudo para abandonar o namorado de trs anos e subir ao altar com um vivo pai de trs filhos? Sim. Lucy confidenciara que o relacionamento 
sexual com Alan deixava a desejar, e pessoalmente o considerava infantil e aborrecido, mas nem mesmo um homem aborrecido merecia ser abandonado no altar. Mas sabia 
que Lucy estava preocupada, temendo que ele cometesse alguma loucura, ou no teria pedido para segui-lo.
     Viu Alan inclinar a cabea e esvaziar o copo de um gole. Na escola, apelidara-o de "boneco Ken", um apelido que ainda usava nas conversas com Lucy, para desespero 
da amiga. Os cabelos claros eram mantidos sempre bem cortados, e os culos de aros de metal eram como todo o resto de seu guarda-roupa: caros e elegantes.
     O homem vivia bem barbeado, e usava roupas to engomadas que tinha a impresso de que, quando as despia, podia deix-las em p num canto do quarto. Era bonito, 
mas absolutamente previsvel.
     Alan Parish tinha dinheiro, nome e uma famlia aristocrata. No devia nem imaginar o que era sentir fome, faltar  escola por no ter sapatos ou juntar moedas 
para pagar o nibus. Os mundos a que pertenciam eram to distantes, que faziam parte de dimenses diferentes.
     Pamela conteve um sorriso. Nesse momento, com os cabelos desalinhados, os culos sujos e uma mancha de barro no queixo, Alan parecia um de seus antigos amantes, 
desordeiro e indisciplinado. Mas sabia que era s uma impresso. Alan era um gnio da informtica, um homem contido e de vida regrada cujo livro de cabeceira devia 
ser a prpria agenda.
      Qual  a graa?  ele perguntou com ar ofendido.
      Oh, no  nada  ela respondeu com dificuldade, chamando o garom e pedindo mais uma jarra de margarita. Depois passaram meia hora relacionando as virtudes 
de serem solteiros e livres enquanto esvaziavam a jarra.
     Alan jogou uma fatia de limo sobre a pilha de bagaos e consultou o relgio, movendo-o para frente e para trs como se tentasse focalizar melhor os nmeros.
       hora de ir  anunciou com voz pastosa. Pam estendeu a mo.
      Acho que vou ficar por aqui e recuperar a sobriedade antes de voltar para casa.
      Tem certeza? Talvez dirija melhor embriagada. Ela riu.
      Bem, divirta-se, Alan.
      Divertir-me? Estou partindo em lua-de-mel... sozinho!
      Talvez conhea algum.
     Alan ergueu o corpo, franziu a testa e apertou os lbios.
      O que ?  ela perguntou, intrigada com a expresso pensativa.
      Por que no vem comigo?
      Voc est bbado!
      E da?
      Alan, no vou acompanh-lo em sua lua-de-mel.
      Por que no? Minha secretria reservou a sute de um hotel de primeira classe, e j paguei todas as despesas. Alimentao, passagens, hospedagem. Tudo. Que 
tal? Preciso mesmo de companhia, e voc est precisando de frias.
     Uma semana longe de Savannah era uma proposta tentadora.
     O sorriso de Alan era convincente.
      Dias inteiros na praia, bebendo margaritas e comendo camares, noites ao luar saboreando lagostas e outros pratos exticos... homens seminus...
     Finalmente conseguira conquistar a ateno dela.
      Disse alguma coisa sobre homens?  Pamela riu.
      Sim, eu disse. E voc pode ter sorte.
     Mas no podia imaginar-se passando uma semana ao lado de Alan, e jamais dormiria na mesma cama com ele, mesmo que fosse uma cama espaosa.
      No posso.
      Vamos l, Pam! Eu durmo na cama de armar.
      O que as pessoas vo pensar? O que Lucy vai pensar?
      O que quer dizer?
      Ah, voc sabe... Vamos passar uma semana juntos...
     A expresso chocada de Alan foi um duro golpe contra sua vaidade feminina.
      Est insinuando que algum pode pensar que estamos... que temos... um envolvimento?  A gargalhada rouca a fez sentir-se uma idiota.
     Era evidente que ningum chegaria a essa concluso. Um cavalheiro fino e elegante, nascido numa das mais aristocrticas famlias da cidade, envolvido como uma 
mulher de formao duvidosa criada num projeto social? Era ridculo!
      Quanto a Lucy  Alan prosseguiu , se ela acreditasse na possibilidade de nos sentirmos atrados um pelo outro, no teria sugerido que eu a acompanhasse a 
todas aquelas funes de caridade.
     O crebro confuso de Pam registrou o insulto oculto por trs das palavras inofensivas, mas estava bbada demais para reagir. Alan encolheu os ombros.
      Alm do mais, a viagem no ser anunciada no jornal de Savannah.
     Ela olhou para o horrvel vestido cor de pssego.
      Mas eu no tenho roupas.
      Faremos compras quando chegarmos l. E ento? Vem comigo, ou no?
     H anos no tirava frias. Tinha apenas uma transao pendente, e podia acompanh-la por telefone. E Lucy havia pedido para cuidar de Alan. Se no fosse aquela 
terrvel dor de cabea talvez pudesse pensar melhor.
     Pamela esvaziou o copo e limpou a boca com o dorso da mo. Em seguida, encarou-o e sorriu.
      Pensando bem, estou precisando de sandlias novas. O que estamos esperando?

     CAPTULO II

     Alan cumprimentou a comissria de bordo e sentou-se, encolhendo-se ao sentir a dor que ameaava explodir seu crebro confuso. Tinha a sensao de estar esquecendo 
alguma coisa, mas no sabia o qu. Reclinando a cabea, fechou os olhos e tocou a carteira no bolso da cala. No era isso. Ento, o qu?
      Dess... culpe...  ecoou uma voz feminina. Ao abrir os olhos, viu Pamela Kaminski acertar a cabea de um passageiro com a bolsa.  Desculpe, docinho  ela 
pediu com voz pastosa, depositando um beijo na calva do pobre homem.
     Alan sorriu e tentou estalar os dedos, mas no conseguiu uni-los. Pamela! Havia esquecido Pamela.
      A est voc!  ela exclamou com olhos brilhantes.  Quando sa do banheiro, voc havia desaparecido. Felizmente sou esperta, ou no teria convencido a comissria 
a deixar-me embarcar. Disse a ela que meu sobrenome era diferente daquele na lista porque havamos acabado de nos casar e ainda no providenciei novos documentos. 
Uau!  exclamou ao deixar-se cair no banco.  Nunca voei na primeira classe.
      Drinques ilimitados  ele informou com dificuldade.
      Est brincando! Vou pedir outra jarra.
      Lamento, mas ter de se contentar com uma dose de cada vez. E companhia no serve margarita.
     Ela suspirou diante da inconvenincia e tentou afivelar o cinto. Alan levantou a cabea e ofereceu-se para ajud-la.
      Est torcido  constatou, debruando-se sobre ela para acertar o equipamento. O babado de chiffon pinicou seu queixo. Corajoso, tentou concentrar-se na misso, 
mas os olhos insistiam em mergulhar no decote generoso de Pam. O suti provocante aparecia cada vez que ela respirava. Depois de trs tentativas frustradas, finalmente 
conseguiu prender o cinto e voltou ao seu lugar.
     A comissria os olhou com desconfiana quando pediram usque e gua, mas os serviu prontamente. Terminaram a primeira dose antes da decolagem, e Alan comeou 
a cochilar enquanto o comandante terminava de taxiar. A mo gelada em seu brao o despertou.
     Pamela segurava seu pulso com tanta fora que os ns dos dedos estavam brancos. As unhas rosadas feriam sua pele, e o rosto se tornava verde como os limes 
que ela chupara no bar.
      O que foi?
      Lembra-se do que disse sobre nunca ter voado na primeira classe?
      Sim.
      Pois bem, nunca voei, ponto final.
      Est brincando? Por que no?
      Acabei de me lembrar. Tenho fobia de avies.  Plida, levou uma das mos  boca.  Oh, meu Deus!
      O que foi?
      Vou vomitar.
     Alan entrou em pnico.
      No faa isso!
     Ainda segurando a boca, ela fez um movimento afirmativo com a cabea e inclinou-se para frente. Alan agarrou o saco plstico e colocou-o diante dela no instante 
em que o avio saiu do cho. Pamela cumpriu a promessa, mas errou o saco plstico, e Alan culpou-se por no ter conseguido manter o aparato higinico perto dela. 
Os passageiros mais prximos gemiam e emitiam exclamaes de desgosto.
     Quando o acesso passou, ela recostou-se no assento e respirou fundo, plida como se estivesse prestes a desmaiar. Uma comissria aproximou-se com uma toalha 
mida.
      Vou precisar de mais que uma  Pam comentou, notando a confuso que criara  sua volta.
     Alan lutava contra a nsia e, valente, entregou o saco plstico usado  aeromoa. Dizendo estar fraca demais para ir ao lavatrio, Pamela limpou-se como pde 
sem deixar o assento. A comissria, obviamente confusa, tentou consol-la dizendo que a viagem de duas horas passaria depressa.
      Meu Deus  Pam gemeu, apoiando a cabea no encosto.  No devia ter entrado neste avio.
      Relaxe  Alan anunciou, estendendo a mo para tocar seu brao e mudando de idia antes de toc-la. Optando pela cabea.
     Os cabelos duros escapavam do coque elaborado no alto da cabea.
      Vai ver que seu temor no tem fundamento. Viajo constantemente e nunca enfrentei problemas.
     De repente a aeronave mergulhou no vazio, corrigiu a altitude, mergulhou mais uma vez e voltou  altura adequada. O sinal de apertar os cintos foi aceso e a 
voz do piloto ecoou pelo auto-falante.
      Senhores passageiros, estamos enfrentando uma zona de turbulncia.  A comissria foi jogada para fora de sua cadeira dobrvel numa das laterais do avio, 
mas recuperou-se depressa e continuou sorrindo enquanto afivelava o cinto de segurana.  Por favor, mantenham-se em seus assentos enquanto alcanamos maior altitude.
     Foi o pior vo que Alan j experimentara. A aeronave perdia altura constantemente, arrancando gemidos e gritos dos passageiros. A porta de um dos armrios na 
pequena cozinha se abriu, e dezenas de bandejas de comida foram lanadas no corredor.
     Alan tentava convencer o estmago a suportar a provao, pressionando a cabea contra o encosto do banco para mant-la imvel. Sentia-se mal por ter convidado 
Pamela. Ela carregaria o trauma pelo resto da vida. Ouvia os vizinhos de banco passando mal e olhava ansioso na direo dela, certo de que logo ela repetiria a lamentvel 
cena.
     Pamela mantinha os olhos cerrados e movia os lbios.
      Ave Maria, cheia de... de... cheia de graa  ela abriu os olhos e, vendo que era observada, sussurrou:  Nunca rezei bbada. Acha que isso anula o efeito?
     Alan pensou um pouco antes de balanar a cabea em sentido negativo. Ento ela fechou os olhos e continuou a prece, concluindo-a com dificuldade.
      Rezai por ns... pecadores, agora e... e... na hora da nossa morte. Amm.
      Ei, vamos ficar bem. Logo estaremos aterrissando.
     Como se as palavras tivessem o dom de interferir no funcionamento do avio, a nave deu um novo mergulho. Pam engoliu em seco e virou-se para ele.
      Est maluco, Alan? Vamos morrer e eu serei enterrada neste vestido horrvel. Se encontrarem nossos corpos...
     Ele suspirou.
       claro que encontraro os...  e parou, balanando a cabea para clarear as idias.  Pare com isso! No vamos morrer, ouviu bem? Recuso-me a falecer num 
acidente areo no dia do meu casamento.
      Oh, o Sr. Bolsos Cheios vai comprar uma sada para esta enrascada em que nos metemos?
     Alan franziu a testa. Passara a vida toda tentando encontrar o prprio caminho, mas havia sempre algum para lembrar que era um Parish e, portanto, tinha o 
dever de dividir os crditos de suas realizaes com o nome da famlia. Cruzando os braos, fechou os olhos e recusou a provocao.
      No vou discutir com voc porque estou bbado e amanh isso no ter mais nenhuma importncia.
      Alguma coisa o afeta, Alan?  Pam perguntou em voz alta.  Foi abandonado no altar h algumas horas e mesmo assim embarcou rumo  lua-de-mel como se nada 
houvesse acontecido. Agora est prestes a morrer num acidente horrvel e fica a sentado como um xap!
       pax  ele corrigiu sem abriu os olhos.
      Sabe o que quero dizer. Estou bbado, mas ainda tenho um pouco de coerncia e... e... oh, meu Deus, vou vomitar outra vez.
     Alan abriu os olhos. Rpido, agarrou o saco plstico de seu assento e colocou-o sob o queixo de Pamela.
      Arghhh!  gritou, surpreso com a falta de pontaria. Desviando os olhos, tentou alcanar a campainha da comissria com o cotovelo.
     Assim que terminou de transferir o contedo do estmago para o saco, o cho e todas as superfcies  sua volta, ela se deixou cair no assento, completamente 
exausta. Finalmente o piloto conseguiu estabilizar a aeronave e a turbulncia foi superada. Os passageiros aplaudiram, e segundos depois Pamela mergulhou num sono 
profundo.
     Alan examinou o estado da companheira de viagem e fez uma careta. Se a cabea no doesse tanto, provavelmente estaria rindo. Pam Kaminski, a eterna vaidosa, 
parecia uma boneca de trapo em seu vestido feio, sujo e mal-cheiroso. Os cabelos cobertos de laqu estavam despenteados, e o batom desaparecera dos lbios. Sem fazer 
barulho, chamou a comissria e pediu mais toalhas, tomando o cuidado de limp-la sem despert-la.
     Com concentrao e coragem, limpou primeiro o rosto abatido, admirando a fina textura da pele e os clios que emolduravam os olhos cerrados. Ela no se moveu, 
nem mesmo quando passou a toalha mida nos cantos de sua boca. E pela primeira vez desde que conhecia Pamela Kaminski, Alan sentiu-se perturbado por sua presena.
     Movendo-se no assento, tentou sufocar os inadequados sentimentos pela melhor amiga da ex-noiva. Mas, sentada ali com aquele vestido imundo e descabelada, ela 
lembrava a tigresa selvagem que fora nos tempos de escola, e fazia seu sangue ferver.
     Passando a mo pelo rosto, Alan culpou o excesso de lcool pela estranha reao. Ainda no estava contente com o papel de idiota que fizera naquele dia. Por 
que no investir contra Pamela e v-la rir at vomitar novamente?
     Pam era um pssaro voando sobre o campo, mergulhando e alando vo novamente, o cheiro de lixo destoando da paisagem buclica. Acordou assustada e piscou, desorientada. 
Depois de alguns instantes lembrou que estava num avio a caminho da lua-de-mel de Alan Parish, e o cheiro era dela.
      Ugh.  Torceu o nariz com desgosto e ergueu o corpo na poltrona, encolhendo-se ao sentir a exploso de dor na cabea. Devagar, virou-se para o lado e viu 
Alan dormindo profundamente. O fraque carssimo fora arruinado de maneira irremedivel, mas o palet permanecia dobrado sobre seus joelhos. Embaraada, recordou 
como ele havia segurado o saco plstico enquanto ela os enchia. Era cmico. Alan a surpreendera.
     Fiapos das toalhas cedidas pela comissria repousava sobre seus cabelos louros e, num impulso, ela decidiu remov-los. Uma descarga eltrica a sacudiu quando 
tocou as mechas sedosas, o que era quase to assustador quanto o calor que sentia ao ver o peito subindo e descendo a cada movimento dos pulmes. Acordado, ele era 
apenas Alan o Autmato. Mas relaxado, dormindo, parecia absolutamente sexy. Ainda lembrava a paixo que tivera por ele durante o breve perodo em que freqentara 
a escola que pertencia aos pais dele.
     Antes que tivesse tempo de explorar os novos sentimentos, a comissria aproximou-se preocupada.
      Sente-se melhor, senhora?
     Pam moveu a cabea em sentido afirmativo. A jovem sorriu.
      Sinto muito, Sra. Parish. O vo no foi exatamente um bom comeo para sua lua-de-mel.
      Mas eu no...  e parou a tempo.  Vou me sentir melhor assim que chegarmos a Fort Myers.
      Certamente. Parabns pelo casamento, senhora. Foi um noivado longo?
      No. Para ser franca, foi tudo muito... repentino. Pode me dizer onde fica o banheiro, por favor?
     A jovem apontou para uma porta fechada no final do corredor e sorriu, retirando-se para a cozinha.
     Pam levantou-se devagar, mas o movimento foi suficiente para espalhar uma nuvem mal-cheirosa  sua volta. Contendo o mpeto de vomitar novamente, segurou a 
saia, levantou-a at os joelhos e caminhou na direo do lavatrio.
     No sabia o que esperar, mas, mesmo assim, ficou decepcionada com o que viu.
      As pessoas fazem sexo aqui?  resmungou. Olhar para o espelho foi suficiente para arrancar um gemido aflito de sua garganta. A maquiagem desaparecera, deixando 
apenas os crculos escuros do rmel borrado em torno dos olhos. Os cabelos imitavam o ninho de uma ave maluca e relaxada. Sentindo-se miservel, olhou para o vestido 
e conformou-se. No havia nada que pudesse fazer por ele.
     Depois de lavar o rosto com bastante gua fria, abriu a bolsa de maquiagem para recuperar o dano da melhor maneira possvel. No ltimo minuto, decidiu usar 
o vidro de perfume para amenizar o terrvel odor do vestido. Tarde demais, percebeu que s conseguira piorar a situao. Resmungando termos indignos de uma mulher 
educada, saiu do banheiro e atravessou o corredor de volta ao assento, percebendo que alguns passageiros encolhiam-se quando passava perto deles.
     Alan ainda cochilava quando ela se sentou. A dor de cabea diminura, abrindo espao para a enormidade do que estava fazendo. Na profisso que escolhera, frias 
eram um luxo a que poucos tinham direito, porque afastar-se do trabalho significava perder comisses sobre transaes j iniciadas, mas concludas por outros colegas 
durante a ausncia do veranista. Passara uma semana na Jamaica com Nick, o Noite-Toda, e um final de semana prolongado em San Francisco com Dale, o Delicioso.
     E agora estava prestes a passar sete dias numa sute nupcial com Alan, o Aborrecido.
     A voz do piloto anunciou que estavam aterrissando em Fort Myers. Alan acordou, tentou sorrir, mas sentiu o cheiro do vestido e fez uma careta enojada.
      Meu Deus  lamentou, levando a mo ao nariz.
      Voc no est muito melhor  Pam acusou irritada.
      Uma ducha seria a realizao de um sonho  Alan concordou, tocando a testa.  Sem mencionar duas aspirinas. Acho que exageramos.
      A tequila  capaz de levar uma pessoa a fazer e dizer coisas estranhas.  Tentou descobrir se ele arrependera-se do convite impulsivo, mas os olhos azuis 
eram misteriosos.
       melhor apertar o cinto  ele indicou.  Precisa de ajuda?
      No, obrigada.  Podia lidar com os machistas, os convencidos e os superficiais, mas os bondosos a assustavam.
     Eram seis e meia quando saram do aeroporto, e a noite j comeava a cair sobre a cidade. Depois de algumas tentativas frustradas, encontraram o balco da locadora 
de automveis onde Alan fizera uma reserva.
      Lamento, senhor, mas houve um terrvel engano  o balconista informou.  No dispomos de nenhum modelo luxuoso no momento. Vai ter de optar por outro tipo 
de automvel, menor e mais simples.  claro que ter um bom desconto.
      Est bem, pode providenciar um carro de porte mdio  Alan suspirou resignado.
     O rapaz examinou uma lista na tela do computador e balanou a cabea.
      Tambm no temos nenhum, senhor.
      Um utilitrio?
      Nada.
      Afinal, o que tm a oferecer?
     O homem sorriu e apontou pela janela para uma fileira de minsculos carros populares. Alan irritou-se e explodiu.
      De jeito nenhum!
     Pam franziu a testa. No tinha pacincia para aquela arrogncia dos Parish.
      Alan, seja razovel.  s um carro alugado, uma conduo. O que esperava?
      O melhor.
      Escute aqui, estou cansada, suja e enjoada. Pegue o maldito carro de uma vez e vamos sair daqui, est bem?
     Contrariado, Alan aceitou o modelo popular.
      Eu dirijo  disse alguns minutos mais tarde, quando se aproximavam do veculo.
      Como quiser. Espero que o tal hotel no fique muito longe daqui. Estou exausta.
     Encolhido atrs do volante, Alan desdobrou o mapa que havia comprado e percebeu que a folha colorida ocupava todo o interior do automvel.
      Pelo visto, a viagem levar cerca de vinte minutos.
     Mas perderam dez deles tentado dobrar o mapa novamente.
     Pam fechou os olhos e tentou conter-se. No podia permitir que alguns imprevistos a tirassem do srio. Estava nervosa, admitia, mas desse momento em diante 
trataria de controlar-se. Afinal, no havia motivo para tenso. Alan no estava interessado nela, o que significava que podia sentir-se segura. Mas era seu comportamento 
obsessivo que a tirava do srio.
     Furiosa, arrancou o mapa das mos dele, amassou-o, jogou-o no banco de trs e ordenou:
      Vamos embora!
     Alan inquietou-se ao passar por uma placa.
      O que estava escrito ali? Penwrote ou Pinron?
      Estamos perdidos, no ? Ele ajeitou os culos.
       claro que no!
      Estamos!
      Bem, estar perdido  uma expresso muito relativa.
      E voc  um desses sujeitos que prefere rodar at esvaziar o tanque a parar e pedir informaes.
      Se no houvesse amassado o mapa...
      Esquea o mapa! Siga  esquerda na prxima sada.
     Um estouro precedeu o solavanco que sacudiu o carro e o obrigou a diminuir a velocidade.
      Droga!  Alan explodiu.  O pneu estourou.
      Que maravilha! Estamos perdidos e com um pneu estourado.
      A culpa no  minha. Foi voc quem insistiu em aceitar esta miniatura de carro antigo.
      Chame a locadora e pea para nos trazerem outro carro.
      Meu celular ficou na mala em Savannah.
     Pamela abriu a bolsa para apanhar o celular, mas franziu a testa ao toc-lo.
      A bateria est descarregada.
      timo! Melhor seria impossvel. Ela apontou para a estrada.
      Deve haver um telefone na prxima sada.
      Oh, sim, mas posso trocar dois pneus durante o tempo que passaremos caminhando at l.
     Pam suspirou e, decidida, abriu a porta e saiu. Alan imitou-a e foi abrir o porta-malas, grato por ter conseguido chegar ao acostamento ao ver os veculos que 
passavam em alta velocidade.
      Tem certeza de que sabe o que est fazendo?  Pamela Perguntou desconfiada.
       claro que sim.  Gostaria de sentir a mesma confiana que exibia. Certa vez lera num manual como trocar pneus, e tinha certeza de que recordaria todas as 
etapas do processo assim que comeasse a execut-las. Todos os homens sabiam trocar pneus, no?
     Trinta minutos mais tarde, Alan ainda no havia conseguido encaixar o macaco para levantar o carro. Irritada, Pamela caminhou at a beirada da estrada, levantou 
uma ponta da saia e posicionou o polegar num gesto conhecido por todos os viajantes.
      O que est fazendo?  ele gritou.
      Pedindo carona.
      Quer fazer o favor de abaixar esse vestido? Vai atrair todos os manacos da vizinhana!
      No me importo, desde que um deles nos leve ao hotel.
      Estou quase conseguindo  ele mentiu.
      Oh, eu sei  Pam respondeu, sorrindo para os carros que passavam.
     De repente um caminho aproximou-se, diminuiu a marcha e parou alguns metros  frente deles.
      Funcionou!  Pam gritou entusiasmada, correndo na direo do caminho.
     Alan a seguiu, agarrou-a pelo brao e a obrigou a parar.
      Voc enlouqueceu? Sua me no ensinou que no se deve aceitar carona de estranhos?
      Alan, no conheo ningum mais estranho que voc  e soltou-se com um movimento brusco.
     Notando que havia levado a chave de roda, testou o peso da ferramenta contra a palma da outra mo e decidiu correr atrs de Pamela. Pelo menos poderia quebrar 
os joelhos do tarado, caso ele tentasse alguma gracinha.
     O assassino barbado e grandalho j estava descendo da cabine e caminhando na direo da vtima. O homem ainda no o notara.
      Ol, boneca. Problemas com o carro?
     No conseguiu ouvir a resposta de Pam, mas pela inclinao da cabea, ela devia ter dito algo feminino, pattico e apropriado  situao. Finalmente apontou 
para Alan e o sujeito olhou em sua direo, franzindo a testa ao ver a chave de roda em sua mo. Alan balanou-a casualmente enquanto aproximava-se de Pam, insinuando 
que poderia usar a ferramenta como arma, se julgasse necessrio.
      Meu nome  Jack  o motorista do caminho apresentou-se, estendendo a mo.
     Alan examinou-o da cabea aos ps. Jack, o Estripador, Jack, o Chacal, Jack Jugular.
     Mudando a chave para a mo esquerda, aceitou o cumprimento e cuspiu no cho no que esperava ser um gesto masculino reconhecido em todo o mundo.
      Sou Pamela, e este  Alan.
      Esto em lua-de-mel?
      No  Alan respondeu.
      Sim  Pam declarou ao mesmo tempo.
     O caminhoneiro retrocedeu um passo, temendo o estranho casal. Pam olhou para Alan com ar desesperado.
      Quero dizer, sim  ele riu, encolhendo os ombros e piscando para o homem.  Ainda no consegui me habituar  idia.
      S precisamos de uma carona. Para o...  e olhou para Alan em busca de ajuda.
      Para o Paliadas do Prazer  ele respondeu constrangido. Pam ergueu uma sobrancelha e Alan sentiu o rosto quente.
      Sabe onde fica esse lugar?  ela perguntou ao motorista grandalho.
      Sim, eu sei. J estiveram l?
      No  Alan adiantou-se.  Minha secretria faz uma espcie de estgio como agente de viagens e... ela fez todos os arranjos. Ouvi dizer que o lugar  realmente 
especial.
      E... dizem que sim.
      E ento? Pode nos dar uma carona?  Pamela insistiu.  Pagaremos o combustvel, se quiser  e enterrou um cotovelo nas costelas de Alan, que gemeu e fez um 
movimento afirmativo com a cabea.
      No  necessrio. Estou indo naquela direo. Subam.
      O que est transportando?  O tom de voz e o andar de Pam sugeriam que ela se deliciava com a nova aventura.
      Porcos  o homem disse orgulhoso ao abrir a porta do passageiro.
      Porcos?  Alan repetiu com uma careta de desgosto. Pamela j se havia acomodado no interior da cabine. Estava descala novamente e levava os sapatos nas mos.
      Sim, porcos. E vai ter de deixar a chave de rodas aqui, amigo.
      Por qu?  Alan inquietou-se.
      Para carregar Churrasco  e apontou para o piso da cabine.
      Oh,  um beb!  Pamela exclamou encantada.
      O nome dele  Churrasco. Nasceu h alguns dias. O resto da ninhada morreu, e por isso decidi transport-lo aqui na frente. Acho que assim o pobrezinho vai 
se sentir mais amparado.
      Ele  adorvel  Pam sorriu, fazendo rudos to altos quanto os do leito assustado.
      Entre, amigo  Jack convidou, empurrando Alan para o caminho.
     Conformado, ele se acomodou ao lado de Pamela e esperou que o motorista fechasse a porta para murmurar:
      Estamos perdidos.
      O que disse?
      O homem deve ter dezenas de ferramentas de aougueiro na carroceria. Um machado para cada um de ns.
      No seja ridculo, Alan! Tivemos sorte por ele ter parado. Jack abriu a porta do outro lado e subiu  cabine, acomodando-se diante do volante com a experincia 
conferida por anos de trabalho. Sorrindo, ligou o motor e engatou a marcha.
      Para o Paliadas do Prazer  disse.  Tero uma noite de npcias inesquecvel naquele lugar.
     Alan no ousou olhar para Pamela. Em vez disso, consultou o relgio e quase deixou escapar uma gargalhada. Menos de oito horas antes estava preparado para subir 
ao altar com Lucy Montgomery, esperando que o compromisso desse um novo impulso  enfadonha vida sexual de que partilhavam. Alm de continuar solteiro, descobria-se 
sentado num caminho de porcos com uma mulher que cheirava to mal quanto a carga e com a incmoda perspectiva de uma cama de armar para passar a noite. Isto , 
se conseguissem chegar ao hotel.
     Pamela conversava com Jack, enquanto Alan afundava mais e mais no assento. Sentiu uma estranha umidade nos ps e inclinou-se a tempo de ver Churrasco esvaziando 
a bexiga em seu sapato de couro alemo. Como no tinha energia para mover-se, decidiu ficar onde estava e conformar-se com o que o destino lhe reservara. Literalmente, 
descera ao nvel do chiqueiro dos porcos. Que final potico para o que deveria ter sido o dia mais importante de sua vida.

     CAPTULO III

      Isso  srio?  Pamela olhou pela janela para a estrutura de quatro andares. Metade das letras no luminoso estavam apagadas.
       aqui  Jack confirmou.
      Linda disse que o hotel era o mais antigo da regio, mas tinha estilo  Alan comentou com a testa franzida.  Fica perto da praia... Creio que posso ouvir 
o barulho do mar.
      Bem,  difcil dizer muito no escuro  Pam ofereceu enquanto saa do caminho. Alan a segurou pela cintura e colocou-a no cho a poucos centmetros dele, 
provocando uma reao to intensa que, assustada, ela retrocedeu um passo.
     Os dois acenaram para o motorista do caminho. Jack ps a cabea para fora da janela e gritou:
      Gostaria de estar no seu lugar, amigo! Ela  um estouro! Vaidosa, Pam sorriu e olhou para Alan. Ele estava vermelho e seu sorriso era tenso enquanto despedia-se 
com um gesto breve e silencioso. O constrangimento era to evidente que, penalizada, Pam decidiu mudar de assunto.
      Vamos entrar. Mal posso esperar para livrar-me desta roupa. Tarde demais, percebeu que havia acrescentado combustvel ao fogo. Alan tossiu e virou-se para 
a entrada. Sem as luzes do caminho, o estacionamento mergulhou na escurido. Ela deu o primeiro passo, tropeou e agarrou o palet de Alan antes de cair, ameaando 
arrast-lo na queda. Alan conseguiu manter-se em p e ajudou-a a levantar-se. Infelizmente, era impossvel ver onde punha as mos e, ao pux-la, ouviu o rudo do 
tecido se rasgando e soube que agarrara o horrvel babado de chiffon do vestido cor de pssego. Irritado, colocou-a em p com um movimento brusco.
      Acha que podemos percorrer os ltimos cinco metros sem nenhuma catstrofe?
     Ela respondeu com um movimento afirmativo de cabea, chocada com as sensaes provocadas por aquelas mos. Era o lcool, o cansao, a fome, a escurido... Todos 
os fatores combinavam-se para criar falsas impresses. Precisava descansar e ver a luz do sol para lembrar que aquele era Alan, o Aborrecido.
     Ele agarrou seu brao e levou-a para o saguo. Pam foi subitamente invadida por uma premonio quanto ao lugar e  semana que passariam juntos, mas manteve 
a boca fechada e enfiou os babados rasgados dentro do decote.
     Entre duas enormes palmeiras plsticas, a entrada era menos que espetacular. Um cheiro de p e umidade os recebeu quando pisaram no carpete desbotado do saguo. 
 direita, cadeiras de vinil muito velhas e mais plantas artificiais cercavam um antigo aparelho de tev. Um casal de meia-idade assistia a um programa de compras 
por telefone.  esquerda, a butique liquidava uma infinidade de produtos com a estampa de Elvis. Pam apertou os lbios. Talvez pudesse expandir sua coleo.
     Olhou para Alan e viu que ele franzia a testa, pronto para explodir.
      No era bem isto que eu esperava  ele resmungou. Pam mordeu a lngua para conter as palavras que gostaria de dizer. Sentia-se aborrecida com a atitude arrogante 
de Parish. Duvidava que ele houvesse passado uma nica noite na vida em acomodaes com menos de quatro estrelas.
     O balco de recepo erguia-se majestoso na frente deles, escondendo a loura magricela e desanimada que esperava para atend-los.
      Posso ajud-los?  ela perguntou sem interesse.
     A decorao era simplesmente horrvel. Tecidos desbotados, madeira corroda, plantas de plstico, tudo colaborava para criar um clima de abandono e descuido. 
Lucy, a ex-noiva de Alan, uma bem-sucedida decoradora, teria desmaiado diante de tamanho atentado ao bom gosto. Mas, para Pam, o lugar tinha um certo charme retro.
      No sei se vim ao lugar certo  Alan comeou.  Existe outro hotel chamado Paliadas do Prazer nesta regio?
     A rplica de Twiggy levantou a cabea e no tentou esconder a admirao ao ver o novo hspede.
      No  respondeu com interesse sbito.  Este  o nico. Alan olhou para Pam com ar preocupado e voltou-se para a recepcionista.
      Tem alguma reserva em nome do senhor e Sra. Parish?  terminou constrangido.
      Parish?  Ela jogou os cabelos tingidos sobre um ombro, virou-se para o empoeirado terminal de computador e manuseou o teclado com pouca habilidade.  Parish... 
Parish, sim aqui est. Alan P. Parish. Sute nupcial de luxo a partir da noite de sexta-feira. O vdeo-cassete e a videoteca so cortesia da casa, j que nos aproximamos 
do Dia dos Namorados.
     Alan arregalou os olhos numa resposta alarmada.
      Estamos mesmo no lugar certo?
     Twiggy no respondeu. Sorrindo, fez uma enorme bola com o chiclete que mascava e recolheu-o com a ponta da lngua.
      O quarto deve ser confortvel  Pam sussurrou, tentando mostrar-se otimista. Desde que tivesse gua quente, o resto no fazia diferena.
     Ele apontou um dedo para a funcionria.
      S um momento  e puxou Pam para o lado.  Deve ter havido algum engano. Vou telefonar para Linda e esclarecer esta confuso agora mesmo. Vi um Hilton antes 
de chegarmos aqui. Alugaremos um quarto para esta noite e depois...
      No vou a lugar nenhum, Alan. No agento dar nem mais um passo.
      Chamaremos um txi.
      Voc chama o txi, e voc vai sozinho para o Hilton  ela explodiu.  Estou cansada, suja, faminta e com uma terrvel ressaca. Desde que o quarto seja limpo, 
ficarei aqui mesmo.
      No precisa ser grosseira.
      Lamento, mas no consigo ser delicada no estado em que me encontro. Olhe para mim!  e abriu os braos, exibindo o vestido manchado.
      Est bem, est bem. Vamos passar esta noite aqui mesmo. Mas s esta noite!
     Dois minutos mais tarde, a recepcionista entregava a chave do quarto e explicava:
      E o 410 no fundo do corredor. A vista  linda e h uma varanda de onde podero apreci-la. Infelizmente o elevador est quebrado, e tero de subir pela escada. 
Tenham uma boa estada.
     Alan deu alguns passos na direo indicada, mas Pam o segurou Pelo brao.
      Preciso comprar algumas coisas bsicas  lembrou, apontando para a butique.
      Precisa de alguma coisa da loja?  a recepcionista perguntou, Sem esperar por uma resposta, retirou um cartaz da gaveta e colocou o aviso de "Volto J" apoiado 
numa lata de refrigerante sobre o balco.  Sou a vendedora, tambm  e saiu de trs da monstruosidade de madeira.
     Pam seguiu a jovem at a minscula butique, esfregando os olhos cansados.
      Alan?  ela o chamou assim que entraram.  Do que  o P?
      O qu?
      O P. No meio do seu nome  ela explicou, explorando as prateleiras empoeiradas.
     Ele ficou em silncio por alguns segundos antes de responder:
      No importa.
     Curiosa, Pam continuou recolhendo alguns objetos de higiene pessoal e sorriu.
      Vamos l, qual  seu segundo nome?
      Esquea, est bem?
      Deve ser algo muito estranho, ou no estaria tentando escond-lo.
      Pam! Por favor, no insista, est bem?
     Ela fez uma careta e concentrou-se nas prateleiras. Precisava de um par de cuecas e uma camiseta, sem mencionar as roupas ntimas. Havia acabado de ver um pacote 
de shorts masculinos de algodo quando percebeu que Alan estendia a mo para a mesma mercadoria.
      Nunca pensei que usasse esse tipo de coisa, Alan.
      Nem eu, Pam.
      Voc no me conhece.
      Preciso usar roupas de baixo  ele protestou, incluindo o pacote entre suas compras.
     Pam abriu os braos.
      Bem, como nunca fiz questo de roupas de baixo, pode ficar com eles.
      Que tal dividirmos? So quatro peas no pacote. Duas para cada um.
     Talvez fosse a voz rouca, ou a timidez, ou o ar quase infantil, mas o fato  que se sentiu subitamente atrada por Alan, e isso a assustava.
      Melhor no  respondeu com tom antiptico.
      Como quiser. J encontrou tudo que procurava?
      Sim  ela disse, pegando uma camiseta com a estampa de Elvis e um short cor-de-rosa do cabide mais prximo. Todos os objetos foram jogados sobre o balco.
     Alan depositou as coisas que escolhera sobre as dela.
      Eu pago  anunciou, abrindo a carteira. Pam ameaou protestar, mas ele ergueu a mo.   o mnimo que posso fazer  e estranhou ao ver a balconista selecionar 
um pacote de adesivos plsticos entre as coisas de Pamela.
      Sempre quis ter uma tatuagem ela explicou encabulada. Cinco minutos mais tarde, equilibrando o pacote de compras, ela olhou para a escada que teriam de subir. 
Estava exausta, e a deciso de dividir um quarto com Alan por uma semana parecia mais absurda a cada instante. A caminho do quarto tiveram de parar vrias vezes 
para descansar, mas finalmente alcanaram o corredor escuro que passava por vrias portas antes de chegar ao 410.
     Pam ouvia as ondas do mar quebrando na praia e, animada, debruou-se sobre a balaustrada para tentar enxergar alguma coisa. Alan a enlaou pela cintura e puxou-a 
para trs com um movimento brusco, quase desesperado. As costas de Pam encontraram o peito masculino e ela emitiu uma exclamao de espanto. Depois de alguns segundos 
Alan a soltou e aconselhou-a em voz baixa:
      Nunca mais faa isso. No confio nesta balaustrada, e no estou com disposio para visitar o hospital depois de tudo que j enfrentamos.
     Com o corao disparado, Pam riu de maneira uma risada nervosa e esperou enquanto ele lutava com a fechadura no escuro.
      Podiam pr algumas lmpadas por aqui  ele reclamou. Em seguida, empurrou a porta e acionou o interruptor.
     Atnitos, pararam na soleira e olharam para o interior da sute.
      Parece que todas as lmpadas esto aqui  ele acrescentou. Pam afirmou com um movimento de cabea, sem fala. O quarto era uma ofuscante coleo de luzes coloridas, 
multiplicadas dezenas de vezes pelos espelhos que cobriam as paredes.
       uma discoteca  ele resmungou.
     A cama ocupava o centro do espao. Enorme e circular, fora colocada sobre uma plataforma de madeira. Uma luminria presa  cabeceira lanava sua luz brilhante 
sobre o edredom dourado, e era bvio que o objetivo do decorador no era estimular o hbito de ler.
      Pelo menos o carpete  novo  ela disse ao entrar.
      Sim, e devem ter pago uma fortuna por ele. Marrom desbotado  difcil de encontrar.
     Ela olhou em volta, examinando a cozinha verde-abacate e a sala de estar composta por um velho sof-cama e duas poltronas em forma de saco de feijo. O ambiente 
ficava separado do dormitrio por duas cortinas orientais que no chegavam nem perto do cho, e a tev fora colocada num ponto estratgico que podia ser visto de 
todas as partes da sute.
       espaoso  ela observou.  E funcional.
      Sim... para orgias.
     Rindo, Pamela deixou a bolsa e as compras sobre uma cadeira e foi inspecionar a cama. Tocou o edredom e viu os movimentos ondulatrios provocados pelo movimento 
sutil.
       um colcho de gua!  riu.  E veja isto  apontou, notando a garrafa apoiada sobre os travesseiros.  Licor de canela. Deve ser bom.
     Alan suspirou e olhou em volta com ar de desgosto, como se estivesse procurando uma forma de passar a noite ali sem tocar em nada.
      Que droga!  irritou-se.
     Pam deixou a garrafa sobre a cama. Era uma repetio da cena que testemunhara na locadora de automveis. Alan Parish no aceitava menos que o melhor.
      Relaxe, Alan! Isto  divertido!
      Fale por voc.
     Erguendo os ombros, ela ps as mos na cintura e encarou-o:
      Por que no desce do pedestal e vem conhecer a vida do outro lado do mundo?
      O que est querendo dizer?
      Quero dizer que a vida nem sempre  de primeira classe, e voc precisa aprender a lidar com as circunstncias.
      Sou capaz de lidar com elas, desde que sejam boas.
      Alan, voc no passa de um menino rico e mimado.
      No gostei do que disse.
      Azar seu, porque  a pura verdade.  Levando a sacola com os objetos de uso pessoal, ela se dirigiu ao que parecia ser o banheiro. Ao abrir a porta, no pde 
conter uma exclamao admirada.  Uau!
     Uma enorme banheira vermelha dominava o espao de azulejos claros. A pia, o chuveiro e o vaso sanitrio pareciam ter sido encolhidos para acomodar o utenslio 
extico, onde trs adultos podiam banhar-se com todo o conforto.
      Humm  Alan resmungou atrs dela.  Mais uma novidade.
      Mas no a ltima  e ela apontou para a janela sobre a banheira.
     O quarto que ocupavam era o ltimo numa formao semicircular, o que conferia viso completa de todos os outros aposentos do andar. Num deles a cortina havia 
sido deixada aberta e podiam ver um casal idoso que obviamente desprezava a moderna indstria da confeco. Pam olhou fascinada para as duas pessoas que, nuas, moviam-se 
pela cozinha com desembarao.
       como ver um desastre de automvel  disse.  Ningum quer olhar, mas  impossvel conter-se.
     A mulher virou-se de repente e, notando a presena dos vizinhos, cutucou o marido. Pam e Alan ficaram paralisados, como dois animais pegos pelos faris de um 
carro. O casal sorriu e acenou. Alan adiantou-se e fechou a cortina.
       inacreditvel  resmungou.  Aqueles dois tm idade suficiente para serem meus pais!
     Pam abriu a torneira de gua quente. Os primeiros pingos de gua pareceram enferrujados, mas depois de alguns segundos o jato normalizou-se e ela tampou a banheira, 
despejando nela um punhado de sais de banho que encontrou numa embalagem plstica.
      Nem todos perdem o interesse por sexo quando ficam mais velhos, Alan.  Os comentrios que a amiga fizera sobre o relacionamento ntimo com o namorado invadiram 
sua mente.  Isto , desde que algum dia tenham se interessado por sexo.
     Levando os braos s costas, encontrou o zper do vestido e comeou a abri-lo. Ento se lembrou que ele ainda estava no banheiro e parou.
      Alan, no tenho energia para jog-lo para fora, mas saiba que vou me despir nos prximos trinta segundos. Se no quer ser embaraado pela segunda vez na mesma 
noite,  melhor sair.
     Plido, ele saiu como se um fantasma o perseguisse. Pam riu, abriu o zper e livrou-se do vestido ftido e imundo. Depois de tirar a desfiada e o suti preto, 
entrou na banheira e deixou-se envolver pela gua morna e perfumada.
      Ahhhh!  exclamou satisfeita, mergulhando at o pescoo. De olhos fechados, deslizou as mos pelo corpo para remover a gordura, a poeira e o suor do dia tenebroso. 
Enquanto desfrutava do prazer proporcionado pelo banho, pensou em tudo que vivera nas ltimas horas.
     Alan Parish era o homem mais conservador que j havia conhecido. Compreendia que sua personalidade fora desenvolvida de acordo com tradicional famlia a que 
pertencia, gente de dinheiro e poder que j haviam merecido at uma placa numa das principais praas da cidade, a praa Parish. Diferente dela, que no tinha outra 
opo seno progredir, Alan era um pilar da comunidade.
     E ali estavam eles, duas foras opostas, juntos num quarto de hotel de terceira categoria. Fsforos e papel. Rosas e espinhos. Centro e periferia.
     Convid-la para aquela viagem havia sido a coisa mais espontnea que Alan j fizera. Irnico era saber que ele era o nico homem em Savannah capaz de convid-la 
para qualquer coisa sem intenes sexuais. Pam repousou a cabea na banheira. Podia relaxar. O relacionamento com Alan Parish jamais deixaria de ser platnico.
     Alan passou a mo pelo rosto e caminhou at o outro lado do quarto. No acreditava que fosse possvel estar to cansado e to alerta ao mesmo tempo. A cabea 
clamava por oito horas de sono para superar a ressaca, mas o resto do corpo respondia  presena de Pamela Kaminski, o caracol Kaminski, nua no aposento contguo.
     Irritado, arrancou a gravata e jogou-a do outro lado do quarto. Quando viu o prprio reflexo num dos inmeros espelhos, parou e surpreendeu-se com a raiva estampada 
em seu rosto. Orgulhava-se de estar sempre calmo, qualquer que fosse a situao, mas naquele dia... Naquele dia fora posto em prova por duas mulheres diferentes. 
A risada foi breve e amarga. Se no as conhecesse bem, suspeitaria de uma conspirao.
     O estmago roncou, o que o levou a ligar para a recepo. A voz aborrecida de Twiggy ecoou do outro lado.
      Sim?
      Meu... nosso pacote inclui refeies, e gostaria de saber se o restaurante do hotel ainda est aberto.
      Acabou de fechar.
      Oh, no! Estamos famintos! Posso pedir servio de quarto? Twiggy suspirou.
      O que vai querer?
      Dois fils e uma garrafa de vinho.
      Verei o que posso fazer.
      Obrigado.
     Como sua secretria havia conhecido esse lugar? Pensar nisso o fez pensar na necessidade de encontrar acomodaes para o resto da semana e ele chamou o servio 
de recados de Linda, deixando uma mensagem para entrar em contato urgentemente. Depois telefonou para a locadora de automveis, que prometeu substituir o veculo 
defeituoso na manh seguinte.
     Tentando esquecer os eventos das ltimas horas, Alan removeu a faixa que mantinha a camisa dentro da cala do fraque e despiu-se at a cintura, dobrando as 
peas com cuidado e deixando-as nas costas de uma cadeira da cozinha. Depois tirou os sapatos e as meias, e no carpete desbotado, executou cinqenta flexes. Ofegante, 
levantou-se e torceu o nariz para o cheiro do prprio suor. Uma ducha antes do jantar seria como visitar o paraso.
      Pam?  chamou, batendo na porta do banheiro.  Pedi nosso jantar no quarto. A comida j deve estar sendo trazida.
     Ela no respondeu. Impaciente, imaginou se Pamela teria adormecido na banheira, e j estava pensando em cham-la novamente quando a porta se abriu e ela apareceu 
triunfante, segurando as pontas de uma toalha muito fina sobre os seios, os cabelos molhados e a pele brilhante. De repente Alan teve a impresso de que as paredes 
o sufocavam. Pamela sorriu:
      Deixei minhas roupas aqui fora  e apontou para uma sacola no cho.
     Ao v-la passar, Alan sentiu o perfume do leo do banho e estremeceu. Era impossvel no acompanh-la com os olhos. As pernas longas e bem torneadas pareciam 
no ter fim, e seu corao ameaou parar quando a toalha, um pouco mais baixa nas costas, exibiu a cintura estreita e o comeo do...
      Adstringente  ela murmurou.
      O que disse?
      Lembre-me de comprar adstringente quando formos s compras amanh  ela explicou, abaixando-se e mostrando mais da metade das coxas.
     Alan sentiu que os joelhos fraquejavam e olhou para o teto, buscando foras.
      Est bem  respondeu.
      E um secador de cabelos.
      Entendido.  Ele arriscou mais uma olhada. Pamela permanecia de costas, inclinada sobre a sacola, quase totalmente exposta diante de seus olhos. Fechando-os, 
suprimiu um gemido.
      Est sentindo alguma coisa?
     Alan abriu os olhos. Pam o fitava com uma mistura de espanto e curiosidade.
      Oh, apenas fome e cansao. Como voc, suponho.
      Vai sentir-se melhor quando tomar um banho.
     Grato pela desculpa, ele escapou para o banheiro e fechou a porta, apoiando-se nela em busca de um pouco de controle. Mas ainda estava descomposto minutos mais 
tarde, quando se colocou sob o jato frio do chuveiro. Qualquer outro homem teria arrancado aquela toalha e levado Pamela para a cama. Por que no ele? Suspirando, 
massageou os msculos tensos da nuca. Porque Pam teria recebido com entusiasmo qualquer outro homem, mas o tratava como a um irmo mais velho. Um ser assexuado. 
Caso contrrio, no teria desfilado pelo quarto seminua, como se ele no estivesse presente. No reconhecia sua masculinidade nem mesmo Para manter um mnimo de 
modstia. S porque no era como os Neanderthals com quem ela costumava sair, no precisava trat-lo como se estivesse morto.
     As batidas na porta do reservado do chuveiro o assustaram.
      Alan?
     Perplexo, virou-se e cruzou as mos sobre as partes ntimas num gesto instintivo.

     CAPTULO IV

     Pam piscou. Havia visto corpos regulares e bons, mas quem teria imaginado que aquele magnfico exemplar percorrera as ruas de Savannah durante tantos anos difarado 
de Alan Prish? Ombros amplos e musculosos, peito definido, abdome plano... Se pelo menos ele tirasse as mos do caminho.
     Atravs da porta embaada, o rosto estava contorcido numa mscara furiosa.
      Pam!  ele gritou.  Costuma sempre invadir a privacidade das pessoas dessa maneira?
      No precisa ficar to nervoso. A menos que o seu seja verde, voc no tem nada que no tenha visto antes. Sua secretria est no telefone.
      Linda?
      Quantas secretrias voc tem?
      Ela j encontrou outro lugar para me... para nos hospedar?
      No perguntei. Para ser sincera, acho que ela ainda est se recuperando do susto de ter sido atendida por uma mulher.
      Oh, meu Deus! Pelo menos disfarou a voz?
      Para qu, Alan? Ela no me conhece!
      Tem razo. Alm do mais, Linda nunca suspeitaria de que est aqui comigo.
      Ningum suspeitaria. Nem em um milho de anos.
      E ento?
      E ento... o qu?
      Pegue uma toalha, por favor!
     Pam riu, divertindo-se com o constrangimento de Alan. Ainda havia uma toalha na prateleira, e ela a pendurou na porta do chuveiro e observou enquanto ele considerava 
revelar-se para peg-la. Trinta segundos se passaram.
     Alam moveu-se, o rosto vermelho como um pimento.
      Por favor, jogue-a por cima da porta, sim? Apertando os lbios para conter o riso, Pam fez o que ele pedia e o viu agarrar a toalha quase no cho, quando 
teve certeza de que ela havia passado pela linha da cintura. Balanando a cabea e rindo, ela saiu do banheiro e o deixou em paz.
     Espantoso, pensou, sentando-se numa das poltronas para deembaraar os cabelos. Alan era modesto! Tratava-se de uma caracterstica inesperada num homem atraente, 
bem diferente das tcnicas exibicionistas e pr-histricas de seus amantes transitrios. Pensando bem, talvez ele no fosse apenas modesto. Talvez tivesse traumas 
de infncias, coisas que o impediam de desfrutar das delcias do sexo. Lucy nunca falara muito sobre o assunto, e apesar da curiosidade sobre os detalhes, nunca 
a pressionara nem invadira a privacidade da amiga.
     O som da porta do banheiro invadiu seus pensamentos. Alan surgiu numa cala de moletom azul- marinho e dirigiu-se ao telefone. Estava limpando os culos com 
a toalha de banho e evitava encar-la, mas a posio rgida dos ombros indicava que ainda estava aborrecido com sua invaso.
      Al, Linda?
     Pam aproveitou a oportunidade para examin-lo melhor. A pele estava mida e brilhante, dourada e aparentemente lisa como a de um nadador.
      Acabou de voltar do casamento? Deve ter sido uma recepo inesquecvel!
     Os ombros largos exibiam msculos bem definidos que passeavam sob a pele a cada movimento dos braos.
      No, Linda, no precisa pedir desculpas. Fico feliz por ter gostado do champanhe. Sim, obrigado pelas condolncias, mas ningum morreu, lembra-se? E acho 
que foi melhor assim.
     Podia sentir o perfume do sabonete mesmo a distncia.
      Sim, decidi viajar assim mesmo.
     Pam notou o tamanho dos ps, fez alguns clculos mentais e apertou os lbios com admirao.
      Bem, o lugar no era exatamente o que eu esperava.
     A cala larga revelava o elstico da cueca que ele usava. Ser um gnio da informtica devia exigir mais do fsico que ela imaginava.
      Francamente, Linda,  uma pocilga!
     Agora que pensava no assunto, passara por ele na porta da academia de ginstica uma ou duas vezes.
      O que quer dizer com isso? Este no pode ser o nico quarto disponvel!
     O quadril era estreito e firme, com linhas aerodinmicas que sugeriam velocidade. O desejo comeou a se formar numa parte mais baixa de seu ventre, surpreendendo-a.
      A mulher que atendeu?  Alan lanou um olhar rpido por cima do ombro e virou-se.  No era ningum. Quero dizer, ningum que conhea. Sim, apenas uma camareira.
     Pam franziu a testa, mas uma batida na porta a impediu de interferir. Irritada, foi abrir e praticamente arrancou a bandeja da mo da recepcionista.
      Desligue  ordenou com tom seco. Alan fez um sinal positivo com o polegar.
      Continue procurando, Linda, e avise-me assim que encontrar alguma coisa.
     Quando desligou, Pamela j estava sentada de pernas cruzadas sobre a cama.
      Ms notcias  ele comeou, sentando-se na beirada do colcho e provocando uma pequena oscilao.
      Eu sei. No temos picles  e olhou para o prato de sanduches de queijo grelhado.
      Linda disse que com a alta temporada e a aproximao do dia dos Namorados, todas as acomodaes esto reservadas.
      Droga!  ela resmungou, enterrando os dentes no sanduche.  Queria picles.
      Ela vai ligar se encontrar alguma coisa.
      Hummm  e lambeu a gordura que escorria pelos dedos. Alan olhou para a bandeja.
      Pedi dois fils. Isto no  fil.
      Mas  gostoso  Pamela respondeu, abrindo uma lata de refrigerante.
      E isso tambm no  vinho.
      Voc pediu vinho?
      Estava incluso no preo. E o valor da estadia j foi pago.
      Pensei que estivesse cansada demais para comer, mas vejo que me enganei.
     Alan pegou um sanduche e cheirou-o.
      Estamos na cidade do colesterol.
      Minha terra natal.  Pam sorriu, partindo para o segundo lanche.  Viva um pouco, Alan.
     Ele torceu o nariz e provou o sanduche, mastigando devagar.
      Linda disse que o casamento foi um grande evento. Sabia que devia dizer algo reconfortante, mas as palavras lhe faltavam.
      Pensei que Lucy me amasse.
      Ela amava. Somos amigas e trocamos confidncias, e ela me falou do amor que sentia por voc.
      Ento nos enganou.
      Est sendo injusto, Alan. Lucy nunca mentiu Veja como esteve perto de se casar com voc por considerar a atitude correta.
      Pam, no tente no tente me consolar, est bem? Vai conseguir fazer com que eu me sinta ainda pior.
      Reconheo que o desfecho no foi o esperado, mas tem de admitir que ela foi honesta. E estava muito preocupada com voc.
      Sabia que John Sterling me traria problemas no instante em que o vi pela primeira vez.
      So necessrios dois para um tango, Alan.
      Tem razo. Ela deve ter se apaixonado pelo sujeito. Uma onda de piedade a invadiu. Alan fora roubado do futuro que planejara. Precisava dizer alguma coisa 
adequada.
      Se quer saber minha opinio, Lucy saiu perdendo com a troca.  Estendeu a mo para afagar o ombro dele num gesto de amizade, mas assustou-se com a descarga 
eltrica provocada pelo contato.
     Alan virou-se e os rostos quase se chocaram. Por alguns segundos nenhum dos dois falou. Depois ele se recuperou e respirou fundo.
      Acha mesmo que ela saiu perdendo?
     Sirenes de alerta ecoavam na cabea de Pamela. Tinha de lutar contra as estranhas sensaes que a invadiam. A tenso sexual a impedia de raciocinar. No meio 
de toda a confuso, uma mensagem clara foi enviada ao crebro. Ei, esse  Alan, e ele ainda est apaixonado por sua melhor amiga.
     Pam respirou fundo e afastou-se com cuidado, tentando no tornar o momento ainda mais incmodo. O colcho de gua os mantinha em constante movimento. Ela riu 
nervosa.
      Sim, eu acho  e abriu os braos.  Veja s o que ela perdeu em sua noite de npcias!
     Para seu alvio, Alan sorriu e olhou em volta.
      Algo me diz que Lucy no teria apreciado esta atmosfera tanto quanto voc. Ela nunca teria entrado naquela banheira ridcula.
      Foi divertido.
      E nunca teria escolhido uma cadeira em forma de saca de feijo para sentar-se ao pentear os cabelos.
      Na minha opinio, aquela  a pea de moblia mais cafona que existe no mercado.
      E esta cama...  riu. alisando o edredom dourado.  Ela jamais...  e parou, o rosto tingido por um rubor intenso.
     Pam encolheu os ombros.
      Ela poderia t-lo surpreendido. Alm do mais, colches de gua despertam fantasias.
      Aposto que fala por experincia prpria.
      Minha primeira experincia, para ser mais exata. Foi tudo to sem graa, que me espanto por no ter pssimas recordaes.
      Minha primeira vez tambm foi menos que memorvel. Desde aquele dia tenho verdadeira averso a escadas em forma de caracol.
      Escada...? Voc?
      Foi a primeira vez que bebi o famoso usque de Kentucky.
      Ah! Agora entendo.  Pam deixou o que restava do sanduche no prato e bocejou.  Acho que os eventos do dia esto comeando a surtir efeito em meu corpo. 
E ainda no so nem dez!
      Que tal assistirmos a um filme antes de... de irmos dormir?
      Boa idia  ela aceitou, estendendo-se na cama de acordo com o arranjo previamente combinado. Sentia-se perturbada pela recm-descoberta atrao por Alan, 
e grata por ele no partilhar de sua insanidade temporria. A idia de dormir com Alan e voltar a Savannah para encarar a melhor amiga era terrvel.
     Pelo canto do olho, viu quando ele foi deixar a bandeja sobre a cmoda. Movia-se com elegncia casual, passando a mo pelo cabelo numa tentativa frustrada de 
alinhar as mechas rebeldes. Pam gemeu e cruzou os braos sobre os seios.
      Oh, meu Deus, dai-me foras para no ceder  tentao  rezou num murmrio.
      Espero que a tal videoteca tenha algo decente a oferecer  e aproximou-se do armrio sobre o qual repousava a televiso, abrindo as portas duplas para examinar 
as fitas disponveis. Quando se abaixou, a cala desceu mais um pouco e revelou parte da pele mais clara abaixo do elstico da cueca.  timo! Denise Dorme em Denver, 
Grande, Escuro e Solitrio, e o promissor clssico Homem Trip.
      E por favor, faa com que a tentao no se torne grande demais.
      Disse alguma coisa, Pam?
      No. Estava apenas recitando a lista de coisas que devo fazer amanh.
      Est pensando nas compras?
      No, eu... tenho de telefonar para Savannah e verificar uma transao que estava em andamento.  Era verdade, embora no houvesse pensado no assunto at aquele 
momento.
      Algum lugar que eu conhea?
      A casa dos Sheridan. Ele assobiou.
      A comisso ser espantosa.
      Por isso preciso acompanhar o negcio de perto.
     Depois de guardar as fitas, ele apanhou o controle remoto da tev e foi sentar-se nos ps da cama. De costas para ela, perguntou:
      A casa dos Sheridan no  assombrada?
      Por favor, no alimente esses rumores. Aquela casa est no mercado h quase dois anos e finalmente encontrei um interessado.  E por favor, no chegue mais 
perto.
      Ei,  o Arquivo X!  Feliz, Alan acomodou-se ao lado dela na cama. Com as costas apoiadas nos travesseiros, estendeu as pernas e cruzou-as na altura dos tornozelos.
     Pam prendeu o flego, perturbada com a proximidade. A cabea latejava a cada movimento do colcho.
      J vi esse episdio  disse. Ele a encarou e ajeitou os culos.
       mesmo? Gosta dessa srie?
      Adoro! Na verdade, sou fascinada por fico cientfica.  Eu tambm.
     Pam manteve-se imvel, a coxa quase tocando a dele.
      Acha que Mulder e Scully algum dia ficaro juntos?
      Espero que no.
      Por qu?
      Porque eles so excelentes parceiros. Sexo acabaria por... Ah, voc sabe...
      Complicar as coisas?  Pam tentou.
      Exatamente.  Sorrindo, forou-se a tirar os olhos dela e concentrar-se na televiso. A pele arrepiava-se a cada intervalo de dez segundos, e tinha de manter 
uma das pernas flexionada para esconder a reao fsica que ela provocava.
       evidente que Mulder considera Scully muito sexy.
      Voc acha?
      Sem dvida.  E arriscou mais um olhar na direo dela. Os olhos estavam no mesmo nvel do peito de Pamela... que no usava suti. Ela o fitou, sorriu, e 
Alan sentiu a perna tremer.  No percebe pela maneira como ele a segue com os olhos?
     Pamela olhou para a tev.
      Ele faz isso?
      Sim, e esto sempre invadindo o espao pessoal um do outro.
      Como pode afirmar?
      Meio metro. Os americanos gostam de preservar um espao privado de meio metro em torno deles.  Comeou a desenhar um arco imaginrio  sua volta, mas parou 
ao perceber que a linha a incluiria no crculo. Perna no parava de tremer.  Esse  o espao reservado para... para...
      Intimidades?  ela sugeriu, com ar inocente. Alan sentiu o corao disparar.
      Ou teclados...
     Pam o encarou com as sobrancelhas erguidas.
      O que disse?
     Ele encolheu os ombros, sentindo-se tolo.
      Trata-se de uma piada de computador. A maior parte de ns passa mais tempo com seu terminal do que com outras pessoas.
      Tem razo  ela riu, incapaz de conter um bocejo. timo, Parish. Alm de deix-la com sono, voc se comporta como um adolescente idiota!
     Sabia que, quando o assunto era sexo, ela gostava de experimentar. O que era como uma bofetada no rosto, considerando o fato de estarem na cama juntos e ela 
lutar para manter os olhos abertos.
     Olhando para a televiso, tentou perder-se na fantasia exibida na tela. Sua noite de npcias acabara sendo menos excitante do que havia imaginado.  claro que 
no convidara Pam como uma substituta para Lucy. Dormir com ela nem passara por sua mente.
     Bem, talvez houvesse passado, mas no seriamente. Era como ver uma modelo ou uma atriz atraente no cinema. Para ele, Pamela Kaminski sempre fora uma criatura 
distante e intocvel. E embora uma de suas coxas estivesse quase roando na dele, era como se ainda estivesse em Savannah, tal a distncia que os separava.
     Frustrado, mordeu o interior do lbio. Se virasse o corpo para a esquerda, estaria com o rosto muito perto dos seios da mulher mais linda e sensual que jamais 
conhecera. Talvez s precisasse dar o primeiro passo. Ento ela arrancaria as prprias roupas e exibiria o que metade de Savannah sonhava ver. Talvez fossem bons 
juntos e tivesse um orgasmo alucinante.
     Confiante, tomou uma deciso. Pela primeira vez na vida agarraria o momento e jogaria todas as fichas numa s cartada. Antes que pudesse mudar de idia, respirou 
fundo e girou o corpo, percebendo tarde demais que cometera um pequeno erro de clculo com relao ao tamanho dos seios de Pamela. O queixo encontrou a pele macia 
e perfumada e a mente girou mais depressa. Tentando encontrar algo apropriado para dizer, lutou contra o pnico que explodia em seu peito e ergueu a cabea, temendo 
o momento de fit-la. Estava apavorado... at perceber que ela dormia.
     Alan levantou-se e deixou escapar um suspiro de alvio e frustrao. Os olhos vagaram pelo corpo curvilneo, detendo-se nas sombras escuras dos mamilos sob 
a camiseta fina. Elvis sorria, feliz por estar deitado sobre o ventre de uma mulher to atraente.
     Uma parte de sua anatomia despertou para a vida e ele gemeu. Devagar, estendeu a mo na direo das pernas reveladas pela camiseta curta. Ela dissera no usar 
roupas ntimas. Teria coragem de espiar? Afinal, ela o vira nu no banheiro.
     No. No era um pervertido. Se algo acontecesse entre eles, teria de ser consensual.
      Pam  sussurrou.
     Ela suspirou e virou-se de lado, o rosto voltado para ele. Mas no acordou.
      Pam  Alan repetiu em voz mais alta.
     Prendeu o flego ao ver que ela abria os olhos e movia os lbios, como se fosse falar. O desejo era to intenso que o corao batia depressa, antecipando o 
momento d t-la em seus braos.
      Alan?  ela sussurrou, fechando os olhos novamente.
      S... sim?  gaguejou esperanoso.
     Ela umedeceu os lbios, enlouquecendo-o com o gesto simples. Alan aproximou-se da boca entreaberta, disposto a acord-la com um beijo, mas o som que brotou 
de sua garganta o fez parar.
     Pamela estava roncando... alto o bastante para fazer vibrar o espelho do teto.

     CAPTULO V

     Pam sentiu uma coceira na perna. Tentando ignor-la, afundou a cabea no travesseiro e desfrutou dos ltimos momentos de sono. Mas a coceira persistiu at que 
ela estendeu a mo e coou o joelho. Sabia que devia ter se depilado, mas no imaginava que a pele estivesse to grossa.
     Ao abrir os olhos, deparou-se com uma imagem assustadora no espelho do teto. Alan, usando apenas cueca, dormia enroscado em seu corpo como um urso coala num 
tronco de eucalipto, um brao atravessado sobre seu peito e uma perna flexionada em cima de seu abdome. Sentia a respirao quente em seu pescoo. A mente girou 
depressa e o pnico a invadiu. A ltima coisa que lembrava era de ter assistido  televiso... Teriam... Oh, Deus, que volume era aquele em sua perna?
     Pam o empurrou e o arrastou ao tentar rolar para longe do corpo adormecido. O colcho fluido balanou, os envolveu e jogou um contra o outro, despertando Alan 
de seu sono profundo.
      O que foi?  ele resmungou, levantando a cabea.
     Os culos estavam tortos sobre a cabea e os cabelos haviam terminado de secar em todas as direes, menos na descendente.
      Saia de cima de mim  Pamela exigiu com clareza. Sonolento, ele no parecia ouvi-la.
      Alan, no sou Lucy! Saia de cima de mim!
     As palavras provocaram o efeito desejado.
      Pam?
      Em carne e osso.
     Ele no perdeu tempo em afastar-se, mas levou alguns segundos para pisar no cho. Pam o seguiu com os olhos, preferindo no se deter no volume que marcava a 
parte frontal da cueca. Para no tornar ainda pior a terrvel dor de cabea que ameaava estragar seu dia, permaneceu quieta at que o colcho parou de balanar.
     Tateando pela superfcie dos mveis, provavelmente procurando os culos, Alan se chocou contra o sof-cama. O encontro entre carne e metal provocou um rudo 
assustador.
      Onde esto meus...  perguntou, enquanto virava-se de um lado para outro.
      Esto na sua cabea, Einstein.
     Alan colocou os culos e olhou para a cama como se ainda no houvesse compreendido a situao.
      Presumo que tenha dormido bem  Pamela comentou sarcstica. Depois de alisar os cabelos com as mos, ele se abaixou para apanhar a cala de moletom.
      Como poderia, se voc roncou a noite toda?
     Irritada, levantou-se de repente e sentiu a dor explodir como um cogumelo em seu crebro.
      Sempre se encolhe naquela posio fetal quando est aflito? Combinamos que voc dormiria no sof!
      Tentei abrir aquela coisa, mas ela est emperrada. Pamela massageou as tmporas e olhou para a janela, notando os raios de sol alm da cortina fechada.
      Que horas so?
     Alan segurou a cala com uma das mos e apanhou o relgio com a outra.
      Quase dez.
      Bem, pelo menos as lojas j esto abertas.
      Esquea as lojas. Quero um restaurante.
      Est bem. Comeremos alguma coisa e depois iremos s compras.  Felizmente a tenso comeava a dissipar-se.  Gostaria de saber qual  a previso da meteorologia 
para esta semana.
     Alan pegou o controle remoto, ligou a tev no canal da meteorologia e jogou o equipamento sobre a cama. Sem dizer mais nada, foi para o banheiro mancando.
     Pam franziu a testa. Ele no precisava ser to indelicado. Afinal, no s a convidara para a viagem, como insistira muito para que aceitasse o convite. No 
estava sendo um anfitrio muito gentil.
     Pelo menos a me natureza decidira colaborar. De acordo com a jovem que apresentava o boletim, estavam no meio de uma forte onda de calor que garantiria temperaturas 
altas para a estao e muito sol.
     Mais animada, Pam saiu da cama e caminhou at o extremo oposto do quarto, o mais afastado do banheiro. A luz do dia o lugar era horrvel. Gemendo, espreguiou-se 
e abriu as cortinas que cobriam a porta de correr. A varanda que a recepcionista mencionara com tanto orgulho era do tamanho de um refrigerador cercada por grades 
de ferro. Apesar da dor provocada pela luz intensa, abriu a porta e saiu para o ar fresco, sentindo que as energias se renovavam com a chegada de um novo e lindo 
dia.
     Um lance de escada de aparncia duvidosa levava a um caminho estreito que desaparecia entre palmeiras e grama. Pam deu um passo e parou, decidindo no abusar 
da sorte. Se casse e quebrasse uma perna, Alan a sacrificaria para no ter de lev-la ao hospital.
     No fosse pelo imenso luminoso do Hotel Grand Sands, ao lado, teriam realmente uma vista esplndida. Apesar da obstruo, podia vislumbrar uma faixa estreita 
de areia branca ocupada por turistas madrugadores que, cheios de energia, caminhavam e procuravam conchas. O ar era salgado. Respirando fundo, sentiu os aromas tpicos 
do litoral e experimentou uma onda de felicidade por ter aceitado o convite de Alan. As circunstncias no eram ideais, mas amava o oceano e as praias de Savannah 
eram frias demais nessa poca do ano.
     Cantarolando, voltou para o quarto e fechou a porta de vidro. Os olhos encontraram a porta do banheiro e o entusiasmo evaporou. Era evidente que Alan se arrependera 
de t-la convidado para participar de sua lua-de-mel. No podia substituir a mulher que ele amava. Mas estava ali, e prometera a Lucy que cuidaria dele. Culpada, 
pensou em todas as vezes que o observara e teve certeza de que no era bem isso que a amiga tinha em mente. Erguendo o queixo, reuniu toda a fora de vontade de 
que dispunha. Podia manter a luxria sob controle por uma semana, mas no o deixaria choramingar e estragar o nico perodo de frias que havia tirado nos ltimos 
vinte meses!
     Ao ver seu reflexo num dos muitos espelhos disponveis, Pamela no pde conter um gemido. Como se ele estivesse interessado! Sua amiga Lucy saa da cama com 
a melhor aparncia possvel, mas ela parecia ter sido arrastada por um cavalo selvagem.
     Deixando-se cair na cama desfeita, agarrou o telefone. Precisava ouvir os recados e verificar se a Sra. Wingate decidira comprar a casa dos Sheridan, apesar 
dos boatos sobre assombraes. Conseguiu uma conexo com o servio de mensagens na primeira tentativa. O recado de Nick, o Noite-Toda era quente o bastante para 
derreter a linha. E Lucy havia ligado para perguntar se conseguira alcanar Alan. Esperava notcias.
     Pam olhou para a porta do banheiro no instante em que ela foi aberta. Falando no diabo... Engolindo em seco, examinou a tentadora viso revelada pelo short 
preto e a camiseta cavada. Ele ofereceu um sorriso tmido, sinal de que o banho servira para melhorar seu humor. Pam ergueu o dedo num pedido de silncio e voltou 
ao telefone, tentando concentrar-se no recado da amiga. Com um suspiro preocupado, Lucy agradeceu por ela ter ido atrs de Alan e pediu para telefonar para a casa 
de John, ou melhor, para sua casa. Pam sorriu, feliz pela amiga, mas perturbada com a confuso que deixara para trs.
      Lucy deixou um recado  disse.
     Alan manteve o rosto impassvel. Impassvel demais.
      O que ela queria?
      Oh, apenas saber se eu tinha notcias suas.
      Por qu? No sou mais problema dela.
      Lucy est preocupada com...
      Escute, nunca tive tendncias suicidas, e ela sabe disso. Pam levantou-se e ps as mos na cintura.
      Matar o portador de ms notcias  uma prtica que foi abandonada h muito tempo.
      Desculpe. No estou me sentindo muito bem.
      Bem-vindo ao clube.
      Voc no parece to ruim. Quero dizer, sua aparncia ... bem razovel.
     Pamela sorriu e virou-se para o banheiro.
      Bela tentativa. Vou tomar uma ducha rpida.
     Alan a seguiu com os olhos e viu a curva dos quadris delineada sob a camiseta.
      Isto  loucura!  disse para seu reflexo no espelho.
      Por que est to preocupado?  o reflexo devolveu.  Durma com ela e pronto!
      No posso. Ela  a melhor amiga de minha ex-noiva.
      Melhor ainda.
     Alan fechou os olhos e contou at dez. Depois os abriu e argumentou com o espelho.
      Parece que nos metemos numa bela confuso.
     Talvez a secretria encontrasse acomodaes menos insinuantes.
     Pam voltou ao quarto minutos mais tarde, radiante como um raio de sol. A pele brilhava e os cabelos haviam sido presos num jovial rabo-de-cavalo. O short de 
corrida e a camiseta larga e confortvel a tornavam ainda mais tentadora.
      Pronto?  ela perguntou.
      E bem-disposto  Alan mentiu, pegando a carteira sobre a cmoda.
     No ltimo instante, ambos calaram chinelos de borracha que mais pareciam instrumentos de tortura, tal o desconforto que provocavam.
     A recepo estava vazia. Uma mulher gorda e carrancuda tomava caf diante da televiso, e apontou na direo do restaurante ao notar que estavam perdidos. Pamela 
e Alan caminharam na direo indicada e logo sentiram o cheiro da comida.
     Alan foi o primeiro a perder o entusiasmo diante do restaurante lotado. Agarrando o cotovelo de Pamela, indicou a fila do buf.
      Se conseguiu pegar comida para ns dois, tentarei encontrar uma mesa.
     Ela moveu a cabea em sentido afirmativo e dirigiu-se  fila. Alan percorreu o salo e logo notou uma famlia deixando uma mesa coberta por pratos vazios. Aproximou-se 
apressado, e chegou junto com um casal carregando bandejas cheias.
     O homem de cabelos grisalhos sorriu.
      Que tal dividirmos a mesa?
       claro  Alan aceitou.
      Somos os Kessinger  o homem anunciou.  Meu nome  Cheek, e esta  Lila.
     Alan apresentou-se e puxou uma cadeira para a mulher.
      Estou acompanhado  disse.
      Somos de Michigan  Lila contou.
      Savannah  ele respondeu ao sentar-se. Simpticos, os Kessinger revelaram que costumavam viajar todos os anos, fugindo do inverno rigoroso de Michigan.
      A est voc!  Pam exclamou, equilibrando dois pratos cheios de comida.
     Alan pegou um deles e apresentou-a ao casal.
      Como vo?  Pam cumprimentou cordial antes e sentar-se. Alan examinou o prato com a testa franzida. Todos os itens selecionados eram fritos.
      Vejo que no se preocupa muito com o colesterol  reclamou.
      Coma!  Pam comandou autoritria, comeando por uma salsicha empanada.
     Imaginando frutas frescas e po integral, Alan engoliu alguns bocados da refeio gordurosa. Lila falava sem parar e Cheek no tirava os olhos de Pam, o que 
o levou a reconhecer uma surpreendente e intensa pontada de cime.
      So recm-casados?  Lila quis saber.
      No. Somos apenas...
      Amigos  Alan interferiu.
      Companheiros  ela confirmou.
      Oh. Pensei que fossem casados. Esto na sute nupcial, no?
      Como sabe em que quarto nos hospedamos?  Alan estranhou. Lila sorriu.
      Estamos na sute do outro lado do corredor. Lembram-se que acenamos?
     Ele franziu a testa, tentando lembrar, e gemeu ao sentir o p de Pamela em contato com sua canela. S precisou olhar para as sobrancelhas erguidas para recuperar 
a memria. O casal de nudistas! Vermelho, deixou o garfo sobre o prato.
      Desculpem, no os reconheci...
      Porque somos mopes  Pam cortou.  No enxergamos muito bem a distncia. No  verdade, Alan?
      Sim,  isso mesmo. Na verdade, no vimos nada. Disse que acenaram?
     Lila respondeu com um movimento afirmativo de cabea, enquanto Cheek debruou-se sobre a mesa e continuou devorando Pam com os olhos.
     Alan consultou o relgio e fingiu estar assustado.
      Meu Deus, vejam que horas so! Precisamos ir  e comeou a se levantar.
      Mas eu ainda no acabei de comer!
      Compraremos alguma coisa na rua.
     Estranhando a impacincia de Alan, ela achou melhor segui-lo.
      Est bem  concordou, limpando a boca antes de levantar-se.  Foi um prazer...
     Alan a segurou pelo brao e quase a arrastou para fora do restaurante.
      Tire a mo de cima de mim!  ela exigiu furiosa, soltando-se com um movimento brusco.  Qual  o problema com voc?
      Essa  a gratido que recebo?
      Gratido? Por qu?
      Aquele velho sujo parecia prestes a transform-la em caf da manh!
     Pam jogou a cabea para trs e riu.
      Alan, voc est com cimes!
      O qu? Isso  ridculo!
      Tem certeza?
      No seja tola, Pamela. Pensei que quisesse ir fazer compras.
      Oh, eu quero. Voc no imagina quanto!  Ela sorriu triunfante.
      Ento, vamos ver o que a locadora de automveis nos mandou.
     Girando to depressa quanto permitiam os chinelos de borracha, dirigiu-se ao saguo com passos rpidos e furiosos. Odiava aquela provocao maliciosa que o 
colocava na mesma categoria de seus admiradores.
     Twiggy retomara seu posto, e parecia to entediada quanto na noite anterior. Ao ser interpelada sobre um carro enviado pela locadora, ela apanhou a chave numa 
gaveta e apontou para o estacionamento sem dizer nada.
      Finalmente alguma coisa est dando certo!
     Alan dirigiu-se ao estacionamento e parou ao ver o veculo com o selo de identificao da agncia de aluguel.
      Uma limusine!  Pamela exclamou, rindo at perder o flego. Mas Alan no via graa nenhuma na situao.
       inacreditvel  reclamou, apanhando o bilhete deixado no pra-brisas.
      Caro, sr. Parish, por favor, aceite este veculo como um pedido de desculpas pelos inconvenientes causados anteriormente.  Depois de ler a mensagem, olhou 
para o automvel azul celeste e suspirou.
      Meu Deus... Eles me mandaram um bordel ambulante.
     Pam ainda ria.
      Que maravilha!
     Paralisado pelo choque, viu quando ela abriu a porta traseira.
      Uau! Alan, temos at uma televiso a bordo!
     Estou vivendo um pesadelo!, pensou.
      Vamos devolv-la.
      Por qu? No podemos!
       claro que podemos.
     Pam uniu as sobrancelhas e valeu-se de sua arma secreta: o bico. Maldio! Devia saber o que aquela boca fazia com ele!
      Bem, talvez fiquemos com ela, mas s por hoje.
     Ela sorriu e entrou no automvel.
      Vou no banco de trs  anunciou, batendo a porta com fora. Sentindo-se o maior de todos os idiotas, Alan olhou em volta antes de ir sentar-se atrs do volante. 
Pam j havia encontrado o boto que operava a divisria entre eles e estava subindo e descendo o vidro.
       divertido!
     Ele olhou pelo espelho retrovisor para o rosto sorridente, viu que Pam apertava botes e explorava, e sentiu um estranho aperto no corao. Por mais irritante 
que fosse, seu entusiasmo tambm era contagiante. Em algum ponto entre a infncia e a juventude de aspirante a executivo de sucesso, perdera o gosto pelas coisas 
simples. Agora se perguntava quantos prazeres puros e maravilhosos deixara de conhecer nos ltimos anos.
      H um refrigerador!  ela gritou.  E azeitonas!
     Alan entrou na estrada sempre atento a Pamela. Ela estava reclinada no banco, as pernas apoiadas no assento lateral e o vidro de azeitonas em uma das mos. 
Comia os pequenos frutos como um esquilo engole nozes. Por alguma razo, Alan considerou a cena provocante.
      Ei, alguma vez ficou nu numa limusine?
     Perturbado, saiu da faixa central e quase bateu de frente com um veculo que vinha em direo contrria. Respirando fundo para controlar o sbito fluxo de adrenalina 
que invadia seu corpo, respondeu:
      No. Nunca fiquei nu numa limusine.
      Nem eu.
     Apesar da confisso surpreend-lo, Alan no disse nada. Por alguns instantes pensou na possibilidade de compartilhar da primeira sugesto sexual de Pamela. 
Pelo que ouvira dizer, a nica varivel que podia acrescentar  sua vasta experincia era a localizao. Banindo a idia da mente, manteve a boca fechada e os olhos 
atentos s placas. Precisava encontrar um centro comercial.
     Assim que localizou um shopping center, Alan enfrentou a rdua tarefa de conseguir uma vaga no estacionamento. Finalmente passaram pelas imponentes portas de 
vidro e ele teve a sensao de recuperar parte da normalidade ao deparar-se com pessoas comuns num ambiente elegante. Determinado, seguiu para uma conhecida loja 
de departamentos.
      Podemos nos separar  Pam sugeriu.
      De jeito nenhum. Vou pagar pelas compras.
      Ei, voc no...
      No discuta comigo. Eu a convenci a vir, e  minha responsabilidade...
      Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma.
     Alan recuou ao ouvir a veemncia nas palavras simples.
      Sei que pode cuidar de si mesma, mas me sentiria mal se voc ainda tivesse de gastar algum dinheiro. Eu a afastei do trabalho, lembra-se? Por favor, deixe-me 
fazer as coisas ao meu modo. Vou me sentir melhor assim.
     Pam refletiu sobre o que acabara de ouvir e, encabulada, sorriu.
      Acho que est  a primeira vez que um homem se oferece para fazer algo por mim a fim de sentir-se bem.
      Talvez tenha se envolvido com os homens errados.
     O sorriso desapareceu de seus lbios e ela o encarou.
      Talvez tenha razo  respondeu num sussurro.
     Alan estudou o rosto triste e respirou fundo, certo de que o peito ia explodir. Aquela mulher o estava enlouquecendo. Num minuto o fazia sentir-se um adolescente 
inepto, e no instante seguinte era dominado pela necessidade de proteg-la, cuidar dela.
     O que era absurdo, j que acabara de ouvir a prpria Pam declarando-se capaz de cuidar de si mesma.
     Cruzando os braos, conteve o mpeto de afastar a mecha de cabelos que caa sobre o rosto suave. Gostaria de segurar o queixo delicado e virar aquela pele de 
porcelana na direo do sol. E adoraria beijar a boca rosada e carnuda.
      O que est esperando?
     Alan chegou a dar um passo na direo dela antes de perceber que Pamela falava sobre as compras.
      Por onde comeamos?
      Pela loja de sapatos masculinos.
      O qu?
     Ela apontou para os chinelos nos ps dele e riu.
      Vai precisar de calados confortveis para acompanhar-me.
     Havia sido uma boa idia, Alan decidiu trs horas mais tarde, sentado ao lado de um cavalheiro mais velho do lado de fora do provador de uma loja feminina.
      Aniversrio?  O homem perguntou aborrecido.
      No.
      Alguma comemorao especial  ele insistiu, tirando um cigarro do mao e colocando-o na boca.
      Tambm no.
      Ah... andou fazendo algo errado e quer que ela o desculpe.
      No.
      Oh, no! No me diga que est apaixonado!
      Pam!  Alan chamou impaciente.  Preciso comer alguma coisa nutritiva, para variar. Estou comeando a ficar tonto.
      Acho que encontrei um traje de banho  ela respondeu antes de abrir a porta.  O que acha?
      Meu bom Deus!  O homem deixou cair o cigarro apagado. Alan agarrou-se ao banco para controlar a tontura. As curvas de Pamela eram surpreendentes! Dourado, 
o suti do sumrio biquni mal cobria os mamilos dos seios generosos. A calcinha cavada em "U" realava a cintura fina e o quadril arredondado. Sentia a garganta 
oprimida e sabia que gotas de suor brotavam acima de seu lbio superior, apesar do ar-condicionado. Pamela deixou de sorrir.
      No gostou?
      Ele adorou!  o homem gritou entusiasmado. Em seguida bateu no brao de Alan com tanta fora, que o jogou para fora do banco.
     Deitado de costas no carpete macio, Alan umedeceu os lbios ressequidos e respirou fundo antes de responder com voz rouca:
       bonito...

     CAPTULO VI

      No est com frio?  Alan perguntou pela dcima vez. Pamela encarou-o e ajeitou os culos de noventa e nove centavos.
      No.
      Parece estar com frio.
      Ento pare de olhar.  Ela reclinou a cabea na espreguiadeira de plstico branco que a mantinha alguns centmetros acima da areia branca e mida.  E pare 
de falar.
     Depois de ter passado o dia anterior fazendo compras com ele e ter dividido um jantar silencioso, estava pronta para comear a gritar. Haviam passado o dia 
todo tensos, e a situao culminara numa violenta discusso sobre as acomodaes que ocupavam. Alan se recusava a dormir no sof-cama quebrado. No final Pam conseguira 
convenc-lo a manter os arranjos acertados previamente, mas ele passara a manh toda reclamando de dor nas costas.
     Apesar do silncio, ele a estava enlouquecendo, escondido atrs das lentes espelhadas recomendadas por um especialista, lembrando-a que estava praticamente 
nua e ao alcance das mos dele e, no entanto, ele no tinha nenhuma inteno de toc-la. Melhor assim, porque esmurraria o nariz dele se ousasse encostar um dedo 
em seu corpo.
     Como se fosse cometer a insanidade de se envolver com o ex-noivo da melhor amiga. Pam fechou os olhos e concentrou-se, tentando dissolver a tenso sexual que 
a envolvia.
     Afinal, quando voltassem a Savannah, Alan encontraria Lucy em uma ou outra festa, mas Pamela a veria pelo menos duas vezes por semana. Lucy sempre fora uma 
grande amiga, e no tinha a inteno de arriscar um relacionamento verdadeiro por um romance de frias, por mais atraente que fosse o objeto em questo.
     O sol brilhava absoluto num cu sem nuvens. Conforme havia sido previsto, a temperatura mantinha-se em torno dos vinte e sete graus, mas a gua era fria. Mesmo 
assim, vrias pessoas brincavam nas ondas brancas, algumas com barcos, outras com mscaras de mergulho.
     A praia estava mais cheia do que esperava. Estreos portteis emitiam todo o tipo de msica e o aroma de leo de bronzear misturava-se ao ar salgado, mascarando 
um pouco o cheiro de peixe. Guarda-sis ocupavam boa parte da extensa faixa de areia e garonetes desviavam dos corpos seminus para levarem drinques e sanduches 
aos clientes do quiosque que funcionava na entrada da praia. A atmosfera de veraneio era mais uma dentre as muitas surpresas que a viagem proporcionara, ela pensou, 
lanando um olhar de soslaio para Alan.
     Atento ao livro que comprara no shopping, ele parecia relaxado e tranqilo. Pam torceu o nariz numa expresso azeda. Enquanto ardia consumida por pensamentos 
imprprios, ele lia!
      O que  agora?  Alan perguntou, desviando os olhos da pgina.  Minha respirao a incomoda?
     Os olhos vagaram pelo peito coberto de leo, notando os msculos que se expandiam e contraiam a cada cinco segundos. Podia ver-se refletida nas lentes dos culos 
escuros, e imaginou se ele tinha idia do que estava fazendo com seu equilbrio. Incapaz de suportar a confuso e o esforo para manter a calma, levantou-se e amarrou 
um sarongue preto e curto em torno dos quadris.
      Vou dar uma volta.
     Alan fechou o livro, tomando o cuidado de marc-lo com um dedo.
      Quer companhia?
      No, obrigada  e partiu antes que ele insistisse.
     A faixa entre a areia e o mar era a melhor para caminhadas. Pamela atravessou o oceano de banhistas, ignorou alguns comentrios mais vulgares e enterrou os 
ps na areia molhada. A gua molhou suas pernas, provocando um arrepio gelado.
     A praia estendia-se interminvel diante de seus olhos. Pam respirou fundo e comeou a caminhar devagar, certa de que nada podia exercer melhor efeito sobre 
uma mente confusa do que o vento, a gua e o cu.
     Enquanto andava, notou que vrios rapazes atraentes passavam correndo ou caminhando em direo contrria, e diversos se mostraram interessados. Um sorriso distendeu 
seus lbios. Uma forma de combater a ridcula atrao por Alan era encontrar outro homem para distra-la. Algum parecido com Robert Redford passou por ela e sorriu. 
Pam virou-se e o viu afastar-se. Era um pouco baixinho, mas definitivamente atraente. Ele havia feito meia-volta e corria em sua direo, sem sequer tentar disfarar 
o interesse em sua silhueta. Depois de parar para cumprimentar um grupo de adolescentes, ele despediu-se e seguiu seu caminho.
      No me diga que est sozinha  uma voz profunda disse atrs dela.
     Assustada, Pam virou-se e fitou o desconhecido de olhos e cabelos negros. Ele parecia ser latino-americano, e a pele bronzeada reluzia tanto quanto o ouro que 
enfeitava seu pescoo, os pulsos e a orelha esquerda. O sorriso exibia dentes perfeitos. Moreno, perigoso, bonito... exatamente seu tipo.
      Eu... sim  respondeu.  Por enquanto.  Uma mulher tinha de ser cuidadosa num ambiente desconhecido.
     O homem estendeu a mo bem cuidada. Ele usava uma ferradura de diamantes no dedo mdio.
      Enrico  apresentou-se com tom sedutor. Pam sorriu e aceitou o cumprimento.
      Pamela.
      Ah, Pamela. Mora aqui, ou est de frias?
      Estou de frias.
      Certamente acabou de chegar, ou eu j teria notado to bela presena.
      Sim, cheguei de Savannah ontem.
      Sabia que havia detectado um leve... sotaque.  assim que dizem?
      Sim,  isso mesmo. E voc, de onde ?
      Nasci em Porto Rico, mas vivo nos Estados Unidos h muitos anos.
      Em Fort Myers?
      No. Como voc, tambm estou passando frias aqui.  Inclinando-se na direo dela, abaixou o tom de voz.  E j estava comeando a ficar entediado.
     Era estranho, mas sentia apenas indiferena diante do latino sedutor. Nenhum arrepio. Nenhum tremor. Nem mesmo um ligeiro interesse.
      Bem, vou continuar caminhando  disse, desviando dele para seguir em frente.  Foi um prazer conhec-lo, Enrico.
      At a prxima vez, Pamela.
     Mantendo os olhos fixos num ponto distante para evitar novos e inquietantes encontros, caminhou cerca de trs quilmetros e, notando um grupo de rapazes praticando 
windsurf, decidiu que experimentaria o esporte antes de partir. Assim ocuparia o tempo e distrairia a mente, em vez de se meter em confuses com o companheiro de 
viagem. Precisava encontrar alguma coisa que a fizesse esquecer Alan.
     Qualquer coisa... menos Enrico. Voltando sobre os prprios passos, sentiu uma onda de antecipao ao pensar em reencontrar Alan, mas o sentimento foi seguido 
por um horrvel remorso.
     Ao aproximar-se das cadeiras que haviam alugado, notou que ele conversava com uma morena elegante e sorridente.
     Um cime absurdo e inconveniente a invadiu, mas ela o sufocou de imediato. A mulher era impecvel, alta e magra num maio branco, discreto e simples, com um 
chapu que oferecia sombra ao rosto sorridente. Podia ser irm de Lucy, tal a semelhana entre as duas. Aquele era definitivamente o tipo de Alan. Pam mordeu o lbio, 
dividida entre a necessidade de reforar a camada de protetor solar sobre a pele e a certeza de que ele queria alguma privacidade. Pararia apenas para apanhar o 
frasco de loo, e depois iria procurar a miniatura de Robert Redford.
     Alan sorria, o livro esquecido sobre as pernas. Acima do rudo de vozes e msicas desencontradas, ouviu a voz dele entrecortada por rajadas mais fortes de vento.
      Companhias demonstram... produtividade elevada... automao... disponibilidade de dados...
     A mulher parecia impressionada. A voz revelava interesse e segurana.
      Fornecedores... centralizao... procedimentos de restaurao de dados... Aha! Uma alma gmea!, pensou, divertida.
     No meio de tanta gente, como haviam conseguido se encontrar? Pam suspirou. Exatamente como ela e Enrico, o Romeu de lngua enrolada, haviam se encontrado. Farinha 
do mesmo saco... Moldes do mesmo barro... Bem, se Alan estava ocupado, pelo menos podia contar com uma reduo no nvel de tentao.
      Ol  cumprimentou com entusiasmo forado ao aproximar-se do casal informtica.
      Ol  Alan respondeu com um sorriso esquisito.
      S vim buscar meu bronzeador.
       claro. Est  Robin  ele apresentou. A mulher apertou os lbios ao v-la.
      Como vai, Robin?  Pam ofereceu com simpatia.  Belo chapu.
      Obrigada  e virou-se para Alan.  Bem, acho que j vou indo.
      No se incomode comigo  Pamela interferiu, mostrando o frasco de loo.
      Oh, no! Estava mesmo de sada. Meus amigos j devem estar preocupados com minha demora  e sorriu, examinando a figura de Alan da cabea aos ps.  Espero 
encontr-lo novamente.
     Ele parecia ter perdido a lngua, e por isso Pamela intercedeu mais uma vez.
       claro que voltaro a se encontrar. Ele estar aqui at sbado. E est disponvel...
     Robin sorriu constrangida e olhou para ele.
      Pam, por favor...
     Mas ela o silenciou com um gesto eloqente.
      E voc ...?
      Sou a irm dele  ela respondeu apressada.  Pamela.
      Oh... Bem, foi um prazer conhec-la, Pamela. At logo, Alan.
      Aparea  Pam convidou.
      O que significa isso?  Alan perguntou assim que ficaram sozinhos. Os braos estavam cruzados sobre o peito e a expresso sugeria contrariedade.
     Pam encolheu os ombros e viu o movimento refletido nas lentes dos culos espelhados.
       plausvel. Temos a mesma cor de cabelos. Alm do mais, quem acreditaria na verdadeira histria?
      Desisto de tentar seguir sua lgica.
     Depois de acomodar-se na espreguiadeira, Pam comeou a espalhar o protetor solar pelo corpo todo. Reclinado na cadeira vizinha, Alan abriu novamente o livro.
      Ei,  Dr. Moonshadow!  ela exclamou ao ver a capa.  O melhor livro da srie!
      Leu a srie Anos-Luz?
      Oh, sim! J chegou  parte em que os Cavaleiros da Luz retornam com a cabea do rei numa caixa?
     Alan fechou os olhos e contou at dez antes de responder.
      Imagino que essa seja uma das ltimas cenas.
      Sim, a ltima para ser mais exata.
     Furioso, ele jogou o livro na areia e levantou-se.
      Agora eu vou dar uma caminhada.
     Pam o viu afastar-se e admirou os msculos bem desenhados. Muitas mulheres o seguiam com os olhos e, disposta a ignorar os sentimentos incmodos que experimentava, 
Pamela apanhou o celular e um pedao de papel na bolsa de praia. Talvez ele encontrasse Robin, a cd-rom de saias.
     Assim seria forada a deixar de pensar em Alan, nos interesses que tinham em comum, na poderosa atrao sexual, no...
      Al?  respondeu a voz do outro lado da linha.
     Estava prestes a responder quando percebeu que sua cliente, Marsha Wignate, havia mudado a mensagem em sua secretria eletrnica.
      Al, aqui fala madame Marsha, sensitiva em treinamento. Hoje  segunda-feira, doze de fevereiro. Se for Ronald, filho, no deixe de usar seu impermevel. 
Ouvi o boletim da meteorologia esta manh e eles esto prevendo chuvas e muito vento em Siracusa. Se for Sara, querida, no fale com nenhum homem de ries, e nem 
beba gua da torneira. Se for Lew, aposte vinte dlares nos nmeros trs, quatro e sete do quinto preo. E se for Pamela, passei pela casa dos Sheridan  noite de 
ontem, e fiquei espantada com as ms vibraes do lugar. Quero a opinio de um especialista, e por isso convidei uma sensitiva de Atlanta para ir comigo  casa amanh. 
Se for outra pessoa, no tenho nada a dizer, o que significa que no precisa perder tempo deixando um recado.
     Depois da melodia, que parecia o tema do filme A Hora do Pesadelo, Pamela deixou uma mensagem explicando  cliente que passaria alguns dias fora da cidade, 
mas podia ser encontrada no nmero de seu celular, caso ela quisesse comprar a casa antes que outra pessoa a adquirisse. Sorrindo das prprias tticas de venda, 
Pam entrou em contato para anunciar que estava fora da cidade, mas levara o celular, caso precisassem encontr-la.
     Depois de dar todos os telefonemas necessrios, verificou a luz da bateria e, constatando que ainda dispunha de energia para uma chamada de longa distncia, 
discou o nmero da casa de John Sterling, que levara escrito num pequeno pedao de papel.
      Al?  atendeu uma voz infantil.
      Posso falar com Lucy, por favor?
      Lucy-mame?
     Pam piscou. A amiga mal acabara de sair da igreja e j estava sendo chamada de me! Devia ser uma experincia traumtica.
      Sim, Lucy-mame  disse.  V cham-la, meu bem.
      Al?  outra voz atendeu. O locutor parecia um pouco mais velho que o primeiro.  Quem est falando?
     Pam comeou a irritar-se.
      Sou eu quem devo fazer esta pergunta. Quem  voc?
      Sou Peter... Quero dizer, sou Jamie Sterling. Com quem quer falar?
     O filho do meio.
      Preciso falar com Lucy.
      Por qu?
     Respirando fundo, decidiu no perder a calma.
      Porque somos amigas, e eu quero conversar com ela.
      Mas... ei, eu estou falando!
      Al?  Atendeu uma terceira criana, dessa vez uma menina. Era a mais velha, Pam lembrou. Uma garotinha com cara de coruja e humor de tubaro.
      Posso falar com Lucy, por favor?
      Quem est falando?
      Meu nome  Pamela. Sou amiga dela.
      No momento ela est indisposta.
     Pam afastou o telefone da orelha e olhou para o aparelho. Indisposta? Que vocabulrio para uma criana!
      Estou ligando de longe, meu bem. Tem certeza de que ela no pode atender?
      Lucy e meu pai esto l em cima, pulando na cama.
     Pamela ficou quieta. Como no pensara nisso? Estavam em lua-de-mel! Onde mais poderiam estar? Mas, antes que conseguisse formular uma resposta adequada, a voz 
da amiga soou do outro lado da linha.
      Al?
     Ela estava ofegante.
      Ei, no conseguem esperar pelo menos at as crianas irem dormir?
      Pam!  Lucy riu.  No  o que est pensando. John estava testando as molas do novo colcho.
      Ah, sim!  assim que as pessoas casadas chamam... aquilo?
     Lucy riu novamente, apesar do barulho ensurdecedor no fundo da ligao.
      Deixe de ser maliciosa. Telefonei para o seu escritrio esta manh e eles disseram que voc havia sado da cidade. Deixe-me adivinhar. Nick, o Noite-Toda?
     Pam moveu-se na cadeira.
      No.
      Dale, o Delicioso?
     Gotas de suor brotavam em sua testa.
      Tambm no.
      Algum novo?
     Respirando fundo para reunir coragem, Pam disparou:
      Estou em Fort Myers com Alan.
      O que disse? Espere um minuto.  Lucy afastou o telefone da boca e, depois de emitir um assobio agudo, gritou:  Silncio!  O barulho cessou imediatamente 
e ela voltou ao aparelho.  Desculpe. Pode repetir o que disse, por favor?
      Estou em Fort Myers com Alan.
      Est com Alan... em Fort Myers?  Lucy repetiu com voz surpresa.
      Exatamente. Estou em Fort Myers com Alan.  Ficava mais fcil cada vez que repetia a frase, mas ainda temia sofrer um derrame a qualquer minuto.  Ele decidiu 
viajar de qualquer maneira. Eu o levei ao aeroporto, e l ele me convenceu a acompanh-lo. No tenho frias h quase dois anos, e ele parecia meio desesperado...
      Oh, Pam! Voc  a melhor amiga que uma mulher pode querer ter!
      Eu... sou?
      Tenho estado to preocupada com Alan! Agora posso relaxar, porque sei que est cuidando dele. Como ele tem se portado?
      Bem, ele est um pouco deprimido, mas acho que  normal.
      Tenho certeza de que se trata apenas de vaidade ferida. Mesmo assim, sinto-me muito mal. Pode tentar alegr-lo? Leve-o para danar, ou proponha alguma atividade 
divertida e excitante.
     As mos de Pamela suavam tanto que ela quase derrubou o telefone. Forando uma gargalhada, ela respondeu?
      Bem, no se as palavras Alan, divertido e excitante podem coexistir, mas vou tentar.
      Faa-o relaxar. Quem sabe ele encontra algum interessante nesta semana? Talvez tenha um romance de frias...
      Alan est atraindo todos os olhares femininos  Pam contou, sem revelar que fazia parte do time de admiradoras.
      timo. Eventualmente ele vai acabar percebendo que no fomos feitos um para o outro, e que nosso casamento jamais teria dado certo. Por enquanto, a melhor 
coisa que ele pode fazer  divertir-se.
      Certo  Pam respondeu, agindo como se recebesse uma misso.  Como  a vida de casada?
      Maravilhosa!  Um grito agudo interrompeu a conversa.  Tenho de desligar! As crianas esto desmontando a cozinha. Obrigada mais uma vez, Pam. Voc  um 
anjo. At logo.
     Pam olhou para o telefone silencioso. Anjo? Estava mais para pecadora, com todos aqueles pensamentos sobre Alan girando em sua mente.
      Qual  o problema?  ele perguntou minutos mais tarde, jogando-se na cadeira com um suspiro exausto.  O Ministrio da Sade proibiu o consumo de frituras?
      No. Acabei de falar com Lucy.
      Refere-se a Lucy Sterling?
      Ela mesma.
     Alan fechou os olhos e ela sentiu uma pontada de dor ao ver o sofrimento em seu rosto.
      Como esto os recm-casados?
      Ocupados, a julgar pelos gritos das crianas.
      Contou a ela que estamos juntos aqui?
      Sim, e ela ficou aliviada.
      Por qu? Lucy esperava que eu cometesse suicdio?
      Bem, ela no usou essas palavras, mas...
      Ela no as usaria.
      Creio que ela est realmente perturbada com tudo que aconteceu. Alan suspirou.
      Prefiro no falar sobre o assunto, est bem?
      Como quiser  Pam concordou satisfeita. Olhou para a gua e notou um rapaz que alugava jet-skis.  Vamos experimentar?  convidou.
      Experimentar o qu?
      O jet-ski.
      Aquilo  muito perigoso.  Sabe nadar?
       claro que sim!
      Ento, qual  o problema? Corra riscos ao menos uma vez na vida!
     Ele se levantou devagar.
      Sou adepto de esportes radicais  disse, dando o primeiro passo na direo da gua.
     Pamela o seguiu sorridente, fingindo acreditar na mentira.
     Ela era a mulher mais irritante que j conhecera! Queria sacudi-la, mas temia pr as mos nela e desencadear uma incontrolvel torrente de sensaes e atitudes. 
A tatuagem que ela aplicara naquela manh realava a parte superior da coxa, ameaando enlouquec-lo.
     O jovem que alugava os jet-skis ficou to encantado com a beleza de Pamela no biquni sumrio, que mal conseguia falar. Aproveitando a ocasio, Alan negociou 
um preo muito menor pelo equipamento e dois trajes emborrachados, embora ainda no estivesse convencido de poder enfrentar a experincia.
     Pam espremeu-se no macaco de borracha rosa-choque e puxou o zper com enorme dificuldade, desistindo ao constatar que ele no era grande o bastante para acomodar 
seus seios fartos. O vo deixado na roupa elevava o colo tentador, aumentando a temperatura de Alan em vrios graus centgrados. Tentando disfarar, vestiu seu macaco 
e descobriu que era mais curto que o ideal. Algumas flexes das pernas afrouxaram o material, acomodando-o no corpo.
      Eu dirijo  Pam anunciou, empurrando o equipamento para a parte mais profunda.
      Oh, meu Deus!  Alan gemeu ao entrar na gua gelada.  Tem certeza de que isto vai ser divertido?
     Ela montou no banco de vinil amarelo e ligou o motor. Depois de encaixar o elo maior do chaveiro no pulso, levantou a mo.
      Quer parar de reclamar e subir?
      Por que fez isso?  ele perguntou, apontando para a pulseira que a ligava ao jet-ski.
      Isto  uma medida de segurana. Caso eu caia, o motor ser desligado imediatamente, porque a chave ir para a gua comigo.
      Oh! Sinto-me muito mais tranqilo.  Vai subir, ou no?
     Resignado, Alan acomodou-se atrs dela.
       melhor segurar-se!
     Ainda estava procurando um lugar onde pudesse agarrar-se quando ela acelerou, lanando-os numa viagem alucinante sobre as ondas. Apavorado, segurou-se  faixa 
de plstico que dividia o banco ao meio e tentou fechar a boca, temendo sufocar com o vento.
      J fez isso antes?  gritou.
      Tantas vezes que no posso contar  ela respondeu no mesmo tom, inclinando-se sobre o guido para alcanar maior velocidade.
     A medida em que progrediam, as ondas se tornavam mais altas. Pamela as enfrentava com coragem e ousadia, rindo cada vez que o equipamento era lanado vrios 
metros no ar, caindo com um rudo ensurdecedor sobre a superfcie agitada do mar.
      Segure-se em mim!  ela sugeriu.
     Assustado demais para protestar, Alan agarrou-a pela cintura e fechou os olhos, temendo ver o que ainda teria de enfrentar. Algum havia dito que o afogamento 
era a pior e mais dolorosa maneira de morrer, mas, com um pouco de sorte, podia levar uma pancada na cabea antes de afundar e perder a conscincia.
     Estavam muito longe da praia, desenhando um ziguezague maluco que o impedia de respirar. Alan sentia que Pamela se tornava mais confiante a cada manobra, o 
que s aumentava o perigo.
     De repente ele viu uma onda mais alta se formando no horizonte. Entusiasmada, ela acelerou e foi ao encontro do vagalho, sem se dar conta do risco que corria. 
Apavorado, Alan tomou uma deciso intempestiva: era melhor carem longe do jet-ski, pois assim no haveria a possibilidade de serem atingidos por ele.
     Quando a onda os jogou para cima, Alan jogou o corpo para o lado e a arrastou no mergulho alucinante, soltando-a antes de chegarem  gua.
     Afundou depressa, as bolhas entrando em seus ouvidos e no nariz, os sentidos temporariamente aturdidos pelo barulho assustador de toneladas de gua em movimento. 
Com movimentos poderosos das pernas, voltou  superfcie e abriu os olhos, procurando por Pam.
     Ela no estava em parte alguma. O jet-ski flutuava alguns metros  frente, silencioso, mas no havia nem sinal da borracha rosa-choque que cobria seu corpo 
sedutor.

     CAPTULO VII

     Ocorao de Alan ameaava explodir e o pnico corria por suas veias.
      Pam!  gritou.  Pam, onde est voc?  Nadou na direo do jet-ski com braadas vigorosas, engolindo grande quantidade de gua salgada a cada onda mais forte 
que o atingia. Ela podia ter batido a cabea no equipamento quando a puxara, ou cado de mau jeito e sofrido um ferimento fatal... Podia ter sido arrastada para 
o fundo pela correnteza, podia...
      De todas... as coisas estpidas... que podia fazer...
     Alan parou e olhou em volta. Uma gigantesca onda de alvio o invadiu quando constatou que a voz de Pamela vinha do outro lado do jet-ski. Ela tossia, espirrava 
e o amaldioava cada vez que recuperava o flego. Estava agarrada ao aparelho, a boca aberta em busca de ar e os olhos azuis-iluminados por uma fria quase assassina.
      Estava tentando me matar?  disparou.
      Eu? S tentei nos salvar! Teramos sido atirados longe por aquela sua ltima manobra kamikaze!
      Bobagem!  ela comentou com descaso. Em seguida, montou no horrvel assento amarelo.  Da prxima vez voc ficar na praia com seu livro.
     Alan tremia de raiva. Primeiro quase morrera de susto por julg-la morta, afogada, e depois era obrigado a ouvir seus gritos por ter arruinado sua diverso.
      Espere um minuto!  e agarrou-a pelo brao, puxando-a de volta  gua.
      Solte-me!
      Eu vou dirigir essa coisa de volta!
      Ah, no vai no!
     Ele a puxou para mais perto e quase colou o nariz no dela.
      J disse que vou dirigir, e est acabado.
     Surpresa com o tom de voz firme e definitivo, Pamela franziu a testa, mas no discutiu. Um pingo escorreu dos cabelos pelo rosto e Alan admirou mais uma vez 
a textura suave da pele. Estavam to prximos que poderia beij-la, mas temia ser afogado, se tentasse. A respirao arfante distendia o traje de borracha justo, 
ameaando explodi-lo na altura dos seios, e seu corpo respondia  viso de maneira dolorosa e incmoda, uma vez que a roupa que usava tambm no era exatamente folgada. 
A pontada de dor o empurrou de volta  realidade e ele a soltou devagar, afastando-se em busca de segurana.
     O crebro havia sido afetado pela corrida suicida de Pamela, Alan decidiu enquanto acomodava-se sobre o equipamento. Tentando recuperar parte do bom senso, 
estendeu a mo para ajud-la a subir e surpreendeu-se ao v-lo aceitar a oferta sem argumentar. Pamela escorregou algumas vezes, o que o fez rir, e depois acabou 
perdendo as foras por causa de um violento ataque de riso.
      Voc est acabando comigo  ele riu, tentando ajud-la a sair da gua gelada.
      Ento no deve ter muita resistncia  ela respondeu entre uma e outra gargalhada. Finalmente conseguiu acomodar-se sobre o vinil escorregadio e entregou 
a chave a Alan, lembrando-o de ajustar a pulseira de segurana.
      Nunca precisei de resistncia para conviver com Lucy  ele comentou com sinceridade.
      Mas eu no sou Lucy  e enlaou-o pela cintura, pronta para partir.
     A respirao quente em sua nuca provocava arrepios, e as palavras giravam em sua mente como uma provocao. No sou Lucy. Como se no tivesse conscincia da 
diferena. No sou Lucy. De repente percebia que estava se divertindo como no conseguia h muito tempo, e sentia-se feliz por Pam ser... bem, apenas Pam.
     Animado, ofereceu um sorriso por cima do ombro e disse:
       melhor segurar-se.
     Em seguida, debruou sobre o guido e acionou o acelerador, lanando-os para a frente numa velocidade espantosa. Pam riu com um misto de surpresa e prazer, 
agarrando-o com fora, o que o levou a pensar em gritar, tambm. Ele imitava as manobras que ela realizara anteriormente, enfrentando ondas enormes e aterrissando 
com fora capaz de faz-los bater os dentes um contra os outros. A adrenalina combinada s sensaes fsicas provocadas pela presena de Pamela causavam uma euforia 
como jamais havia experimentado.
     Alan jogou a cabea para trs e gritou, sentindo a presso das coxas femininas contra as dele. Por mais alguns minutos enfrentaram a violncia da correnteza, 
at que, percebendo que o tempo restante era de apenas dez minutos, ele reduziu a velocidade e voltou  praia.
     Emoes variadas afetavam seu corpo, todas provocadas por Pam e pelas mos dela em torno de sua cintura. As ondas batiam mansas contra as laterais do jet-ski, 
e a msica que ecoava na praia foi se tornado gradativamente mais alta. Apesar de ainda terem algumas horas antes do pr-do-sol, vrias famlias abandonavam a areia 
e partiam.
      Divertiu-se?  ela perguntou, pousando o queixo em seu ombro esquerdo.
     Por um segundo Alan pensou em mentir. Tinha o pressentimento de que admitir mesmo o mais inocente prazer na presena de Pamela era pr em risco os prprios 
interesses. Mas rira mais na ltima hora do que imaginara ser possvel, e por isso sentia-se no dever de dizer a verdade.
      Sim, me diverti muito. Obrigado por ter me ajudado a esquecer... voc sabe.
      Para que servem os amigos?  Pam perguntou com falsa indiferena, fechando os olhos enquanto engolia a culpa. Prometera a Lucy que faria Alan divertir-se, 
mas esquecera o compromisso porque,  certa altura, passara a divertir-se mais que ele. E agora, de volta  praia, sentia-se frustrada e furiosa por pensar que no 
encontraria outra desculpa to boa para abra-lo daquela maneira ao longo da semana.
      Talvez possamos repetir a experincia amanh  Alan sugeriu.
       claro. Isto , se no preferir levar Robin...
      Quem?
      Meu Deus, que memria curta! Robin, a mulher esperta com o chapu elegante.
      Por que acha que ela  esperta?
      Ela trabalha com computadores, no?
      A indstria da informtica tambm tem sua cota de incompetentes.
      Quer dizer que ela no  esperta?
      Oh, ela . Mas no deve tirar concluses s porque algum fala em cdigo.
      Est ficando queimado de sol  ela comentou irritada. Alan riu e levou o equipamento de volta ao rapaz que os alugava.
      Tem certeza de que no  o reflexo da sua roupa?
     Pamela no respondeu. Em p na areia molhada, tentava livrar-se da incmoda roupa de borracha que, molhada, parecia ainda mais justa. Quando conseguiu despir 
um ombro, estava to exausta que caiu. Sabia que a areia tornaria a tarefa de despir-se ainda mais difcil, mas no se importava.
     Deitada de costas, viu Alan tirar o macaco e exibir o corpo poderosos. Os seios responderam de imediato  viso, uma sensao que se tornou ainda mais intensa 
em funo do espao reduzido, e o desejo cresceu como um cogumelo a partir de seu ventre, espalhando-se por todo o corpo. Banhado pelo sol vespertino, com os cabelos 
dourados molhados e brilhantes, parecia saudvel e sexy, e pela primeira vez teve de admitir que se sentia muito atrada por Alan Parish. No s no sentido fsico, 
embora olhar para ele houvesse se tornado seu passatempo favorito.
     Naquele dia, enquanto Alan pilotara o jet-ski, pudera ver uma faceta dele que jamais imaginara existir, um lado descuidado e espontneo que a encantara. Divertira-se 
com um homem que at pouco antes considerava aborrecido.
      Precisa de ajuda com a roupa?  ele perguntou rindo.
     Pam respondeu com um movimento afirmativo de cabea e estendeu a mo, deixando que ele a ajudasse a se levantar. Puxando o outro ombro do macaco de borracha, 
conseguiu faz-lo deslizar um ou dois centmetros enquanto Alan atacava a gola.
       mais difcil agora que sua pele est molhada. A borracha se torna mais pesada.
     Os dedos eram como brasas sobre sua pele fria. Agarrando o material espesso, puxou-o para baixo e conseguiu libertar um brao, virando a manga do avesso. Com 
os dois braos livres, Pam foi capaz de empurrar a roupa para baixo dos quadris com movimentos insinuantes, mas teve de admitir o fracasso ao chegar nas coxas. Desequilibrada, 
sentou-se novamente na areia. Alan ria como uma criana, mas antes que pudesse censur-lo, ele agarrou seus tornozelos e puxou-os, fazendo com que ela se deitasse 
para concluir o trabalho com o macaco. Deitada como um beb gigantesco esperando a troca de fraldas, quase morreu de vergonha ao ouvir os comentrios e as gargalhadas 
da pequena platia reunida sob os guarda-sis que os cercavam.
     Alan tambm parecia estar se divertindo com seu desconforto. Finalmente ergueu o traje de borracha como se fosse um trofu e disse:
      Este macaco nunca mais ser o mesmo!
     Referia-se  deformao causada pelos seios fartos na parte superior da roupa, e o comentrio provocou aplausos e assobios por parte da poro masculina da 
audincia.
     Pam levantou-se, tentando decidir se adorava ou odiava essa nova e debochada faceta de Alan.
      Bem, enquanto banca o palhao para essa gente tola, vou ver se encontro uma cerveja.
       melhor ir atrs dela  um sujeito gritou quando ela se virou para partir.
      No! Eu vou!  outro respondeu, provocando novas gargalhadas. Pamela continuava caminhando, como se no ouvisse o que as pessoas diziam. Alan a alcanou.
      Ei, espere! Tambm estou com sede.
      Precisa de protetor solar  ela indicou, surpresa com o tom avermelhado da pele dele.
      Por qu? No sinto nenhum desconforto.
      Espere at o sol desaparecer.
      O que vai acontecer quando o sol desaparecer?
     Pam sentiu o corao bater mais depressa e, nervosa, percebeu que Alan tambm havia se dado conta da tenso sexual que crescia entre eles. Ele estava parado, 
os olhos fixos em seu rosto, e sabia que, como o cavalheiro que era, s esperava por um sinal. Atingiram um ponto no qual tudo que diziam e falavam assumia duplo 
sentido, provocando respostas insinuantes que poderiam lev-los  runa, a menos que algum assumisse o controle.
     Como Alan ainda sofria os efeitos da recente rejeio, estava vulnervel  idia de vingana sexual, mesmo que no tivesse conscincia de suas motivaes naquele 
momento. Era seu dever certificar-se de que no faria parte da festa na qual ele se vingaria por ter sido deixado no altar.
     Com voz suave, recusou o convite ao flerte.
      Queimaduras de sol sempre pioram depois do anoitecer  disse, feliz por estarem perto das cadeiras.  Depois de jogar o frasco de protetor solar na direo 
dele, vestiu a sada de praia e apontou para o quiosque alm da inclinao de areia.  Vou buscar uma cerveja.
      Grande idia  ele aprovou, ameaando vestir a camiseta.
      Fique aqui e eu trarei as bebidas  ela sugeriu, desesperada para afastar-se dele e dos efeitos provocados pela proximidade. Enquanto caminhava na direo 
do quiosque, dizia a si mesma que tinha de encontrar uma forma de resistir ao magnetismo que surgira entre eles. Afinal, estariam juntos por mais quatro dias!
     As mesas do quiosque estavam lotadas, e ela se dirigiu ao balco para fazer o pedido.
      Ah, Pamela, nos encontramos outra vez  disse uma voz profunda atrs dela. Assustada, virou-se e viu o belo Enrico segurando um drinque extico na mo enfeitada 
pelo anel.
      ...  respondeu com um sorriso plido. Por mais perigoso que parecesse, no momento ele era a opo mais segura.
      Aproveitou a tarde?  Enrico perguntou, sentando-se no banco alto ao lado de onde ela havia parado. Possua um trax bem desenvolvido e coberto por cabelos 
escuros e espessos. Pam fez uma rpida comparao com o fsico de Alan e, furiosa, mordeu o lbio ao reconhecer sua preferncia.
      Sim, bastante  disse, virando-se para pegar as duas cervejas que o garom deixou sobre o balco.
      Vejo que est com sede!
      A outra  para um amigo.
      Entendo. E ele  ciumento?
      No sei.
      Sujeito tolo  Enrico comentou com um sorriso ousado, inclinando-se para tocar seus cabelos.  Eu no a deixaria afastar-se de mim nem por um ins... aiiiiii! 
 Assustado, retrocedeu ao ver o brao musculoso descer sobre o balco entre ele e Pamela.
     Pam arregalou os olhos ao ver Alan bater a mo espalmada sobre a superfcie de madeira e sorrir.
      Estava ficando com sede  ele disse.
     Era muita ousadia! Como ele se atrevia a aparecer enquanto tentava esquec-lo?
      Alan!  protestou.  O que pensa estar fazendo? Ele encarou o desconhecido por alguns instantes.
      Esse sujeito estava incomodando voc?
      No!
      Com licena  Enrico levantou-se do banco.  At outra hora, Pamela  despediu-se, acenando com a mo bronzeada antes de afastar-se levando o drinque colorido.
     Alan o observou por alguns segundos antes de resmungar:
      Algum devia avis-lo que suas costas precisam de um corte de cabelos.
      O que significa tudo isso?
      Estava defendendo sua honra... mais uma vez. E veja s a gratido que recebo!
      Sabe de uma coisa? Acho que estou comeando a conhec-lo de verdade, Alan P. Parish. Aposto que o P  de pr-histrico.
     Ele a encarou em silncio.
      Paternal?
     Mais silncio.
      Seria de... "putz"?
     Alan pegou um dos copos de cerveja.
      Sei interpretar uma indireta. Se prefere aquele... gorila disfarado de rvore de Natal, quem sou eu para ficar no caminho? Mas se por acaso engasgar-se com 
um fio de cabelo mais longo, no venha me pedir ajuda.
     A campainha do celular de Pamela interrompeu a conversa. Ela abriu a bolsa e encontrou o pequeno aparelho no meio de todos os objetos que levara  praia.
      Al?
      Pam?
      Oh... ol, Lucy.
     Alan bebeu metade do copo de cerveja.
      Estava pensando se poderia falar com Alan. Gostaria de explicar o que aconteceu.
      Quer falar com Alan?
     Ele negou com as mos e a cabea.
       uma pena mais ele acabou de sair de perto de mim. Foi buscar uma cerveja.
      Esto se divertindo?
      Sim, aqui  tudo muito divertido  e forou uma risada exagerada.
      Que bom. Pode dizer a Alan que telefonei, e que espero conversar com ele assim que retornarem? E que... lamento muito tudo o que aconteceu?
       claro que sim. Darei seu recado.
      E Pam, obrigada mais uma vez por ser to boa amiga. No tem idia do que est fazendo por mim e por Alan.
      Esquea. At a volta, Lucy.  Pamela guardou o telefone e olhou para Alan.  Ela disse que espera poder conversar com voc quando voltarmos, e que lamenta 
muito tudo o que houve.
     Alan esvaziou o copo e pediu mais uma cerveja.
      Pensando bem, acho que vou ficar aqui e me embriagar  disse, acomodando-se no banco que Enrivo estivera sentado.
     Pam sentou-se no banco vizinho.
      No sei se  uma boa idia  respondeu sorrindo.  Na ltima vez em que ficou bbado, me convidou para acompanh-lo em sua lua-de-mel.
      Tem razo.  Alan relaxou e riu.  Devamos tentar incluir essa histria no livro dos recordes. Acha que sou o nico homem da histria que no ter sexo em 
sua lua-de-mel?
      No precisa ser assim.  Ao v-lo arregalar os olhos, tentou corrigir-se.  Quero dizer, existem muitas mulheres na praia. Sua amiga do chapu, por exemplo...
      Robin  ele completou, bebendo a cerveja com gosto.
      Robin! Belos dentes!
       bonitinha.
      Para quem gosta do gnero intelectual...
      Ela tem belas pernas.
      Os tornozelos so grossos demais.
      Os cabelos so bem cuidados.
      Ressecados...
      Estamos falando sobre a mesma pessoa? Conversei com ela vinte minutos, e voc conseguiu fazer um exame completo em menos de trinta segundos? Como notou todas 
essas coisas?
      Uma mulher sempre sabe.
      Ela  gentil.
      Sim, ... Se est disposto a se contentar com gentileza...
      O que h de errado numa pessoa gentil?
      Normalmente  aborrecida.
      O tdio de alguns pode ser a segurana de outros.
      Alan, estamos falando sobre um romance de frias. Segurana no faz parte da lista  e olhou em volta, disposta a ajud-lo e garantir a prpria sanidade mental. 
 Veja, mulheres em todas as partes. Por que no escolhe uma?
      Voc faz tudo parecer to...
      Espontneo?
      Ia dizer barato.
      Que tal a ruiva naquela mesa?  perguntou, apontando com discrio.
       bonitinha  Alan encolheu os ombros.
      No precisa ficar to excitado  ela debochou.  Talvez prefira as morenas.
      No  respondeu, esvaziando o copo e sorrindo.  H tanto tempo no procuro por companhia feminina, que acho que perdi a capacidade de discriminar.
     Pam terminou de beber e aceitou uma segunda dose. Comera pouco ao longo do dia, e por isso j comeava a experimentar uma leve tontura, mas a bebida fresca 
e espumante era deliciosa depois das horas de exposio ao sol.
      Que tal aquela no biquni verde?
       muito magra  Alan reprovou.
      Pensei que os homens gostassem das magras.
     Esbeltas, sim. Com algumas curvas nos lugares certos e sem excessos ou flacidez. Mas sopa de ossos nunca foi meu estilo.
      E aquela de short amarelo e cabelo preso?
       uma possibilidade.
      No. Ela ri como uma hiena. Posso ouvir os uivos daqui  e bebeu mais um pouco.
      Uau! Veja aquela no mai vermelho!
     Pam examinou com ateno e balanou a cabea.
      So falsos  disse.
      Como pode saber?
      Ento no v? Eles no se movem!
      E da? Ela no est num trampolim. Alm do mais, nem todos os homens se importam como esse tipo de detalhe.
      No precisa me ensinar nada sobre os homens.
      Tem razo. Esqueci que estava falando com uma especialista. Sabe, sempre tive uma curiosidade. Existe algum homem em Savannah que no esteja atrs de voc?
     Ela riu.
      Dois reverendos da igreja Batista. E voc.
      Sim, e eu  e esvaziou o terceiro copo, chamando o garom e pedindo mais um.  Nunca se casou?
      No.
      Como conseguiu?
     Pam deslizou o dedo pela borda do copo plstico enquanto refletia.
      Acho que nunca me apaixonei de verdade.
      Essa histria de apaixonar-se  s uma inveno, um boato que comeou h milhares de anos com o primeiro casamenteiro da histria.
     Pamela riu, invadida por uma enxurrada de recordaes.
      Certa vez estive muito perto de me casar. Tinha dezessete anos e procurava uma maneira de sair daquele lugar horrvel onde eu morava. Ele tinha dezenove e 
segurava o mundo na palma da mo.
      O que aconteceu? Por que no se casou?
      Porque ele tambm tinha outras trs garotas na palma da mo, todas mais ricas e educadas que eu.
      Oh.
      Foi ento que decidi variar, em vez de arriscar todas as fichas em um s cavalo.  mais seguro. De l para c, tenho escapado com alguns poucos ferimentos 
leves.
      Qual  seu segredo para permanecer solteira?  ele perguntou, esvaziando mais um copo de um s gole.
      Oh,  fcil. Basta no fechar os olhos.
      O que disse?
      Quando beijar algum, no feche os olhos.
      Essa  sua arma secreta?  ele insistiu com aparente incredulidade.
     Pamela afirmou com um movimento de cabea e estranhou o fato do mundo continuar se movendo, mesmo depois de ter parado de mover-se.
      Quando fecha os olhos durante um beijo, a mente comea a fazer jogos perigosos. Voc comea a imaginar um mundo de faz-de-conta onde o amor conquista tudo, 
e esquece que a maioria dos casamentos termina em divrcio... ou coisa pior.
      Meus pais so muito felizes.
      Sorte deles. Os meus separaram-se quando eu ainda era um beb. Para ser franca, nem me lembro de t-los visto juntos.
      Sinto muito.
      Eu tambm. Por isso prefiro ficar sozinha. Odiaria arrastar uma criana para o meio do campo de batalhas em que se transforma um casamento falido.
      Concordo com essa sua idia de no ter filhos. Um brinde  sugeriu com voz pastosa.  Aos olhos abertos!
      Tim, tim!  Pamela cantarolou alegre, batendo o copo contra o dele e rindo ao ver a cerveja cair pelas bordas. Uma rajada de ar frio a fez estremecer. A noite 
chegava depressa, e a temperatura caa rapidamente.  Acho melhor ir trocar de roupa.
     Alan desceu do banco devagar.
      Preciso ir verificar se minha secretria encontrou outras acomodaes. No quero passar mais uma noite na Hospedaria do Inferno.
      No  to ruim.
     Caminhavam devagar e com cuidado pelo caminho escuro. A noite clara e a lua brilhante tornavam a caminhada mais fcil, e a praia deserta estendia-se diante 
deles como uma fita de cetim branco.
      Veja quantas estrelas!  ela exclamou apontando para o cu.  Vamos dar um passeio.
      Qualquer coisa  melhor do que voltar ao quarto.
      A areia parece neve.  A mar subia depressa, forando-os a caminhar por cima das nuvens, na parte mais fofa do terreno. O ar era frio e revigorante, e Pam 
tentou concentrar-se em alguma coisa que no fosse a atmosfera romntica que os cercava.  Acha que existe vida em outros planetas?
       claro que sim  Alan respondeu sem hesitar.  Seria muita arrogncia presumir que todo o universo foi criado s para ns.
      Tem razo. Mas  um pouco assustador imaginar outras formas de vida?
      Por qu? Se quisessem nos atacar,  esta hora no estaramos mais aqui. Alm do mais, com todos os problemas sociais e ambientais que enfrentamos, a Terra 
deve ser motivo de riso em outros planetas.
      Est tentando me convencer de que vivemos no subrbio da galxia? Na periferia do sistema solar?
      De certa forma, sim  ele riu.
      Tudo bem, o P  de pessimista, certo?
     Ele riu mais uma vez, um som que Pamela comeava a apreciar.
      Reconheo que no tenho sido um modelo de entusiasmo, especialmente nos ltimos dias.
      O que no nos mata nos fortalece  ela citou um velho ditado. Caminhavam pelas dunas mais afastadas do hotel e do quiosque, cercados pela mais completa escurido. 
Quem estava tentando convencer? Alan, ou ela mesma? Distrada, tropeou num graveto e caiu. Tentou segurar-se no brao de Alan, mas ele estava to tonto que acabou 
caindo, tambm. A princpio sentiu-se constrangida, mas em seguida percebeu que era delicioso estar na posio horizontal. Alan tambm permanecia deitado a seu lado, 
o rosto coberto de areia. Ela explodiu num acesso de riso.
      Voc est perdida!  ele ameaou.
     Gritando, Pam tentou levantar-se e fugir, mas ele agarrou seu tornozelo e puxou-a. Fraca em funo das gargalhadas descontroladas, tentou rastejar para longe 
dele, mas Alan a puxou de volta, virou-a e a imobilizou com a fora dos braos.
     O riso silenciou e os dois trocaram um olhar prolongado, intenso e cheio de promessas. A camiseta de Alan subira um pouco com os movimentos bruscos do corpo, 
e Pamela podia sentir a pele em contato com o estmago atravs do tecido fino da sada de praia. Todos os msculos do corpo estavam tensos e o sangue latejava em 
seus ouvidos.
      Alan...  chamou com voz rouca.
      Por favor, no me pea para parar.
      No. Ia dizer... para me beijar.
     Por um instante ele ficou to quieto, que teve medo de v-lo levantar-se e fugir. Mas depois inclinou a cabea lentamente at que os lbios se encontraram, 
deflagrando um fogo devastador que os tomou de assalto. Foi um beijo ardente, apaixonado e ertico, e as mos exploravam com ansiedade contida buscando a satisfao 
que h dias tentavam ignorar. Alan a surpreendeu. Esperava hesitao, frieza, falta de experincia, mas ele a segurava com mos firmes e a beijava com o conhecimento 
de quem j tivera muitas mulheres, provocando-a e despertando seu desejo. Os dedos acariciavam um de seus seios e ela inclinava as costas numa oferta silenciosa, 
deslizando as mos por baixo da camiseta para poder toc-lo, tambm. Alan estava deitado entre suas pernas, e movia-se numa imitao perfeita e alucinante do ato 
sexual.
     Incapaz de conter-se, Pam comeou a despir o calo discreto que ele vestia.
      Aqui no  Alan protestou com voz fraca.  Algum pode...
      Estamos numa praia deserta. Ningum vai nos ver. Alm do mais  murmurou, terminando de despi-lo e arrancando a camiseta com habilidade espantosa , acho 
tudo isso muito excitante.
     Alan estava nu e excitado, beijando-a como se quisesse devor-la. As mos acariciavam cada parte do corpo tentador com luxria, tentando registrar na memria 
todos os detalhes e curvas.
     De repente uma luz intensa brilhou alm dos ombros dele, ameaando ceg-la.
      Quieto!  ordenou uma voz masculina.
     Alan ficou gelado. Devagar, virou a cabea para ver quem os surpreendera, mas a luz intensa o ofuscava.
      O que  isso...?
      Polcia  o homem identificou-se.  Levante-se devagar e ponha as mos na cabea.
      No pode estar falando srio!
      J disse para se levantar!
     Pam fechou os olhos com fora. No queria ver. Quando finalmente arriscou uma olhada rpida, Alan estava em p com as mos na cabea, exibindo uma ereo que 
em outras circunstncias teria sido motivo de orgulho e alegria.
      Deus...  o policial resmungou contrariado.
      Espero que me deixe ao menos vestir o calo.
      Seja rpido  o oficial instruiu.  Odeio prender homens nus.
      Prender?  Pam gritou assustada.
     O policial sorriu e exibiu um par de algemas.
      Esta  uma praia pblica freqentada por famlias decentes, seu pervertido. Est preso por atentado ao pudor.

     CAPTULO VIII

     Nunca fui to humilhado em toda minha vida!  Alan declarou ao sair da delegacia em companhia de Pam. Ela usava um short vermelho e blusa branca, uma combinao 
perfeita para a manh ensolarada e clara, mas ele ainda mantinha o calo de banho e a camiseta do dia anterior. O colcho duro onde havia se deitado e a constatao 
de que estivera prestes a fazer amor com Pamela Kaminski o impediram de dormir.
      Ningum jamais saber  ela o consolou.
      No?  como, "A praia  deserta, ningum vai nos ver"?
      J pedi desculpas centenas de vezes. Voc no escutou?
      Cento e trinta e seis vezes. Ouvi voc quando o policial me levou para a viatura ontem  noite, e depois, quando ficou gritando enquanto eles me traziam para 
c, e esta manh, quando o juiz me submeteu quele humilhante sermo.  Alan parou, olhou para a rua e levou as duas mos  cabea.  Pam, voc enlouqueceu?
      Por qu?  ela perguntou, levantando os culos de sol para abrir a porta da limusine.
      Deixou o bordel ambulante estacionado na zona de segurana em frente  delegacia por duas horas?
      Liguei o pisca-alerta.
      Ah, Graas a Deus! No sabia que havia ligado o pisca-alerta. Afinal, todos sabem que as luzes piscando anulam o efeito de qualquer regra de trnsito. Parou 
sobre a calada obstruindo a passagem de pedestres? Ligue o pisca-alerta. Atropelou algum porque estava em lata velocidade? Ligue o pisca-alerta.
      O carro ainda est aqui, no?
      E quem mais poderia querer essa... essa coisa?  Alan gritou  beira da histeria.
      Entre no carro, sim?
      De jeito nenhum  e estendeu a mo na direo das chaves.  No vai dirigir.
      Eu vim dirigindo ate aqui sem nenhum problema!
      Tem certeza?  Ele cruzou os braos e olhou para o pra-choque dianteiro.  Aquele amassado do tamanho de uma ma apareceu do nada?
     Ela mordeu o lbio e entregou as chaves em silncio.
      Obrigado.  Havia acabado de acomodar-se diante do volante quando uma viatura de polcia parou atrs deles com a sirene ligada. O jovem policial desceu com 
o bloco de multas na mo.
      Senhor, tem idia do valor da multa por estacionar em zona de segurana na rea de um edifcio governamental?
     Alguns minutos mais tarde, Pam leu a cpia em papel amarelo e assobiou:
      Cento e quarenta e cinco dlares?
      Faa-me um favor  Alan disse em voz baixa, agarrando o volante com fora.  Fique sentada e no diga absolutamente nada.
      Escute, sei que est aborrecido...
      Aborrecido? S porque agora sou considerado um transgressor da ordem, da moral e dos bons costumes? Por que me aborreceria?
      No  to ruim quanto faz parecer.
      At ontem, nunca havia recebido nem mesmo uma multa por excesso de velocidade.
      J percebeu que pode mudar a ordem das letras em seu nome e formar "anal"?
      No vou pedir desculpas por preferir viver de acordo com as regras!
      Sua secretria telefonou ontem  noite.
      Oh, no! Falou com Linda?
      Acalme-se. Disse a ela que era funcionria do hotel e estava anotando todos os recados. Ela conseguiu novas acomodaes.
      Finalmente uma boa notcia!
      Eu disse que voc havia mudado de idia.
      Voc... o qu?  Alan virou a cabea to depressa que mudou de faixa, provocando a ira dos motoristas mais prximos.
      Ela precisa de uma resposta imediata, e eu no sabia quanto tempo voc passaria preso.  Pam ergueu as mos num gesto impotente. As unhas haviam passado do 
suave tom de pssego para um vermelho intenso desde que a vira pela ltima vez.
      Telefonarei para ela mais tarde a fim de verificar se o quarto ainda est disponvel  Alan decidiu.  No momento, at o sof-cama do Hotel Inferno parece 
um sonho.  Ento se deu conta de que Pam podia estar imaginando que dividiriam a mesma cama, depois do que quase havia acontecido na noite anterior. Mas, agora 
que tivera algumas horas para refletir, sabia que tudo teria sido um terrvel engano. Por mais que quisesse dormir com Pamela, s um canalha faria sexo com a melhor 
amiga da ex-noiva. Alm do mais, Pam estava comeando a despertar outro tipo de sentimentos, e no queria pr em risco uma velha amizade para depois ser relegado 
ao poo sem fundo de seus ex-amantes.  Vou pedir para consertarem aquele sof  disse.
      J cuidei disso. Esta manh dei uma boa gorjeta ao chefe da manuteno e ele deixou o mvel como novo.
      timo!
     Depois de um silncio prolongado, os dois falaram ao mesmo tempo.
      Quanto a ontem  noite...  ela comeou.
      Quero pedir desculpas...  e parou, virando-se para encar-la. Os dois riram.  Foram as estrelas e a lua...
      E o mar, a cerveja...
      Ainda estava me sentindo rejeitado por causa do casamento.
      E eu me sentia solitria.
      Que grande engano teramos cometido.  Alan tentou uma risada casual.
      Enorme  ela concordou.
      Gigantesco.
      Colossal.
      Voc  a melhor amiga de Lucy.
      E voc  o ex-noivo da minha melhor amiga.
     Aliviado, Alan respirou fundo.
      Bem, vejo que estamos de acordo.  Fitou-a e percebeu que, apesar de tudo que acabara de dizer e decidir, no era imune ao poder de atrao de Pamela.
       claro que sim!  ela respondeu com um sorriso radiante.

     Fizera um punhado de coisas estpidas em sua vida relativamente curta, Pam decidiu no dia seguinte, deitada na cadeira da praia. Mas todos juntos no poderiam 
ser comparados ao absoluto desatino que teria cometido se aquele policial no houvesse aparecido duas noites atrs.
     Felizmente Alan pensava como ela. Haviam contornado o assunto sem discutir a atrao sexual existente entre eles, mas decidiram que qualquer relacionamento 
alm da amizade seria um lamentvel erro. A poro lgica de seu crebro no tinha nenhum problema em aceitar a argumentao, mas a parte emocional insistia em lembrar 
os sentimentos que a invadiram naquela noite, quando Alan a beijara. Depois de todo o discurso, acabara por fechar os olhos! E como se no bastasse responder a ele 
num nvel fsico, tambm tivera de reconhecer sentimentos mais profundos. Acidentalmente, Alan conseguira abrir uma trilha por onde nenhum homem jamais havia passado, 
e essa certeza a entristecia porque sabia que um relacionamento entre eles era impossvel.
     Alan ainda amava sua melhor amiga. Alm do mais, no voltaria a Savannah de braos dados com ele, porque Lucy acreditaria que a haviam trado durante todos 
aqueles anos. E ainda havia mais um fator importante a ser considerado. Alan pertencia a uma das famlias mais importantes de Savannah, enquanto ela fazia parte 
da famlia menos respeitada da cidade. Ele no se interessaria por qualquer coisa alm de sexo com ela. Normalmente no se importaria como esse tipo de constatao, 
mas estava comeando a sentir um estranho e incmodo afeto por ele, o que despertava lembranas de quando o conhecera no ginsio. Sinos badalavam em sua mente entoando 
uma cano de alerta. Estava pisando em terreno perigoso. Tinha de proceder com cautela, ou acabaria sofrendo.
      Nossos caminhos continuam se cruzando.  A voz melosa de Enrico soou acima dela.
     Pam abriu os olhos e viu que o latino apreciava seu novo biquni vermelho com franca admirao. Ele usava um chapu de palha e uma sunga minscula que parecia 
ser a preferncia dos europeus mais modernos. Pam apertou os lbios para no rir, lembrando do que Alan dissera ao ver o extico maio numa loja masculina do shopping. 
Ele chamara a pea de "espremedor de ovos".
      Deve ser o destino  Enrico continuou com seu charme ensaiado.
      Ou uma praia muito pequena  ela devolveu, sem fazer nenhum movimento que o encorajasse a ficar. Estava ocupada com os prprios pensamentos, e sabia que no 
dispunha de muita pacincia.
      Quer jantar comigo esta noite?  ele convidou.  Conheo um restaurante onde a lagosta  fresca e os drinques so fortes.
      J tenho planos para o jantar  mentiu.  Mesmo assim, obrigada pelo convite.
      Tambm tem planos para a sobremesa?
      Estou de dieta  e abriu o livro que levara na bolsa de lona.
      Aquele homem que nos interrompeu ontem  tarde no quiosque...  seu namorado?
      No  Pam respondeu irritada.   meu marido.
       mesmo? E a deixou sozinha outra vez?
      Eu o esgotei.  Ela sorriu com sarcasmo antes de voltar ao livro.
     Enrico deve ter compreendido a indireta, porque se despediu e partiu.
     O livro havia sido comprado por Alan. Conhecia a histria, porque j havia lido a coleo anos antes, mas valia a pena repetir a faanha. Serviria para tirar 
da mente a imagem de Alan deitado no meio da cama de gua, onde dormia desde que retornara da delegacia na tarde anterior. Jantara sozinha e encolhera-se no sof-cama, 
onde passara horas acordada pensando no homem a poucos metros de distncia.
     Suspirando, mergulhou no mundo de fantasia e fico cientfica, envolvendo-se em guerras estelares e romances caticos cercados pelas confuses do prximo milnio.
     No incio da tarde, sentiu fome e foi at o quiosque, onde pediu um cachorro-quente completo. Sentada numa mesa de frente para a praia, pensou em tudo que havia 
vivido nos ltimos dais.
     A multido do final de semana fora substituda por alguns casais apaixonados que se espalhavam pela faixa de areia branca. Era o Dia dos Namorados, e muitos 
casais comemoravam com viagens romnticas e passeios junto  natureza. O garom havia anunciado um concurso de castelos de areia para aquela tarde, e o casal vencedor 
seria premiado com um jantar num restaurante local especializado em frutos do mar.
     A mente vagou at o quarto do hotel, onde Alan descansava. Como que invocado pela fora de seus pensamentos, ele apareceu por entre as rvores do caminho estreito 
que ligava a praia ao prdio do hotel. Desanimada, constatou que o corao batia mais depressa diante dos movimentos atlticos e graciosos com que ele vencia as 
dunas de areia. Havia uma toalha sobre seu ombro direito e ele carregava uma bolsa de ginstica, provavelmente cheia de livros. A cabea virava de um lado para o 
outro enquanto ele examinava a rea. Estaria procurando por ela? Ento ele acenou para algum e Pam esqueceu de mastigar o sanduche. Robin, a Dama da Informtica, 
aproximava-se de Alan com seu chapu elegante.
     Ela usava um maio discreto num aborrecido tom de marrom, mas tinha de admitir que suas pernas fossem realmente perfeitas. A distncia, a semelhana com Lucy 
era assustadora. Ela segurou o chapu com uma das mos e levantou a cabea para sorrir para Alan. Pam mordeu o cachorro-quente com fora.
     Alan parecia ter se recuperado do mau humor, porque sorria radiante enquanto acompanhava a nova amiga pela praia. Para onde iriam? Para o guarda-sol? Almoar? 
Ou para o quarto dela? A idia provocou uma onda de revolta to intensa que Pam teve de parar de comer e respirar fundo. Raciocinando, decidiu que um romance entre 
Alan e Robin aliviaria a tenso sexual existente entre eles, e assim poderiam superar o que restava da semana de frias e voltarem a Salvannah com a amizade intacta.
     O casal computao parou e Robin apontou para o prprio ombro. Alan investigou a regio e removeu o suposto incmodo. Oh, no! O velho truque do "tem um bicho 
no meu ombro, por favor, me salve, macho"! Pam suspirou. Amadora!
     Mas Alan devia ter acreditado, porque se aproximou de Robin quando voltaram a caminhar. Pam no podia mais v-los de onde estava, e por isso levantou-se. Mais 
alguns metros e teve de subir num dos bancos do quiosque. Mais alguns passos, e nem o balco resolveu seu problema.
      V em frente, Alan  disse por entre os dentes, pendurada na balaustrada que cercava o quiosque para poder ver alguma coisa alm das dunas.  No poderia 
me importar menos.
     A piscina no hotel onde Robin estava hospedada era azul e limpa, e estava ocupada apenas por alguns adultos que bebericavam drinques exticos num canto da rea 
ensolarada. Alan permanecia sentado ao lado dela, aborrecido com a conversa vazia. Aceitar o convite para acompanh-la  piscina parecera uma boa idia uma hora 
antes, mas agora se sentia inquieto. Por alguma razo ridcula, no conseguia deixar de pensar em Pam, no que ela estaria fazendo para divertir-se, e com quem passava 
a tarde.
      Algum problema?  Robin perguntou com voz melosa.
      Nenhum.  Era uma mulher atraente, e colocara a cadeira to prxima da dele que havia prendido um dedo entre as duas ao executar a manobra. Se tivesse dvidas 
quanto ao interesse fsico de Robin por ele, elas teriam deixado de existir quando sentiu o p delicado acariciando seu tornozelo. Assustado, endireitou-se na cadeira.
     Ela ofereceu um sorriso sedutor.
      Quer dar um mergulho? A piscina  aquecida.
      Boa idia.  Levantou-se apressado, agarrando a oportunidade de escapar.
     Robin o seguiu, mas Alan comeou a nadar com braadas vigorosas at o outro lado da piscina, usando o exerccio fsico como vlvula de escape para a tenso 
e uma desculpa para permanecer longe dela. No entanto, Robin era persistente. Assim que chegou ao lado oposto da piscina, Alan a viu emergir a seu lado. Fingindo 
ignor-la, apoiou-se na borda, fechou os olhos e virou o rosto para o sol.
      Belo dia  ela comentou, roando o corpo no dele por baixo da gua.
      Hum  Devia ir procurar Pamela e pedir desculpas por ter sido to grosseiro no dia anterior.
      Sempre me hospedo neste hotel quando estou na cidade.
      Que bom.
      Meu quarto tem uma vista fabulosa  Robin anunciou bem perto de eu ouvido.
     Vrios segundos se passaram antes que Alan compreendesse o significado do comentrio. Ela pressionou os seios contra seus braos e ele abriu os olhos.
     Robin sorria.
      Quer subir e dar uma olhada na paisagem?
     Ao fit-la, Alan percebeu que a mulher era parecida com Lucy, e em vrios sentidos. Embora a ex-noiva nunca houvesse sido to ousada, experimentava o mesmo 
interesse ameno ao olhar para o corpo proporcional oculto pelo maio marrom e sem graa. Durante todos os anos que passara com Lucy, nunca perdera a esperana de 
tornar o relacionamento mais quente e atrevido, mas agora era forado a admitir que a qumica nunca existira. Amara Lucy desde o primeiro momento, mas nunca fora 
apaixonado por ela. Nunca sentira falta de sua companhia a ponto de experimentar uma dor fsica quando privado dela. E, principalmente, nunca se sentira tentado 
a ficar nu com ela numa praia deserta e escura.
      Alan?  Robin chamou.
     Quando se virou, foi surpreendido por um beijo. Tentou sentir ao menos uma razovel medida de desejo, especialmente  luz da nova revelao. No podia estar 
se apaixonando por Pam...
     A boca de Robin tornou-se mais insistente e, sem jeito, ele a puxou para mais perto, deslizando as mos pelas curvas suaves e esperando que o corpo reagisse.
     Ela interrompeu o beijo e fitou-o com a respirao ofegante.
      Que tal irmos dar uma olhada na paisagem? Alan pensou depressa.
      Lamento  disse , mas prometi a Pam que a levaria para fazer compras.
      Prefere ir fazer compras com sua irm?  perguntou indignada.
      No, mas promessas foram feitas para serem cumpridas. At mais tarde, Robin.
      Pode contar com isso  ela disse em tom de ameaa ao v-lo sair da piscina.
     Alan partiu aliviado, diminuindo o ritmo da caminhada ao aproximar-se da praia. Mantinha os olhos fixos no horizonte em busca de um jet-ski pilotado por algum 
num macaco rosa-choque, tentando lidar com a bomba-relgio de sentimentos acionada pela presena da melhor amiga de sua ex-noiva.
     Ao longo do caminho notou diversos castelos de areia, alguns simples, outros mais elaborados, e percebeu que um concurso estava em andamento. Alguns metros 
depois, viu uma roda formada exclusivamente por homens e constatou que algum ainda no havia concludo sua obra. Ao aproximar-se, reconheceu Pamela Kaminski. Ela 
estava de quatro, e esticava-se para retocar uma das torres do impressionante castelo que criara.
     Sem dar importncia  ateno dos homens que a cercavam, ela trabalhava concentrada e feliz. O biquni vermelho era uma obra de arte, e Alan surpreendeu-se 
ao notar que Pam preenchia todos os espaos do diminuto traje, que cumpria a funo de esconder determinadas partes de seu corpo mesmo quando ela se movia. Lembrou 
o que havia sentido na noite em que a beijara sobre uma duna de areia. Sabia que o pensamento levava a um beco sem sada, e por isso baniu da mente a viso perturbadora. 
Inconformado por fazer parte do grupo de admiradores boquiabertos, deu um passo  frente e anunciou:
      Ah, a est voc!
     Pam levantou a cabea e sorriu. Em seguida ajoelhou-se, oferecendo uma vista alucinante do decote ousado. Os seios estavam confinados em dois minsculos tringulos 
de pano que deviam ser mais fortes do que pareciam.
      Ol  ela o cumprimentou.
     Percebendo que o espetculo chegara ao fim, o grupo de observadores comeou a dissipar-se.
      Est sozinho?
      Sim.  Como pudera sentir-se to zangado no dia anterior?
      Passou o dia todo dormindo?
      Quase o dia todo. Sinto-me muito melhor.
      Que bom.  Virou-se, voltando ao castelo de areia. Ainda estava magoada pelo tratamento injusto que recebera.
     Sim, s podia ser isso.
      Quero pedir desculpas por ter sido to grosseiro quando foi me buscar na delegacia. Devia ter agradecido.
      Tudo bem. Vamos esquecer, certo?
      Certo. Faamos uma trgua.
      Sim, uma trgua  ela sorriu, levantando-se e limpando a areia das mos.
      Ei  Alan comentou, estudando o projeto , voc precisa de um fosso.  Tomando um dos baldes que ela usara como molde, foi buscar gua do mar e despejou-a 
no pequeno canal que ela havia cavado em torno do castelo. Depois de vrias viagens, finalmente preencheu todo o espao e sorriu satisfeito por ter contribudo.
      Ficou perfeito, moa  o garom comentou minutos mais tarde, antes de entregar um envelope.  Foi o melhor castelo. Espero que tenham um timo jantar de Dia 
dos Namorados  desejou.  Mas tenham cuidado quando sarem  noite. Ouvi dizer que h um pervertido solto em Fort Myers, um sujeito que anda nu assustando mulheres 
e crianas.
     Alan franziu a testa, mas Pamela conseguiu permanecer impassvel at que o garom se afastou.
      Pervertido?  ela repetiu assim que ficaram sozinhos, sacudida por um acesso de riso.  O P  de pervertido?
      Ha, ha, que engraado.
      Pegue  ela estendeu o envelope.  V jantar com Robin e divirta-se.
      Com Robin? Passei mais tempo com ela do que deveria! Por que no vai com Enrico?
      Duvido que ele seja uma boa companhia para jantar. Alan compreendeu a mensagem. O homem era um bom amante, mas no oferecia segurana no caso de exibies 
pblicas. Tentou conter o cime que oprimiu seu peito, mas pensar em Pam com outro homem era doloroso. Teria ela se deitado com o urso peludo?
      Bem, parece que vamos ter de nos contentar um com o outro  disse, encolhendo os ombros para disfarar as emoes que o perturbavam.
      , parece que sim  ela respondeu, tentando no se mostrar muito feliz com as perspectivas.

     O Per Vinte e Oito estava repleto de casais comemorando o Dia dos Namorados. Provido de um confortvel bar, muito espao e uma fantstica vista para o oceano, 
o lugar justificava a preferncia dos turistas e habitantes locais. Estavam no bar, esperando por uma mesa, quando ela notou que Alan a observava. Embora houvesse 
contado com o relacionamento entre ele e Robin para diminuir a tenso, sentira-se mais que nervosa enquanto preparavam-se para o jantar.
     Por medida de segurana, sara do banheiro vestida num traje simples e fresco, mas sentira o olhar fixo em suas costas enquanto prendera os cabelos num coque 
solto. E tinha de admitir que havia sido quase um sacrifcio no suspirar ao v-lo aplicar o hidratante nos ombros antes de vestir a camisa.
     Alan era um homem muito atraente, e sentia-se orgulhosa por ser sua acompanhante naquela noite especial. Quando haviam sado juntos em Savannah, no experimentara 
aquela estranha vaidade por estar ao lado dele. Todos sabiam que ele era noivo de Lucy Montgomery, e por isso nunca perdera tempo imaginando que tipo de casal formavam 
aos olhos alheios. Mas agora sabia que atraam uma boa dose de ateno, e tinha conscincia de que formavam o que as pessoas chamavam de "parceria ideal". Louros, 
altos e bronzeados, eram a imagem da felicidade e da beleza. Mas as aparncias podem enganar.
      Ora, se no so os recm-casados!  uma voz masculina ecoou atrs dela. Pam registrou a mudana de expresso no rosto de Alan e virou-se. Eram Lila e Cheek, 
o casal de nudistas que, felizmente, no haviam voltado a ver sem roupas.
      Cheek  Lila censurou o marido com tom maternal.  Eles no so casados, lembra-se? So apenas amigos.
      Exatamente  Pam e Alan responderam em unssono.
      No foi um lindo dia?  Lila perguntou, apontando vagamente na direo da praia.
      Belo vestido!  Cheek elogiou, sem disfarar o interesse pelos seios de Pam.
      Obrigada  ela respondeu constrangida.
      Est obtendo um lindo bronzeado  Lila comentou.
      Passei o dia todo na praia  Pamela explicou.
      Na praia do hotel?  Cheek surpreendeu-se. Em seguida, inclinou-se como se fosse divulgar um segredo militar.  H uma praia de nudismo cerca de vinte quilmetros 
ao norte daqui. So cinco dlares por cabea, mas vale a pena.
      Vamos nos lembrar disso  Alan respondeu irritado. O sujeito virou-se para Pam e disse:
      Se decidir ir, ficaremos felizes em oferecer uma carona.
      J disse que vamos nos lembrar disso  Alan repetiu com tom rspido.
      timo  Cheek respondeu satisfeito, sem dar importncia ao tratamento hostil.  Querem ver se conseguimos uma mesa para quatro?
      No!  Pam e Alan gritaram ao mesmo tempo.
       uma ocasio muito especial para ns  ela explicou com um sorriso.
     Alan enlaou-a pela cintura e confirmou:
      Sim, preferimos um pouco de privacidade esta noite.
      Ohhh!  Lila entoou com olhos brilhantes.  Amigos, no ? Estou ouvindo sinos de casamento?
     Pam tentou pensar em alguma coisa que pudesse dissipar o constrangimento.
      Acha que podemos dizer que foi a idia do casamento que nos trouxe a Fort Myers, no , Alan?
     Ele hesitou por um instante.
      Bem... sim.
     Lila riu encantada.
      Ding-dong, ding-dong.  Ela inclinava a cabea de um lado para o outro.
     Felizmente o garom os chamou e puderam despedir-se.
      Pensei que nunca mais nos livraramos deles  Alan comentou quando se sentaram.
      So inofensivos.
      Deviam estar em casa com os netos, em vez de sarem por a promovendo matins de nudismo.
     O garom ofereceu o cardpio, anotou o pedido do vinho e afastou-se. Pam riu e abriu o menu.
      Puritano  disse.
      O qu?
      Seu segundo nome.
      No.
      Pudico?
     Ele riu.
      No. Esquea, Pam. No vou contar.
      Diria se eu acertasse?
       claro que sim. Mas voc jamais conseguiria.
      Pembroke?
      No.
      Quem sabe?
      S meus pais e irmos... e juraram guardar segredo.
      Lucy no sabe?
      No. O que vai querer?
     Pam consultou o cardpio.
      Carne, talvez.
      Frita?
      E claro.
      Por que no a lagosta?
     Ela se encolheu ao ver o preo do prato.
      Duvido que o prmio do concurso inclua lagosta.
      Esquea o prmio. Ontem  noite fui dormir sem jantar, e na noite anterior comi um po duro sem manteiga na cela da delegacia. Vamos comer lagosta.
     Ela o viu fechar o cardpio e olhar em volta.
      O garom disse que voltaria num minuto  indicou.
      Eu sei. S estou verificando se no nos colocaram perto de alguma criana. Fiz um pedido especial quando chegamos.
      Relaxe. No vejo nenhuma criana num raio de quatro metros.
      Elas podem se esconder  e olhou em baixo da mesa.
      O P deve ser de paranico.
      Ainda no desistiu dessa bobagem?
      Alan, crianas tambm tm de comer!
      timo! Desde que no estejam perto de mim... Todas as vezes que Lucy e eu...  Calou-se.  L vou eu novamente.
     Pam sentiu uma onda de piedade ao ver a expresso de sofrimento no rosto dele.
      Alan, voc e Lucy conviveram por muito tempo, e  natural que tenham histrias em comum. Pode cont-las sempre que quiser. Sempre que voc e Lucy o qu?  
Como a amiga revelara que a vida sexual com o ex-noivo era quase inexistente, podia contar com a certeza de no ser submetida a confidncias ntimas. Por causa dos 
segredos da amiga, sempre havia considerado Alan uma espcie de peixe molhado, frio e escorregadio, mas agora constatava que havia se enganado.
     Ele ergueu os ombros e forou um sorriso.
      Sempre que saamos para comer fora, nossa refeio era perturbada por uma criana mal-educada gritando, jogando comida e promovendo espetculos revoltantes. 
Agora me pergunto se o relacionamento j havia perdido o encanto, e por isso eu buscava desculpas para justificar o clima de estranheza.
      O que h de to tenebroso numa criana, afinal? Alan abriu a boca para responder e parou, confuso.
      No sei. So... barulhentas.
      Eu tambm sou.
      E fazem confuso.
      Eu tambm fao.
      E as fraldas...
      Ah, agora voc me pegou  ela riu.
      Gosta de crianas?
     Pamela encolheu os ombros.
      Eu praticamente criei minha irm caula.
      No sabia que tinha uma irm mais nova.
     O orgulho iluminava seu rosto sempre que pensava em Dinah.
      Ela  dez anos mais jovem que eu. Atualmente est com vinte e dois. Eu a mandei para o ginsio de seus pais, mas tomei o cuidado de certificar-me que ela 
concluiria os estudos.
      Onde ela est agora?
      Terminando a Notre Dame  revelou satisfeita.  E ir para a faculdade de Direito no prximo semestre.
     Alan assobiou admirado.
      Nada mal.
      Quis ter certeza de que pelo menos um Kaminski seria bem-sucedido e se manteria dentro da lei  comentou, pensando nos irmos.
      Voc tambm conseguiu sucesso.  a melhor corretora da maior imobiliria de Savannah.
     Pam sentiu-se envaidecida pelo elogio, mas sabia que, por maiores que fossem suas realizaes, era e sempre seria uma Kaminski. Dinah informara recentemente 
que no voltaria  cidade natal para exercer sua profisso, e Pam suspeitava de que as ndoas no nome da famlia haviam influenciado sua deciso. Olhando para Adan 
sentado do outro lado da mesa, cujo nome era suficiente para coloc-lo acima da maioria dos mortais, sentiu-se profundamente perturbada.
      Pode pedir por mim, por favor?  Desculpando-se, deixou a mesa para ir ao banheiro, dizendo a si mesma que tinha de livrar-se das idias ridculas que galopavam 
por sua mente cada vez que olhava para Alan.
     No banheiro, lavou as mos e a nuca com gua fria e ponderou sobre deixar Fort Myers antes do previsto. Assim que estivesse de volta ao seu ambiente normal, 
os sentimentos despertados pelo ex-noivo da melhor amiga deixariam de existir. Inventaria alguma coisa sobre ter sido chamada ao escritrio com urgncia e partiria 
na manh seguinte. O fato de no querer deix-lo era assustador o bastante para fortalecer a deciso. Ao deixar o reservado, sentia-se triste, mas determinada.
     A caminho da mesa, uma voz masculina a deteve.
      Temos de parar com esses nossos encontros, Pamela.
     Ela se virou e viu Enrico vestido com uma cala preta e uma tamisa vermelha e cintilante. A impacincia retornou com fora espantosa.
      No posso parar para conversar. Preciso voltar  minha mesa.
     Ele sorriu com um misto de malcia e persistncia ao dar o primeiro passo para acompanh-la.
      Seu marido tambm veio, ou foi abandonada mais uma vez?
      Sim, ele veio, e estamos tendo um jantar romntico e apaixonado.  Mas ele a seguiu at o centro do salo, onde Pam parou estupefata.
     Alan estava em p ao lado da mesa, trocando um beijo cinematogrfico com Robin, a Dama da Informtica.

     CAPTULO IX

     Vrios segundos se passaram antes que Alan percebesse que estava sendo beijado e conseguisse se livrar de Robin, que parecia ter surgido do nada.
      No creio que este seja o lugar...
      Oh, e que tal aqui?  ela murmurou, puxando a cintura de sua cala com fora. Um boto se soltou e voou longe.
     Uma exclamao indignada soou atrs dele.
      Alan, como teve coragem?  Lila o interpelou.  Pensei que ia pedir Pamela em casamento!
      Pedir em casamento?
     Do outro lado, Enrico tambm parecia espantado com a situao. Parado, ele mantinha um brao em torno da cintura de Pam. Alan franziu a testa. De onde o sujeito 
surgira?
     Srio, o porto-riquenho olhou para Pamela.
      No disse que j eram casados?
      Casados?  Robin gritou.  Pensei que ela fosse sua irm!
      Irm?  Lila repetiu chocada.  Mas isso ... nojento!
      E ilegal  Cheek completou.
     Todos falavam ao mesmo tempo, e Pamela deu um passo  frente e ps as mos na cintura.
      Alan, o que est acontecendo? Ele levantou as mos.
      Esperem um minuto! Silncio!  gritou, satisfeito ao ver que todos se calavam. Respirando fundo, deu um passo para trs e tropeou num vaso de samambaias, 
caindo sentado com tamanho impacto que os culos entortaram sobre seu nariz. O garom correu para ajud-lo a levantar-se, mas Alan desprezou a mo estendida e ps-se 
em p com um salto quase atltico. O movimento ameaou fazer cair a cala sem boto, mas ele a segurou a tempo.  Escutem bem, todos vocs. Pamela e eu viemos aqui 
para um calmo e agra davel jantar de Dia dos Namorados. A natureza de nosso relacionamento no diz respeito a ningum. E agora que j ouviram as explicaes necessrias, 
por favor, querem nos deixar em paz?
     Lila e Cheek foram os primeiros a se afastarem. Depois Robin e Enrico desapareceram na mesma direo.
     Finalmente Alan apontou para a mesa e, sem olhar para Pam, disse:
      Podemos continuar?
     Ela respondeu com um movimento afirmativo de cabea e, antes de sentar-se, parou para apanhar o boto no cho.
      Acho que isto  seu  disse, devolvendo o pequeno objeto e acomodando-se sem pressa.
     Alan no sabia porqu, mas sentia-se no dever de dar uma explicao a Pamela.
      Eu no estava beijando aquela mulher  disse.
      No tem importncia  ela respondeu, provando o vinho que fora servido em sua ausncia.  Mas o batom em sua boca prova o contrrio.
     Ele passou o guardanapo de papel pelo rosto, franzindo a testa para a mancha vermelha.
      Quis dizer que no estava correspondendo.
      J disse que no importa.
      Acho que no. Afinal, tambm estava escondida pelos cantos com seu amante latino.
      Amante? De onde tirou essa idia?
      No esteve... no estavam...?
      Alan, se quisesse alguma coisa com Enrico, por que teria dito que somos casados?
      Ele acreditou nisso?
      Por que o espanto? Sei que  absurdo pensar num relacionamento entre ns dois, mas as pessoas no sabem disso.
       claro. Pensando bem, a julgar por tudo que passamos nos ltimos dias, creio que qualquer coisa seria possvel.
      Tem sido uma aventura  ela concordou.
     Alan suspirou e fitou-a, surpreendendo-se mais uma vez com a beleza radiante de Pamela. Ela parecia uma estrela de cinema com aqueles cabelos dourados, a boca 
ampla e os olhos brilhantes. Ela o encarou e seu corao disparou. Sentia-se caminhando  beira de um precipcio, correndo o risco de cair to fundo que nunca mais 
poderia voltar  tona. Sabia que era insanidade, mas estava se apaixonando por Pamela Kaminski.
     O sorriso desapareceu dos lbios carnudos e rosados e ela abaixou a cabea, aparentemente interessada no copo de vinho.
      Estou pensando em partir amanh.
     Alan teve a impresso de que o corao parava de bater.
      Amanh? Quer dizer... voltar para Savannah? Ela moveu a cabea em sentido afirmativo.
     Era como se algo maravilhoso estivesse escapando pelos vos de seus dedos.
      Mas... por qu?
      Por qu? Alan, pense bem! Um vo pavoroso, um pneu furado, um hotel dilapidado, uma limusine azul-celeste, uma ocorrncia policial... Veio  praia para relaxar 
e descansar, e em vez disso tem enfrentado uma semana de pesadelos consecutivos!
      A culpa no  sua.
      No?
      No totalmente.
      Mentir no  um de seus talentos. Tinha de agarrar a oportunidade.
      Quer dizer que reconhece que tenho talentos?
      No.
      Ah...
     Surpresa com a expresso decepcionada no rosto dele, Pamela tentou reparar o dano causado ao ego j to ferido.
      Quero dizer, no sei se tem algum talento. Lucy e eu nunca discutimos... quero dizer, nunca falamos sobre... nada.
       bom saber disso.
      Realmente, nunca falamos sobre o que faziam... ou no faziam.
      No fazamos?
     Um rubor tingiu seu rosto.
      Eu no quis dizer que...
      Mas disse.
      Bem, no como est imaginando.  que... Ah, droga! Alan fechou os olhos e esvaziou o copo. Depois de deix-lo sobre a mesa com um rudo assustador, respirou 
fundo e disse:
      Ento, Lucy no estava satisfeita com nossa vida sexual.
      Ela nunca disse isso.
     O garom aproximou-se para servir mais vinho, e Alan esperou que ele se afastasse para prosseguir.
      Bem, devo admitir que no mantnhamos a chama acesa.
      No quero ouvir mais nada.
       difcil explicar. Lucy  uma mulher bonita, mas com relao ao...
      No quero ouvir!  ela exclamou, levando as mos aos ouvidos e fechando os olhos.  No estou ouvindo, no estou ouvindo, no estou ouvindo...  Quando abriu 
os olhos, Alan a encarava com expresso perplexa e dois garons esperavam ao lado da mesa, os braos cheios de pratos e bandejas. Sorrindo, ela ajeitou o guardanapo 
sobre o colo e fez um gesto indicando que podiam servir.
     Durante o jantar, no voltaram a falar sobre seu retorno antecipado a Savannah. Conversaram sobre trabalho, conhecidos em comum, poltica e economia, sobre 
esportes e religio. Riram e falaram srio, riram um pouco mais, e Pam odiou quando se deu conta de que a refeio chegava ao fim.
     Como sobremesa, dividiram um bolo de queijo cremoso com cobertura de canela, o que a fez lembrar o licor esquecido num canto do quarto. Ah, como gostaria de 
despejar o lquido espesso e perfumado no corpo de Alan e sabore-lo, como saboreava o doce de textura delicada. Fechando os olhos, deixou cada poro se dissolver 
sobre a lngua antes de engolir. Quanto mais comia, mais o corpo respondia como se experimentasse um prazer de outra natureza, at que se sentiu prestes a gemer. 
A risada de Alan a fez pensar que podia ter deixado escapar um gemido.
      O que foi?  perguntou assustada.
      A sobremesa  ele sorriu.  Estava to boa assim?
      Maravilhosa.
      Voc est me matando  Alan reclamou, movendo-se na cadeira.
      O que quer dizer?
      Pam  e aproximou-se, baixando o tom de voz , sempre come sobremesa com uma faca?
     Assustada, olhou para o talher de jantar em sua mo direita e quase entrou em pnico. Felizmente os msicos do conjunto italiano aproximavam-se da mesa, o que 
a pouparia de uma explicao delicada e constrangedora.
     Os homens vestiam cores brilhantes, vermelho, verde e dourado. O violinista cumprimentou Alan e beijou a mo de Pam antes de comear a tocar uma melodia doce 
e romntica.
     Era mais do que podia esperar. Boa comida, excelente vinho, msica adequada... e a companhia de Alan. Olhou para ele e perdeu o flego ao ver o desejo em seus 
olhos azuis. De repente ele se levantou e estendeu a mo.
      Vamos danar?  claro que vou ter de apert-la com fora para impedir que minha cala caia...
     Rindo, ela aceitou o convite e danou uma valsa lenta. Alan era um excelente danarino. Usava um perfume inebriante, e sem tia-se entorpecida pelo desejo de 
provar o sabor da pele firme de seu pescoo. Ele a segurava com firmeza junto ao corpo, e era como se pudesse sentir cada msculo do fsico atltico. Era como se 
fossem as nicas pessoas em todo o universo. Quando a msica acabou, sentiu a relutncia dele em solt-la, mas, como uma platia daquelas propores, no tinham 
escolha. Enquanto os outros clientes aplaudiam, Alan tomou a mo dela e beijou-a.
      Feliz Dia dos Namorados  disse.
     Mais tarde, a caminho do hotel, Pam guardou um silncio temeroso, consumida pelo desejo e lamentando as ramificaes de qualquer atitude mais ousada. Alan parecia 
mais relaxado, Cantarolava, assobiava e mexia em todos os dispositivos do painel da limusine, at que ela sentiu-se prestes a gritar. A caminhada do estacionamento 
at a porta do quarto pareceu interminvel.
      No conseguiu falar com Linda sobre as outras acomodaes?  perguntou, rindo para esconder o nervosismo.
      Oh, sim, eu falei com ela. Disse que havia mudado de idia, j que s nos restam duas noites. Quer ir dar um passeio na praia?
     Lembrando os resultados desastrosos da ltima caminhada ao luar, ela balanou a cabea.
      Que tal a piscina aquecida?
      No sou medrosa, Alan, mas no tenho coragem de entrar naquela banheira gigante infestada de algas. Alm do mais, Cheek pode estar dentro dela, nu.
      O que pode ser a verdadeira razo do acmulo de algas. Bem, vamos improvisar uma piscina.
      Como?
     Alan apontou para o banheiro.
      Temos uma banheira bem ali, e ela grande o bastante para acomodar duas pessoas. S precisamos ench-la com gua quente.
     Surpresa com a mudana sbita de atitude, ela aproximou-se, ergueu seus culos e perguntou:
      Quem  voc, e o que fez com Alan P., de "preso", Parish?
       melhor vestir seu mai antes que ele volte.
     Pam estudou o rosto perfeito iluminado pelos grandes olhos azuis e sorriu. Ignorando os sinais de alarme que ecoavam em seu crebro, avisou:
      Encontro voc na metade mais funda.
     Em seguida apanhou o biquni, entrou no banheiro e abriu a torneira de gua quente, sentindo o sangue correr mais depressa nas veias. Escolhera o biquni dourado 
de propsito, porque notara a reao de Alan na loja, quando sara do provador para pedir sua opinio. Diante do espelho, teve a impresso de parecer vulnervel 
sob a iluminao intensa do banheiro e hesitou.
     Se estou fazendo algo errado, mande-me um sinal  pediu numa orao breve.
     A lmpada explodiu e se apagou.
     Parada no escuro, disse:
      Preciso ter certeza absoluta. Pode me mandar mais um sinal, por favor?
      Pam?  Alan bateu na porta.  Com quem est falando?
      Com ningum. Foi s uma lmpada queimada.
      Vou apanhar aquelas velas que comprou na butique do hotel. Pam olhou para o alto e baixou a voz.
      Eu tentei. Deus  testemunha de que eu tentei...
     Ele retornou depois de alguns instantes usando um calo de banho. Nas mos Alan levava uma caixa de fsforos e as velas perfumadas, que espalhou pelos quatro 
cantos do banheiro. A atmosfera romntica criada por um detalhe to simples era espantosa. Ao v-lo sair, Pamela entrou na banheira e fechou os olhos. Quando voltou 
a abri-los ele estava entrando.
      Cheguei!
      Champanhe?
     Ele abriu a garrafa, deixando cair uma cortina de espuma sobre os ladilhos claros.
      Como no bebi uma nica gota na recepo do casamento, dei uma gorjeta a Twiggy para convenc-la a encontrar uma garrafa da minha marca favorita. Feliz Dia 
dos Namorados.  Depois de encher duas taas, ofereceu uma delas a Pamela e ps um p na gua, retirando-o imediatamente.  Meu Deus, Pam! Est cozinhando camares 
nessa banheira?
      Relaxe, Alan. Vai acabar se acostumando.
     Ele tentou mais uma vez, gemendo e encolhendo-se a cada movimento, fazendo-a rir com uma seqncia de caretas.
      Felizmente no pretendo ter filhos, porque meu esperma acabou de ser pasteurizado.
       esse o significado do P?
      Engraadinha.
      Parker?
      No.
      Preston?
      No.
      Palmer?
      No. Pare com isso. Ou abre a torneira de gua fria ou liga o termostato para o cozimento de ovos, porque estarei pronto em alguns minutos.
     Pam abriu a torneira de gua fria.
      Por que tanto segredo em torno de um nome?  A perna roava na dela por baixo da gua.
      No tem nenhum assunto privado, algo que no queira dividir com ningum?
      Privado? Sabe com quem est falando? Minha vida tem sido propriedade pblica em Savannah desde que completei dezesseis anos. No diga que nunca ouviu as histrias.
      Ouvi, mas no sei quantas so verdadeiras, e quantas so pura fantasia dos homens que as contaram.
      Alguma vez teve fantasias a meu respeito?
     Ele a encarou por alguns instantes antes de esvaziar o copo de champanhe. Pam sentia arrepios de antecipao.
      Sempre a considerei uma bela mulher  ele comeou, afundando o corpo na gua e estendendo a perna ao lado da dela.  Mas nunca tive fantasias com voc.
     Apertando os lbios, Pamela tentou esconder o desapontamento. Ento no o atraa, afinal. A corrente sexual que sentira entre eles fora produzida pelas lembranas 
de uma paixo adolescente, pelas recordaes de um tempo em que acreditara que Alan P. Parish um dia a notaria, a convidaria para sair, a levaria para conhecer sua 
famlia...
      At esta semana  ele acrescentou em voz baixa. Pam ergueu a cabea.
      Sei o que pensa a meu respeito. Acha que sou uma espcie de rob, um desses obcecados por computadores e livros...
      Um C-D-F  ela confessou sorrindo.
      Obrigado.  Devagar, deixou o copo na beirada da banheira e mudou de posio, roando o corpo no dela.  Mas no sou uma mquina, Pam.
      Tem certeza?  ela sussurrou, incapaz de conter o desejo que a incendiava.  Porque... tenho a impresso de poder sentir seu disco rgido.
      Quero voc.
     Pamela fechou os olhos, tentando lembrar o alvio que sentira na manh seguinte ao beijo na praia, as idias sobre no trair uma velha amizade por uma paixo 
passageira, o medo de trair a confiana da melhor amiga e os comentrios maldosos de toda a cidade, mas as mos de Alan em seu corpo a impediam de raciocinar. Movida 
por um impulso, levou as mos  nuca e desamarrou o suti do biquni, deixando que a gua o levasse para longe dos seios. Alan tomou-a nos braos e beijou-a com 
desespero.
     Depois dos primeiros instantes de voracidade, ele parou para livrar-se dos culos embaados e afastou-se para apreciar os seios fartos e tentadores.
      Voc  magnfica.
     A admirao na voz dele alimentou seu desejo. Um grito escapou de sua garganta quando a boca quente e mida capturou um mamilo.
      Oh, Alan!
     Podia sentir todo o corpo dele, excitado e poderoso, e deslizava as mos pela pele bronzeada tentando tocar cada milmetro, gravar na memria cada detalhe.
     Os gemidos ecoavam pelo aposento, aumentando excitao. A combinao de gua quente, velas perfumadas, champanhe e carcias era definitivamente ertica.
     Alan a devorava, despertando seu corpo como nenhum outro homem fora capaz de fazer. Movia as mos e os lbios com experincia surpreendente, revelando um fogo 
que ela jamais suspeitara existir sob a aparncia fria e contida.
     Sabendo que no poderia conter-se por muito mais tempo, ele sugeriu:
      Vamos para a cama...
     Pamela gemeu e se deixou carregar para o quarto. Quando caram sobre a cama, a gua do colcho provocou ondas que os fizeram rir, e Alan no perdeu tempo ao 
despir o calo e livr-la da calcinha do biquni. V-la nua foi demais para sua capacidade de controle e, excitado alm do que sua imaginao julgara ser possvel, 
deitou-se sobre o corpo dourado e firme e beijou-a imitando o ritual da penetrao. Pam movia-se com desespero, convidando-o a possu-la.
      No posso mais esperar  ele disse com voz rouca.  Preciso t-la agora. Est protegida?
     Ela fez um movimento afirmativo com a cabea, os lbios entreabertos e os olhos azuis brilhando intensamente.
     Os corpos se uniram num s e os gemidos se tornaram mais altos  medida em que se moviam, repetindo uma dana mais antiga que o mundo. Disposto a lev-la ao 
clmax mais intenso que j experimentara, Alan sussurrava palavras erticas em seus ouvidos, coisa que jamais fizera com nenhuma outra mulher, deliciando-se com 
suas respostas desinibidas e com os movimentos de seus quadris. Quando finalmente explodiu em espasmos doces, envolventes e violentos, Pamela moveu-se com habilidade 
e os msculos comprimidos o massagearam, levando-o ao orgasmo mais alucinante que j tivera.
     Os corpos estavam parados h algum tempo, mas os movimentos do colcho de gua prolongavam a doce agonia do encontro sensual.
     Devagar, Alan rolou o corpo para o lado e deitou-se, usando um brao para sustent-la e faz-la pousar a cabea em seu ombro. Assim no teria de encar-la enquanto 
no recuperasse um mnimo de controle. Precisava compreender o que acabara de acontecer. O remorso, o arrependimento e o medo das conseqncias ainda no haviam 
penetrado em sua alma, e por enquanto podia desfrutar da companhia daquela criatura maravilhosa com quem conhecera o significado da palavra prazer.
     No lembrava de ter estar mais satisfeito ou feliz, mas pensar em passar o resto de suas noites daquela maneira... No. Devia ser a nvoa do sono que ia aos 
poucos dominando sua mente. Teve sonhos agitados, povoados por imagens assustadoras de dias tensos e angustiantes vividos em companhia de Pamela Kaminski.

     CAPTULO X

     O sol j brilhava no cu quando Pam abriu os olhos. Apesar da temperatura amena, um manto gelado a envolvia. Fizera sexo com o ex-noivo da melhor amiga!
     Em pnico, tentou livrar-se dos braos que a mantinham cativa e ignorar a ereo monstruosa sob o lenol.
      Oh, meu Deus, oh, meu Deus, oh, meu Deus...
      Ei, aonde vai?
      Tire as mos de mim!
      Devia dar um jeito nesse seu mau humor matinal  ele comentou em meio a um bocejo.
      Mau humor? Ento no percebe que estamos encrencados?
     Confuso, Alan sentou-se na cama e apoiou os ps no carpete marrom.
      Do que est falando?
      Fizemos sexo ontem  noite!
      Sim, eu sei. Estava l, lembra-se?
     Esse era o maior problema. Lembrava de cada detalhe. Perturbada, enrolou-se numa toalha e jogou outra na direo dele.
      Por favor, cubra-se. E agora, o que vamos fazer?
     Depois de enrolar a toalha na cintura, Alan esfregou os olhos e suspirou.
      No sei. Que tal irmos a Disney World?
      No tem graa.
      Ser que posso dispor de alguns segundos para acordar... e buscar alvio para o mal que me atormenta?
     A noite no significara nada para ele. E por que teria algum significado especial? No era ela quem teria de encontrar Lucy regularmente quando voltassem para 
casa. Do ponto de vista masculino, dormir com a melhor amiga da mulher que o abandonara altar era uma vingana perfeita. Ferida, sentiu-se a maior de todas as tolas 
por no ter visto a situao com clareza na noite anterior. Pam apontou para o banheiro.
      Sinta-se em casa  disse com tom frio.
     Assim que Alan fechou a porta, ela se aproximou do guarda-roupa, apanhou a enorme bolsa de praia e comeou a jogar dentro dela todos os objetos de uso pessoal. 
Deixaria as roupas nos cabides. Como Alan as comprara, poderia dispor delas como bem entendesse.
     Voltaria para casa de nibus para evitar uma repetio da traumtica experincia vivida dias antes. Preferia passar dois dias na estrada a entrar num avio. 
Aproveitaria o tempo para decidir o que diria a Lucy. Ou melhor, se diria alguma coisa.
     Nervosa, ensaiou um breve discurso.
      Pam, voc e ele j estavam separados, e o clima daquele lugar  realmente sensual. Juro que nunca houve nada entre ns enquanto ainda eram noivos.
      Pam.
     A voz profunda mexeu com seus nervos abalados e, assustada, ela derrubou a bolsa e a toalha. Cobrindo-se depressa, virou-se e encontrou Alan apoiado no batente.
      O que est fazendo?  ele quis saber.
      O que pareo estar fazendo? Vou embora,  claro.
      Para casa? Por qu? Acha que essa  a melhor maneira de lidar com o que aconteceu entre ns?
      Tem alguma idia melhor?
      Tente no exagerar nas propores. J  um bom comeo. Eu estava ferido, voc estava sozinha... Tivemos uma noite romntica, bebemos garrafa de champanhe... 
Desculpe-me, Pam. Sinto-me culpado por t-la trazido para c e...
      Veja s a confuso que criamos! E no precisa se desculpar, Alan. No me lembro de voc ter apontado uma arma para a minha cabea.
      No fomos muito sensatos, considerando as circunstncias, mas somos adultos, e podemos nos comportar de forma a impedir que o fato se repita.
      No pode se repetir!
      Certo. J que estamos de acordo, pode ficar.
      Ah, ? E o que vou dizer a Lucy?
      Nada. Ela  casada, Pam. No tem o direito de interferir em nossas vidas, e nem deve se importar com o que fazemos na intimidade.
      Mas como vou encar-la?
      Como se nada houvesse acontecido.
     A resposta deixava claro que o fato de terem dormido no havia significado nada para Alan.
      No posso mentir para Lucy. Ela  minha melhor amiga.
      Est bem. Se Lucy perguntar se dormimos juntos, voc dir que sim.
      Ela jamais perguntaria.
       o que estou tentando dizer. Mas vai acabar despertando a curiosidade dela se voltar para casa antes da data prevista. Fique, e prometo ficar fora do seu 
caminho at sbado. Ainda podemos ser amigos, no?
     Ele fazia tudo parecer to simples! Alan, o Sr. Prtico. Talvez o P fosse de prtico. E talvez estivesse certo. Precisavam de alguns dias para recuperar o relacionamento 
casual. Sabia que nunca mais seria capaz de olhar para Alan como antes, mas seria uma pena perder sua amizade por causa de um lapso.
      Est bem, eu fico  disse com um sorriso.  Hoje irei fazer compras e conhecer a cidade.
      E eu encontrarei alguma coisa para fazer. Quer tomar banho primeiro?
      Sim, obrigada.
     Rpida, dirigiu-se ao banheiro para escapar de atmosfera de estranheza e intimidade, mas deparou-se com as evidncias do interldio da noite anterior. O suti 
do biquni dentro da banheira, a garrafa aberta, as velas queimadas...
      Pam...
     Assustada, virou-se e pisou num objeto pequeno que emitiu um rudo estranho ao ser pressionado contra o cho.
      O que ?
      Viu meus culos?
     Ela olhou para baixo, levantou o p e fez um movimento afirmativo com a cabea.
     Alan ajeitou os culos sobre o nariz, franzindo a testa ao sentir a fita adesiva que mantinha unidas as duas metades do objeto. Sentado na poltrona macia do 
cinema, comia pipoca enquanto esperava pelo incio do filme e imaginava-se ao lado de Pamela ali, rindo e fazendo comentrios engraados.
     Era estranho como mudara de idia a respeito dela nos ltimos dias. Pam ainda era a bomba sexual que o deixava nervoso, mas... agora vislumbrara a mulher sensvel, 
divertida e afetuosa que se escondia sob a fachada de frivolidade. O sexo ardente da noite anterior fora apenas uma grande e brilhante cereja sobre o sundae mais 
delicioso que imaginara existir. Mas... se Pamela Kaminski era to interessante, por que no a perseguia com determinao? Imaginou-a contando as razes nos dedos.
      Porque minha amizade com sua ex-noiva  mais importante que qualquer relacionamento que possamos manter. Porque existe uma dzia de homens esperando por mim. 
Porque voc no  o tipo de homem com quem eu passaria o resto da vida.
     O filme comeou, mas Alan no conseguia acompanhar a seqncia rpida do enredo. Pamela Kaminski no saa de sua cabea e, ao final de duas horas, decidiu permanecer 
onde estava e assistir  sesso seguinte. Talvez conseguisse entender alguma coisa do enredo.
     Pela primeira vez em seus trinta e tantos anos de vida, sentia-se perdido, confuso e consumido por causa de uma mulher. Uma mulher que estava fora do seu alcance.
     Quando saiu do cinema, a noite j comeava a cair. Caminhando pela calada repleta de transeuntes, decidiu que tudo seria diferente quando voltassem a Fort 
Myers. Retomaria o ritmo frentico da empresa de consultoria e ela voltaria a envolver-se com o trabalho de corretora de imveis. Se encontrariam ocasionalmente 
em algumas festas, trocariam acenos, e ningum jamais imaginaria que haviam dormido juntos.
     Sem saber o que fazer, Alan continuou caminhando e olhando vitrines. Na frente de uma joalheria, viu um pingente de ouro em forma de castelo de areia e ficou 
encantado. Queria que Pam levasse uma lembrana do que acontecera entre eles, e o objeto parecia perfeito. Dez minutos mais tarde voltou  calada levando no bolso 
a caixa com o pingente e uma delicada corrente de ouro. No sabia se daria a jia a Pamela, ou quando o faria, mas compr-la j havia sido suficiente para satisfaz-lo 
temporariamente.
     Num bar movimentado, pediu um sanduche e uma cerveja. O garom que o atendeu no balco usava uma camiseta justa com as mangas arrancadas para exibir as tatuagens 
que cobriam seus braos. Alan tentou no demonstrar muita curiosidade, mas fracassou.
      J teve uma tatuagem?  o rapaz perguntou.
      No  e apontou para o bceps do sujeito.  Isso  um anncio?
      Sim.  o melhor tatuador da cidade. Fica do outro lado da rua, e consegui um desconto por exibir o anncio.
      Painis humanos... A est uma indstria de potencial inesgotvel.
      Tem razo. Est ocupado esta noite?
      O qu? Oh, eu... Bem, est enganado a meu respeito, companheiro.
      No  o que est pensando. Minha namorada vai passar por aqui com uma amiga. Gosta de ruivas?
      Sim, mas...
      timo! O nome dela  Pru.
      Espere um minuto, eu no disse que...
      Uau!  Algo perto da porta havia chamado a ateno do rapaz.  Seria capaz de cometer uma loucura por um petisco como aquele!
     Alan virou-se no banco e viu Pamela entrando. Ela usava um conjunto de short e camiseta sem mangas que teriam passado despercebidos em noventa e nove por cento 
da populao feminina. Parecia procurar algo na bolsa, e por isso demorou a not-lo. Quado ergueu a cabea e o viu perto do bar, ela aproximou-se com um sorriso 
tmido, quase confuso.
      Mundo pequeno...  Alan comentou, apontando para o banco vazio a seu lado.  Sente-se. Quer uma cerveja?
      No, obrigada. Estou procurando um telefone pblico. A bateria do meu celular acabou bem no meio de uma conversa com a Sra. Wingate.
      Ela decidiu comprar a casa dos Sheridan?
      Ainda no, mas est l com um padre que vai benzer os canteiros de flores.
      Bem, se precisa cuidar dos negcios, no me deixe atras-la.
      Tudo bem. Ela deve ter interpretado a interrupo como um pressgio, e  bem provvel que no atenda mais ao telefone.  Pam olhou para o garom.  Bela obra 
de arte  elogiou, apontando para os braos tatuados.
      Obrigado.
      O que fez durante todo o dia?  Alan perguntou, tentando ignorar o cime despertado pelo olhar insistente do garom.
      Fui conhecer a cidade. A arquitetura local  interessante, e o mercado imobilirio parece promissor.
      Est pensando em se mudar para c?  ele riu.
      No. Gosto de Fort Myers, mas Atlanta seria minha opo, caso decidisse deixar Savannah. Tenho muitos amigos l.
     Pamela tinha amantes em todos os estados!
      Atlanta  uma cidade divertida.
      Sim. Mas enquanto minha me estiver viva, acho que no deixarei Savannah  ela confessou.
      Prefiro no pensar nesse assunto. No consigo imaginar em que estado encontrarei minha me quando voltar.
      Ela gostava muito de Lucy, no ?
      Mame vivia dizendo que Lucy seria a esposa ideal para dar um impulso  minha carreira e organizar minha vida pessoal.
      Ela sabia que vocs no queriam ter filhos?
      Sim, mas no se importava com isso. Minha irm tem dois filhos, e mame j est satisfeita com os netos que tem.
      Sorte sua! Minha me no tem nenhum neto. Quero dizer, no que saibamos. Mas conhecendo meus irmos, estou quase certa de que existem alguns pequenos Kaminski 
correndo pelo mundo.
     Alan riu e bebeu mais um pouco de cerveja. Todas as famlias, ricas ou pobres, tinham suas disfunes.
      J jantou?
      No estou com fome. Na verdade, estava pensando em voltar ao hotel e ir descansar mais cedo.
      Ah, vamos l!  Alan insistiu, tentando disfarar o incmodo provocado pelo comentrio.  Por que no fica para uma cerveja? Somos amigos, lembra-se?
     Pamela hesitou, mas acabou sorrindo e aceitando o convite.
      Est bem. S uma cerveja.
     Alan acordou assustado e estranhou o gosto amargo na boca. A cabea doa, e os roncos de Pam a seu lado indicavam que haviam dormido na mesma cama. Lembrava-se 
de terem consumido litros de cerveja antes de sarem do bar, mas a memria recusava-se a passar desse ponto. Teriam voltado diretamente para o hotel? E depois?
     Lentamente, abriu os olhos e ajeitou os culos quebrados que, por um milagre qualquer, permaneciam sobre seu nariz. Virou a cabea para examinar o reflexo no 
espelho do teto e no pde conter um gemido. Estavam nus, as pernas entrelaadas numa posio ntima.
     De novo no.
     Pam estava deitada de bruo, e o lenol puxado revelava a rosa falsa tatuada em seu traseiro. Assustado com a reao provocada pela viso, Alan levantou-se 
e, cambaleando, dirigiu-se ao banheiro.
     Os msculos da regio gltea doam, em funo do exerccio provocado pela atividade sexual. Enquanto abria o chuveiro, massageou a rea em busca de algum alvio. 
Mas o movimento s aumentou a dor e, intrigado, ele se aproximou do espelho. Devia ter ficado muito bbado, mas havia permitido que Pam aplicasse uma daquelas ridculas 
tatuagens falsas em seu traseiro. Uma toalha molhada e um pouco de sabo resolveriam o problema
     Quando comeou a esfregar a tatuagem, a dor aumentou e o desenho permaneceu inalterado.
      Devo ser alrgico  tinta  resmungou, esfregando com mais fora. Minutos mais tarde, ao notar que a tatuagem continuava no mesmo lugar, Alan reconheceu a 
primeira onda de pnico.
      No!  gritou.  No pode ser real!
     Aproximou-se novamente do espelho para ver melhor, mas no conseguiu decifrar a seqncia de letras na ordem inversa. Usando o espelho porttil que Pamela havia 
deixado no banheiro decifrou o significado da tatuagem e quase desmaiou.
     Pam!
     Pamela acordou assustada, sem saber de onde partia o som que havia interrompido o sono profundo. Engolindo a dor, moveu a cabea. O som de vidro se quebrando 
no banheiro a fez sentar-se.
      Alan?  chamou, segurando a cabea.  Tudo bem?
     A porta se abriu e ele apareceu nu, o rosto vermelho e perturbado.
      No, no est tudo bem. Na verdade, nunca estive to mal. Pam massageou o quadril dolorido e fez uma careta.
      V direto ao ponto, est bem? No tenho energia para jogos de adivinhao.
      Voc me convenceu!
     Ela suspirou.
      Fizemos aquilo de novo.
      Sim, mas no  disso que estou falando.
      Ento, do que est falando?
      Disto!  ele gritou, virando-se e apontando para uma das ndegas.
      Uma tatuagem? Voc fez uma tatuagem?  e explodiu num acesso de riso. Girando o corpo, olhou para o prprio quadril e viu o novo desenho.  Ns dois fizemos 
tatuagens! Uma rosa! No  lindo?  Animada, levantou-se e aproximou-se dele.  Deixe-me ver a sua.  Ao ver o nome escrito dentro de um corao vermelho, ela empalideceu. 
 Pam?  e cobriu a boca com as mos, cravando os olhos arregalados em seu rosto.
      Existem procedimentos cirrgicos para remover tatuagens  ela garantiu quando seguiam pelo caminho que levava  praia. Alan seguia em silncio.  Mas o que 
realmente importa  que... o que houve ontem  noite no pode se repetir.
      Tem razo.
      S temos mais um dia e uma noite, e somos perfeitamente capazes de nos manter sbrios e distantes um do outro.
      Certo.
      Vamos tentar aproveitar o tempo que nos resta.
      Que tal tentarmos sobreviver at amanh com o mnimo possvel de calamidades?
      Est bem  Pam encolheu os ombros.
     Na areia, Alan esperou que ela se acomodasse na espreguiadeira e puxou a dele para bem longe antes de sentar-se.
      Medida de precauo  disse, abrindo o jornal como se quisesse esconder-se do mundo.
     Irritada, Pam abriu um livro e tentou no pensar em Alan. Aceitara o convite para uma cerveja no bar do centro da cidade porque, depois de um dia inteiro longe 
dele, havia sido agradvel encontr-lo. Sentira falta de Alan, uma constatao que a intrigava e assustava.
     Lembrava-se de t-lo convencido a fazer a tatuagem, animada com a impressionante coleo do garom, mas no sabia de onde ele havia tirado a idia de gravar 
a palavra "Pam" no traseiro. E o fato de terem dormido juntos novamente s aumentava a confuso.
     As coisas seriam melhores quando voltassem a Savannah. Raramente o veria, j que a ligao entre eles, Lucy, deixara de existir, e assim no teria de passar 
o resto da vida lembrando o tempo que haviam passado juntos num hotel  beira-mar.
      Ol.
     Pam desviou os olhos do livro e viu Enrico parado ao lado da cadeira. Resplandecente num espremedor de ovos cor de laranja, ele acenou para Alan que permanecia 
escondido atrs do jornal.
      Vejo que seu acompanhante a negligenciou novamente. Talvez eu possa remediar a situao.
     Aborrecida, Pam abriu a bolsa.
      Duvido.
      Quer dar um passeio pela praia?
      No  disse, e ps os culos escuros.
      Que tal um drinque?
      No.
     Ele aproximou-se e o hlito de lcool a atingiu em cheio.
      Gosta de provocar, no ?
      No  Alan respondeu atrs dele.
     Pam o viu parado com o jornal dobrado sob o brao, os olhos fixos no rosto de Enrico.
      Eu posso cuidar disso, Alan  disse irritada.
     Ele encolheu os ombros e voltou  cadeira.
     Mas Enrico o seguiu.
      Decidiu que ela no merece uma boa luta, seor!
      J chega!  Pam ergueu o corpo.   melhor ir embora, Enrico.
       mulher demais para voc?  ele insistiu.
     A pacincia de Pam chegou ao fim e ela se levantou.
      V embora, Enrico!
      Qual  o problema? O mocinho precisa da mulher para se defender?
     Furiosa, Pamela investiu contra ele e pendurou-se em seu pescoo, montando nas costas peludas enquanto tentava atingi-lo com tapas desferidos s cegas. Alan 
levantou-se para ajud-la, mas Enrico deu um passo  frente e o derrubou na areia, caindo sobre ele. Os trs rolaram pelo cho enquanto Pam esmurrava as costas do 
sujeito.
     A areia os cegava. A briga era uma confuso de braos e pernas. Alan e Enrico trocavam golpes violentos. Algum gritou pela polcia e, enfurecida, Pam decidiu 
que era hora de pr um ponto final da cena lamentvel. Cerrando um punho, preparou-se para acertar um direto no queixo de Enrico. Afastando o brao, pr toda a fora 
que tinha no movimento e desferiu o golpe. O gemido aflito comprovou que ela atingira seu objetivo.
     Ofegante, levantou-se para limpar a areia dos olhos e, ao massagear os dedos doloridos, viu Enrico correndo pela praia, aparentemente imune ao soco com que 
acabara de brind-lo.
     Quando olhou novamente para o local da luta, Sentiu o estmago contrair-se. Alan estava sentado na areia, cobrindo o olho direito com uma das mos.
     Adoraria pedir desculpas, mas a chegada da polcia a impediu de falar.
      Ol  o oficial cumprimentou.  Sabia que nos encontraramos novamente.
      Veja pelo lado positivo  Pam aconselhou-o na manh seguinte enquanto caminhavam at a limusine estacionada em fila dupla.
     Atordoado depois de mais uma noite na cadeia e sentindo uma dor intensa no olho ferido, Alan, suspirou:
      O que h de positivo nisso?
      No fizemos sexo ontem  noite. E vamos embora hoje. J encerrei nossa conta no hotel. Twiggy mandou lembranas. Comprei uma mala e j trouxe todas as suas 
coisas. Esto no porta-malas.
     Alan parou e olhou para os dois novos amassados no carro azul-celeste, mas no disse nada. Em vez disso, abriu a porta de trs, sentou-se no banco e bateu a 
porta com violncia.
      Vai me deixar dirigir at o aeroporto?  Entusiasmada, Pam acomodou-se atrs do volante e abriu a divisria de vidro entre os bancos.
     Alan ps o cinto de segurana.
      Estou exausto demais para discutir.
      Ento relaxe. Que tal comermos alguma coisa a caminho do aeroporto? Ainda temos muito tempo antes do vo.
      Como quiser  disse, e tirou os culos para no ver o que estava prestes a enfrentar.
     Por piores que fossem suas expectativas, no antecipara que ela tentaria passar por um drive-thru com a limusine. Ficaram presos no corredor estreito por mais 
de quarenta minutos, enquanto um manobrista desesperado tentava ajud-la a liberar a passagem para a fila de clientes que aumentava a cada segundo. Quando sentiu 
que no suportaria o rudo do metal contra a parede cada vez que ela punha o carro em movimento, Alan ligou a tev e pediu um sanduche.
     Finalmente conseguiram livrar-se da situao constrangedora e voltaram  estrada.
      Ainda temos uma hora  ela gritou, animada.  Vamos chegar a tempo.
     Alan fechou a divisria e olhou para a tev. Cinco minutos mais tarde estavam parados novamente. Pam abriu a divisria.
      Estamos presos num congestionamento. O rdio informa que houve um acidente alguns metros  frente, e a pista s ser liberada dentro de cinqenta minutos. 
Mas no se preocupe. Vamos conseguir  e fechou a divisria.
     Alan suspirou e pegou o controle remoto. Ento uma idia passou por sua mente e ele abriu a divisria.
      Ei, Kaminski?
      O que ?
      J ficou nua numa limusine?
      No.
      Quer experimentar?
     Ela fechou a divisria sem responder. Alan recostou a cabea no banco e suspirou.
      No custa nada tentar.
     De repente a porta se abriu e ela entrou, atirando-se sobre ele e rindo como uma adolescente. Montando sobre seus quadris, beijou-o e perguntou:  Acha que 
uma hora ser suficiente?
      Vamos ter de nos apressar  ele sussurrou, trancando a porta.
     Pam corria pelo saguo do aeroporto e gritava:
      Isso no pode mais acontecer!
      Nunca mais  Alan respondeu no mesmo tom.
     Deixara uma quantia obscena no balco da locadora de automveis, caso sua companhia de seguros no cobrisse os danos causados  limusine, e correra at o balco 
da companhia area ignorando a dor provocada pelo contato da cala com a pele tatuada. Quando sentaram-se nas poltronas do avio, surpreendeu-se por s ter passado 
sete dias longe de casa. Era como se tudo houvesse acontecido h um sculo! Um sculo e uma pequena fortuna...
     Depois da decolagem, ps os fones de ouvido e percebeu que enganara-se ao pensar que voltar para casa seria a soluo para todos os problemas. Na verdade, quando 
mais o horizonte de Fort Myers se distanciava, mais clara se tornava a verdade.
     Em vez de tentar dissecar o rolo compressor de emoes que ameaava esmag-lo, tinha de considerar os fatos: estivera vulnervel, e Pam dispusera-se a consolar 
um amigo. Mesmo que as circunstncias fossem ideais, o que no eram, e mesmo que tivesse a inteno de tomar uma esposa, o que no tinha, no conseguia imaginar 
algum menos adequada ao casamento do que Pamela Kaminski.
     Felizmente o vo foi tranqilo. O fato de Pam ter vomitado na cabea de um passageiro nem mereceu ateno em vista de sua nova escala de relatividade. Despreocupada, 
ela nem parecia notar seu silncio, conversando com as comissrias e pintando as unhas dos ps durante o vo.
     S quando j estavam aterrissando e ele notou a palidez no rosto delicado, Alan percebeu como havia aprendido a gostar dela. Afagou a mo sobre o brao da poltrona 
e o sorriso grato o atingiu como um soco no estmago. Nesse momento soube que, mesmo que o olho ficasse curado, a tatuagem fosse removida, os processos fossem encerrados 
e o seguro do carro no fosse cancelado, nunca mais conseguiria recuperar-se daquela semana em companhia de Pamela Kaminski.
     Ela se comportou normalmente enquanto retiraram as bagagens e passaram pelo porto de desembarque, reforando suas suspeitas de que, para Pamela, a semana havia 
sido apenas uma travessura inconseqente. E apesar dos problemas que pareciam segui-la por todas as partes, sentiria saudade dela. Quando o tempo cicatrizasse as 
feridas e pusesse cada coisa em seu devido lugar, talvez a procurasse para ver como estava passando.
     Ofereceu-se para chamar um txi, mas ela insistiu em lev-lo para casa, dizendo que precisava mesmo dar uma olhada em alguns imveis localizados em sua vizinhana. 
No caminho ela ultrapassou dois sinais vermelhos, mas parou o trnsito numa ponte sobre um lago para permitir que uma pata atravessasse a pista com seus filhotes.
      Aqui estamos  Pam informou ao parar diante da imponente residncia dos Parish.  Alan, eu... sinto muito.
      Por qu?  Ele forou um sorriso.
      Por quebrar seus culos, amassar a limusine, provocar a multa, convenc-lo a fazer uma tatuagem, acertar seu olho e mand-lo para a cadeia.
      Duas vezes.
      Duas vezes.
      Esquea.
     O sorriso de alvio e felicidade que iluminou o rosto de Pam compensou todo o sofrimento da semana anterior.
     Alan abriu a porta e foi buscar a mala preta que ela comprara e onde guardara suas coisas. Quando contornou o automvel e parou junto  janela do motorista, 
lembrou-se subitamente do pingente que comprara para ela.
      Oh, ia me esquecendo  e abriu a bolsa de ginstica, de onde tirou a caixa de veludo escuro.   para voc.
      Para mim?  ela se surpreendeu, abrindo a embalagem com curiosidade quase infantil.  Oh, Alan,  lindo! Mas... por qu?
     Porque quero que se lembre de mim. De ns.
      Porque queria agradecer por ter me feito companhia. Foi divertido  mentiu. Havia sido surpreendente, inquietante, estimulante, estressante e assustador, 
mas divertido? Nunca.
      Tambm gostei muito.
     Pamela prendeu a corrente em torno do pescoo e o pingente desapareceu entre seus seios. Alan engoliu em seco.
      Obrigada, Alan.
      At qualquer dia...  A voz tremeu, e ele teve medo de demonstrar a esperana que sentia de rev-la o mais depressa possvel.
      At qualquer dia.
     Alan a viu fechar a janela, arrancar vrias centenas de dlares de grama com os pneus carecas e entrar na estrada bem na frente de um carro luxuoso cujo motorista 
pisou no breque e enfiou a mo na buzina para evitar uma coliso. Depois, deixando no ar apenas um som estridente da borracha dos pneus contra o asfalto, ela desapareceu.

     CAPTULO XI

     Pam deu um tapa no joelho e riu.
      Est  a melhor piada de primeiro de abril que j ouvi, Dra. Campbell.
     Eleanor Campbell respirou fundo e cruzou os dedos sobre a mesa.
      No se trata de piada, Pamela. Voc est grvida. Choque, surpresa e pavor se misturaram numa s emoo. A garganta contraiu-se e os dedos ficaram gelados, 
entorpecidos.
      Como... como isso  possvel?
      Quer uma explicao simples ou a verso mdica?
      Qualquer um, desde que seja mentira.
      Lamento, mas vai ter de aceitar a realidade.
      Mas... eu tomo minhas plulas anticoncepcionais com regularidade!
      Se leu a bula do antibitico que prescrevi para aquela infeco de ouvido que teve h alguns meses, deve ter tomado conhecimento de que a medicao reduz 
drasticamente os efeitos de qualquer anticoncepcional por via oral.
      Quando aconteceu?
      Pela data de sua ltima menstruao, creio que foi por volta do Dia dos Namorados.
     Se fechasse os olhos, talvez no tivesse de se conformar com o destino dos Kaminski: pr no mundo filhos ilegtimos. No teria de encarar o fato de Alan, com 
quem no voltara a falar desde o retorno a Savannah, e que odiava crianas, era o pai do beb que crescia em seu ventre.
      Sr. Parish?  a voz da secretria ecoou no interfone.
     Alan afastou-se da janela e foi atender.
      Sim?
      S consegui ingressos para a funo de caridade dos patinadores no gelo em prol da sociedade protetora dos animais. Todos os outros eventos de caridade j 
esto com lotao esgotada.
      Compre-os  ele determinou.
     Esperava que o truque no parecesse desesperado.
     Enchendo-se de coragem, discou para a casa de Pamela e sentiu o corao bater mais depressa ao ouvir a voz dela do outro lado da linha.
      Al?
      Pam? Aqui fala Alan Parish. Alguns segundos de silncio se passaram.
      Ol, Alan. Quais so as novas?
      Nada de interessante. S liguei para desejar um feliz primeiro de abril.
     Mais silncio.
      Obrigada.
     Alan comeou a rabiscar num pedao de papel.
      Como tem passado?
      Bem... acho. E voc? Como vai o olho?
      J nem me lembro mais daquele soco.
      E... o outro lado?
      Bem, a cirurgia  delicada. Ainda estou tentando escolher o melhor mdico.
      Lucy me contou que vocs conversaram sobre o que aconteceu.
       verdade.
      Ela parece feliz no papel de me.
      No consigo imagin-la cuidando de trs crianas.
      Tem razo,  difcil. Principalmente para algum com sua averso  crianas.
     Era engraado, mas, no momento, a parte mais difcil na idia de ter filhos parecia ser dividir a esposa com outro ser humano. Pam era o tipo de mulher que 
tornava um homem egosta. Alan balanou a cabea para clarear as idias. Pam, uma esposa? De onde tirara essa idia?
      Alan, est me ouvindo?
      O qu? Sim,  claro. Estava pensando... Pode me acompanhar a uma funo de caridade no prximo final de semana?
     Durante os segundos de hesitao Alan sentiu-se morrer mil vezes.
      Que tipo de funo de caridade?
       um... concurso de patinao entre animais.
      O qu?
      No!  um evento da sociedade protetora dos animais em funo dos patinadores no gelo.
      Alan!
     Onde estava seu crebro?
      Esquea o evento. Quer ir jantar comigo hoje  noite no Hotel River Plaza?
      Est com algum problema?
      Para falar a verdade, preciso conversar... sobre Lucy  improvisou, recriminando-se pela escolha infeliz.  No consigo entender algumas coisas, e acho que 
voc poderia me ajudar.
      E claro  ela suspirou.  Para que servem os amigos?
      No imagina como estou feliz. Por volta das sete, no restaurante do hotel?
      Estarei l.
     Pamela no parecia muito feliz com as perspectivas, mas no tinha importncia. Queria v-la novamente. Ansioso, tentou prolongar a conversa.
      Vendeu a casa dos Sheridan?
      Ainda no. A Sra. Wingate contratou um caador de fantasmas para passar a noite l. Estamos esperando os resultados. Desculpe, Alan, mas preciso desligar.
       claro  ele respondeu desapontado.  At mais tarde.  Desligou devagar, tentando ser otimista, mas ouvira a frieza na voz dela. Alan olhou para o papel 
que estivera rabiscando e parou, passando as mos pelos cabelos num gesto aborrecido.
     Havia desenhado um corao e escrito "Pam" dentro dele.
     Pam desligou o telefone e piscou para conter as lgrimas quentes. Depois de todas aquelas semanas, Alan havia escolhido justamente esse dia para procur-la! 
O dia em que teria de decidir como dizer a ele que havia engravidado a melhor amiga da ex-noiva durante uma falsa lua-de-mel.
     Como poderia encar-lo? Como revelar que seria pai de uma criana indesejada concebida com uma mulher que no queria? A famlia Parish no ficaria orgulhosa. 
J podia ouvir os sussurros e ver os narizes torcidos nos rostos aristocrticos.
     Pamela enterrou o rosto entre as mos. Como poderia encarar Lucy? Depois de ouvi-la agradecer por ter dado a mo a Alan num momento de necessidade, teria de 
confessar que havia oferecido muito mais do que a mo.
     E como poderia encarar seu filho? Como explicaria quela criana que havia sido concebida por um pai que havia sido abandonado no altar e uma me cujos sonhos 
eram loucos demais para serem realizados?
     E como encarar o espelho? Fora descuidada com o corao e o corpo. Sabia que Alan amava sua melhor amiga, mas deixara-se usar num momento de dor e fragilidade. 
Deixara-se usar na esperana de que o homem perfeito, aquele que possua todas as virtudes que esperava encontrar num companheiro, como segurana, integridade, carter 
e nobreza, reconhecesse nela o que nenhum homem fora capaz de ver e se apaixonasse.
     De repente se dava conta de que o amara desde a primeira vez, quando ele a separara de Mary Jane Cunningham no ginsio. Recompensara-o com um chute na canela 
porque no soubera como reagir a algum de to diferente classe social. No se sentira com coragem suficiente para demonstrar simpatia.
     Desde aquele dia, havia sido mais fcil zombar dele a admitir que possua algo que desejava. E quando os caminhos voltaram a se cruzar, j na vida adulta, retomara 
o relacionamento de onde o interrompera. Finalmente fora forada a admitir que Alan Parish era a personificao de todos os sonhos. O homem que queria mas jamais 
teria. Por isso ocupara o tempo e a mente com uma sucesso de namorados insignificantes.
     Como ele ocupara sua alma ferida com o corpo de uma mulher ardente e disponvel depois de ter sido abandonado por Lucy.
     Desesperada, Pam abriu a agenda de telefones e discou para um determinado nmero em Atlanta. Seria bom ouvir a voz de um velho e querido amigo, algum com ombros 
largos, fortes e desinteressados.
      Al?
      Manny? Sou eu, Pamela.
      Ei, como vai?  melhor ter uma boa desculpa para o desaparecimento prolongado.
      Que tal uma boa desculpa para estar telefonando?  ela riu, incapaz de banir o tremor da voz.
      Aconteceu alguma coisa? J sei,  um homem! Os que parecem mais corretos so sempre os mais perigosos.
      Preciso deixar a cidade por alguns dias.
      Vou alertar os pedestres de Atlanta sobre sua chegada.
     Alan consultou o relgio pela vigsima vez. Onde estaria ela? Pam atrasara-se apenas alguns minutos, mas estava ansioso. Os dedos tamborilavam sobre o balco 
do bar do hotel, traindo o nervosismo. O garom trouxe uma dose de usque e ele a bebeu de um s gole, esperando encontrar no lcool a coragem de que necessitava.
     Amava Pamela Kaminski. Parecia ridculo e ela provavelmente riria, mas no tinha importncia. Havia provado o sabor da vida ao lado dela, e agora no conseguia 
mais voltar aos dias de monotonia e rigidez. Precisava dela como precisava do ar para respirar.
     Um casamento formal seria exagero. Afinal, fora deixado no altar poucas semanas antes, e Pam deixara claro que no pensava em assumir compromissos mais srios. 
Mas, se conseguisse convenc-la a ir morar com ele, pelo menos tornaria pblico o relacionamento, o que serviria para diminuir o assdio da concorrncia. Um dia, 
quando estivessem preparados, ento pensariam em casamento... e filhos.
     Alan parou e balanou a cabea. Primeiro superaria essa noite. Depois iria vencendo cada etapa devagar, sem traumas.
     Por volta das oito da noite, Pam encontrou uma vaga e estacionou o carro perto do edifcio de apartamentos onde Manny residia. A viagem de cinco horas havia 
sido exaustiva, especialmente porque chorara durante boa parte do trajeto.
     Manny abriu a porta e a envolveu num abrao caloroso.
      Pam, um dia desses vai ter de comear a envelhecer  disse.
     Ela sorriu para o homem alto e louro que conhecera numa boate anos antes. Manny Oliver era homossexual convicto e dono do melhor carter que j conhecera, e 
haviam mantido contato e trocado visitas ocasionais.
      Manny, se algum dia decidir abandonar o navio, quero ser a primeira a saber.
      Querida, voc e Ellie seriam as nicas mulheres no meu bote salva-vidas.
      Como vai Ellie?  perguntou, recordando a antiga companheira de quarto.
      Feliz. Ela e Mark se casaram h menos de um ano e j esto esperando um beb. E eu pergunto: que mulher  capaz de suportar aquela horrvel moda gestante?
      Algumas so obrigadas a suport-la  e baixou os olhos para o ventre num gesto revelador.
      Oh, no!  Manny deixou-se cair numa cadeira.  Voc tambm?
     Ela respondeu com um movimento afirmativo de cabea, os olhos cheios de lgrimas.
     Em silncio, o amigo abriu os braos e confortou-a como se fosse uma criana. S depois de hora, quando os soluos cessaram, tentou compreender melhor a situao.
      Quem  o pai, Pam?
      O nome dele  Alan Parish.
      J conversaram sobre a situao?
      Ainda no.
      Vai contar a ele sobre o beb?
       claro que sim.
      Por favor, diga que esse sujeito  do tipo que vai pedi-la em casamento!
      Ele j passou por um casamento em fevereiro.
      Pam! Nem eu me envolvo com homens casados!
      No! Quis dizer que ele deveria ter se casado com minha melhor amiga, mas ela desistiu de tudo no ltimo instante.
      Oh, sim! E voc o ajudou a recolher os pedaos.
      Mais ou menos. No entanto, duvido que ele esteja preparado para outra viagem ao altar. E mesmo que estivesse, eu no seria a escolhida para acompanh-lo.
      Como ele acha que ele vai reagir  notcia?
      Ele odeia crianas.
      Bem, nesse caso, devia manter a cala fechada.
      A culpa foi minha. A plula falhou.
      No adianta discutir de quem  a culpa, Pam. Agora vai ter de comear a fazer planos para o beb. Vai ficar com ele, ou oferec-lo  adoo?
      Vou criar meu filho.
      E espera contar com alguma ajuda do tal Parish?
      No sei o que posso esperar.
      Pam, h alguma coisa que ainda no tenha me contado?
      Eu... estou apaixonada por ele.
      Entendo. E o que ele sente por voc?
      Nada.
      Mentira. Vocs dormiram juntos, no?
      Bem, digamos que exista certa atrao fsica.
      J  um bom comeo.
      Mas ele ainda ama minha melhor amiga.
      Ele disse isso?
      No, mas no havia me procurado uma nica vez desde que voltamos de viagem, e hoje ele me telefonou para conversar sobre o que sente por ela.
      O sujeito deve ser um canalha.
      Oh, no! Ele  um homem ntegro. Na verdade, uma das razes pelas quais sempre o admirei foi a seriedade do compromisso que assumiu com minha amiga.
      Se o homem no agradecer aos cus por t-la conquistado, algum ter de intern-lo.
      Ele  um pouco tmido. Contido, entende? Mas quando se solta, Alan acaba se tornando uma pessoa encantadora.
      E deve ser um parceiro e tanto na cama, certo?
     Pam sorriu e fez um movimento afirmativo com a cabea.
     Manny suspirou.
      Prometa que no vai usar suspensrios no prximo trimestre, est bem?
     Alan tentava manter a calma, mas a recepcionista da imobiliria no estava disposta a cooperar.
      Acho que no entendeu. Deixei vrios recados na secretria eletrnica!
      Tente o telefone celular.
      Est desligado. Pamela devia ter me encontrado ontem  noite e no apareceu. Estou preocupado com ela.
      Senhor, tudo que posso dizer  que a Srta. Kaminski disse que se ausentaria do escritrio por alguns dias. Posso fornecer o cdigo do bip...
      J acionei o bip, e ela no respondeu.
      Ento vou transferi-lo para o correio eletrnico.
      Espere...  gritou. Mas em seguida a voz de Pamela recitou a mensagem que j havia decorado. Alan bateu o telefone e passou as mos pelos cabelos. Furioso, 
levantou-se e gritou quando a gaveta da escrivaninha chocou-se contra sua canela.
      Sr. Parish!  a secretria assustou-se.  Algum problema? Alan respirou fundo.
      No, Linda.  Vestiu o palet.  Cancele todos os meus compromissos da tarde.
     Pam morava numa pequena casa num distrito tranqilo da cidade. Alan estivera l algumas vezes para apanh-la para um ou outro evento social, mas nunca entrara. 
A garagem estava vazia e as cortinas fechadas ocultavam o interior. A luz da varanda brilhava fraca contra o sol matinal, como se quisesse dar a entender que a proprietria 
estava em casa.
     Depois de dez minutos tocando a campainha, Alan desistiu e voltou ao carro. O momento exigia atitudes drsticas, ele seguiu para o escritrio de Lucy Montgomery 
Sterling. No sabia o que diria a ela, mas tinha de obter notcias de Pamela.
     Quando chegou, encontrou a ex-noiva num abrao caloroso com o marido, que manteve um brao em torno da cintura da esposa enquanto o encarava com um misto de 
curiosidade e surpresa.
      Alan! Que surpresa agradvel!  ela o cumprimentou.
      No ouvimos seus passos  John comentou com um sorriso frio.
      Posso imaginar por qu. Lucy, ser que podemos conversar?
      Algum problema?  ela estranhou.
       sobre... Pam.
      Vejo voc em casa  John anunciou antes de retirar-se.
      Quer caf?  Lucy ofereceu com cortesia.
      No, obrigado. Estou procurando por Pam, e pensei que pudesse me dar alguma informao.
     Ao v-la desviar os olhos, Alan teve certeza de que havia procurado a pessoa certa.
      J tentou deixar um recado na secretria eletrnica?
      Vrias.
      Talvez ela ainda no tenha tido uma chance de procur-lo.
      Onde ela est?
      Alan...
      Preciso v-la, Lucy.  importante.
      Ela me pediu para no contar a ningum.
      Lucy, h algo que precisa saber.
      Do que se trata?  ela perguntou com a testa franzida.
      Algo aconteceu quando Pam e eu estvamos em Fort Myers.
      Escute, no sei se isso  da minha...
      Eu me apaixonei por ela.
      O qu?
      Eu me apaixonei por Pam. Juro por tudo que h de mais sagrado que nunca houve nada entre ns enquanto ramos noivos. Mas durante nossa estadia em Fort Myers, 
descobri uma nova faceta de Pam. Ela  afetuosa, divertida, sensvel... Ela me faz feliz, e quando estamos juntos sou capaz de entender o que sente por John.
      Alan, nada me faria mais feliz do que v-los juntos.
      Preciso encontr-la e dizer o que sinto. Mesmo que ela no me ame, no suporto mais viver sabendo que ela ignora meu amor.
      Nesse caso, que tal uma pequena viagem de... cinco horas?
      Cinco horas?
      Pamela est em Atlanta, hospedada na casa de um amigo.
      Um amigo? Oh, no! Se Pamela est com outro homem ento no...
     Lucy aproximou-se e segurou-o pelos ombros.
      John no se deixou deter por isso, lembra-se? E hoje somos felizes.

     CAPITULO XII

     Depois de passar a manh debruada sobre o vaso sanitrio e a tarde na cama, dormindo, Pam tomou um banho demorado. A ducha era o lugar ideal para mulheres 
grvidas. L, podiam chorar a vontade sem despertar olhares piedosos ou preocupados.
     Quando a noite comeou a cair, Manny convidou-a a sentar-se na pequena varanda do apartamento e escovou seus cabelos. A brisa morna de primavera enchia seus 
pulmes, provocando uma onda e nostalgia e despertando lembranas da noite que passara com Alan numa praia deserta, um tempo em que a paixo os carregara...
     Bem, Alan havia sido carregado para a delegacia, mas a noite no perdera sua importncia. Jamais a esquecera. Brincou com o castelo de ouro pendurado em seu 
pescoo, onde a jia estivera desde a noite em que retornaram a Savannah.
      Talvez precise de uma mudana de cenrio  comentou.
      Voc  bem-vinda neste apartamento, mas em breve ter de procurar outra pessoa com quem possa dividir o aluguel.
      Vai se mudar?  ela estranhou.
      Sim, para San Francisco. Em junho.
      Por que no disse antes?
      Voc j tem problemas demais no momento.
      O que h de to interessante em San Francisco?
      Uma carreira. No h nada de promissor na vida de uma dragqueen quarentona.
     Pam riu. Manny ainda no havia completado quatro dcadas de vida, e exibia uma forma fsica invejvel.
      O que vai fazer?
      Serei conselheiro da Casa Chandelier.
      Manny, isso  maravilhoso! Voc vai ser um sucesso! Por outro lado... vou sentir saudade.
      Voc e o beb podero ir me visitar sempre que quiserem.
      E iremos.
     Manny inclinou a cabea para o interior do apartamento.
      Acho que ouvi algum batendo na porta  disse.  Espere um minuto.
     Pam acomodou-se melhor na cadeira e cruzou as mos sobre o estmago.
      Pam  o dono da casa chamou , voc tem visita.
     Ela virou a cabea e, surpresa, viu Alan parado no meio da sala, o palet jogado sobre os ombros e o rosto srio e abatido.
     Tremendo, levantou-se para ir receb-lo e experimentou uma onda de alvio ao sentir o brao de Manny em torno de sua cintura, amparando-a.
     Alan ergueu o corpo ao v-la. O corao disparou e o cime o inundou como uma onda venenosa quando notou os travesseiros jogados sobre o sof. Ver o ninho de 
amor s fortalecia a resoluo de no dividi-la com outro homem.
      Alan, este  meu amigo Manny...
      J nos apresentamos, querida  ele cortou, os olhos fixos em Alan.
      O que est fazendo aqui?
      Vim procur-la.
      Isso  bvio, mas... por qu?
      Ser que seu amigo... Manny pode nos dar licena?
       claro  ele respondeu.  Se precisar de mim, querida, estarei no quarto.  Saiu da sala em silncio.
     Alan esperou que ele desaparecesse atrs da porta para voltar a falar.
      Fiquei esperando por voc naquela noite.
      Houve um... contratempo.
      Fiquei preocupado.
      No era necessrio. Como soube que eu estava aqui?
      Lucy me deu o endereo. Escute, Pam, no quis embara-la diante do seu namorado, mas...
      Ele no  meu namorado. Manny  homossexual.
       mesmo?  perguntou aliviado.  Sempre digo que um homem deve fazer aquilo que considera correto e...
      Alan, o que veio fazer aqui?
      No quis embara-la diante do...
      Voc j disse isso.
      Eu amo voc, droga!
     Pam ficou paralisada pelo choque. Segundos se passaram.
      Diga alguma coisa!
      Estou grvida.
     Foi a vez de Alan perder a fala. A sala girou em torno dele e tudo ficou escuro.
      Acho que vou desma...
     Apesar de o cho aproximar-se lentamente, a intensidade do impacto contra sua cabea o fez perder os sentidos. Ouviu Pam chamar por Manny, que a instruiu para 
ir buscar uma jarra de gua gelada no refrigerador.
     Manny deu vrios tapas em seu rosto e uma enxurrada gelada o atingiu, roubando-lhe o flego. A testa doeu.
     Alan abriu os olhos e, atravs das lentes molhadas dos culos novos, viu Pam debruada sobre ele segurando a jarra vazia.
      Pam  Manny comentou , devia ter tirado os cubos de gelo. Veja o tamanho do ferimento que provocou na testa do coitado!
      Eu... estou bem  gaguejou.  Ajude-me a levantar. Manny o levou at o sof e foi buscar uma toalha para estancar o sangramento.
      Vai ter um galo do tamanho de um ovo de galinha, amigo.
      Faz parte do jogo.
      Espero que seu convnio mdico esteja em dia.
      Pelo que acabei de saber, vou precisar de um plano familiar  ele respondeu, olhando para Pam com expresso ansiosa.
      Oh, Alan...
      Por que no me contou sobre o beb? Senti tanta falta de voc nas ltimas semanas, que tive medo de enlouquecer. Por que no foi me encontrar no restaurante 
do hotel, como combinamos?
     Quando telefonou, eu ainda estava tentando decidir como contar sobre a gravidez. Ento disse que queria conversar sobre o que sentia por Lucy...
      Foi s uma desculpa.
      Uma desculpa estpida.
      Eu estava desesperado!
      Contou alguma coisa a ela?
      Tudo.
      Oh, no...
      E ela disse que estava feliz por ns. Na verdade, encorajou-me a vir procur-la. Pamela Kaminski... quer se casar comigo?
      Casar?
      Sim, sabe como funciona... Eu seria o marido, voc, a esposa.
      Esposa? Nunca pensei em ser esposa de ningum. Por outro lado... nunca pensei em ser me, tambm.
      Ultimamente, a vida tem se mostrado cheia de surpresas.
      Alan, sei que no gosta de crianas.
      A menos que sejam minhas.
      Mas elas so barulhentas...
      Voc tambm .
      E vivem fazendo confuso.
      Voc tambm.
      E as fraldas...
      Agora voc me pegou.
      No vai ser fcil.
     Alan cruzou os dedos em torno do pescoo de Pamela e puxou-a para mais perto.
      Isso quer dizer sim?
      Sim  ela murmurou com um sorriso.  Agora o P significa papai.
     A igreja no estava to cheia quanto da ltima vez, Alan notou do altar. Melhor assim. Reunira apenas as pessoas realmente importantes.
     Os pais estavam sentados no primeiro, emocionados e felizes. Pamela os conquistara completamente. A me dela estava do outro lado do corredor, e tambm derramava 
algumas lgrimas de alegria. Os irmos de Pam estavam ao lado dele no altar, desconfortveis nos colarinhos justos.
     Pamela j devia ter entrado. Roy, o irmo mais velho, apontou para o curativo na mo do futuro cunhado e perguntou:
      O que foi isso?
      Um pequeno acidente quando experimentados as alianas.
      A vida com Pam pode ser perigosa  riu.  A propsito, onde ela se meteu?
     Alan tentou no demonstrar a apreenso que contraa seu estmago.
      Deve estar aqui, ou o organista no estaria tocando a marcha nupcial.
      J tocaram a mesma msica tantas vezes, que me surpreendo por alguns convidados no estarem danando.
      Talvez ela tenha se atrasado por causa do enjo matinal.
      So duas horas da tarde!
      Bem, o corpo das mulheres pode ser imprevisvel.
     Cinco minutos mais tarde, nervoso e apreensivo, Alan decidiu ir procurar Pamela no salo no fundo da igreja, onde ela devia estar se arrumando para a cerimnia. 
No havia ningum l, nem no banheiro contguo. Temendo estar prestes a viver a mesma experincia pela segunda vez, dirigiu-se  porta ignorando os comentrios preocupados 
de alguns convidados.
     Estava saindo quando ouviu uma buzina conhecida e viu o Volvo branco de Pamela se aproximando. Ela estacionou com duas rodas sobre a calada e desceu apressada, 
a cauda do vestido de noiva enganchada no brao para facilitar os movimentos. Descala, ela correu at a porta da catedral levando os sapatos nas mos.
      Estou indo!  gritou.  V para o seu lugar!
      Onde esteve?  Alan perguntou aliviado.
      A Sra. Wingate me chamou atravs do bip. A vidente que ela contratou garantiu que o negcio com a casa dos Sheridan seria bem-sucedido, desde que a compra 
fosse efetuada num determinado horrio. Vinte minutos antes do nosso casamento. Como j estava pronta, decidi ir levar os papis para ela assinar antes de vir para 
c. Algum sentiu minha falta?
     Alan sorriu.
      Voc quase me matou de susto. Pensei que houvesse mudado de idia.
      Nunca! Vai ter de passar o resto da vida a meu lado, Alan P. Parish.
      A propsito, tenho uma confisso a fazer. Disse ao tatuador que o P era de... Pam.

     EPLOGO

     Alan levantou as mos.
      Pam  disse com voz calma.  Abaixe a prancheta da enfermeira.
      Voc!  ela gritou da cama do hospital.  A culpa  sua!
      Querida, no acha que foi um esforo combinado?
     Ele se abaixou ao ver o vaso de flores voando em sua direo. O mssil se espatifou contra a parede.
      Tem razo!  afirmou apressado, erguendo os braos num gesto de rendio.  A culpa  toda minha.
     Uma nova onda de dor contorceu o rosto de Pam e ele sentiu o corao apertado. Sua esposa estava enfrentando um momento difcil, doloroso, e no podia nem chegar 
perto da cama para confort-la.
     A porta se abriu e a Dra. Campbell entrou sorridente.
      Como vamos indo? Alan suspirou aliviado.
      Bem  disse, antes de ver a expresso assassina de Pam.  Quero dizer, nada bem.
      Vamos ver como voc est  a mdica anunciou.  Oh, a vem outra contrao. Relaxe, sim? Se as dores forem insuportveis, podemos providenciar uma anestesia 
e...
      Obrigado, doutora, mas optamos pelo parto natural  Alan explicou.
      Cale a boca!  Pam gritou em agonia.  D-me a agulha, doutora, e eu mesma aplicarei a injeo.
      Oh, meu Deus  a mdica comentou depois de um exame rpido.  Esquea a anestesia.  Chamou a enfermeira pela campainha.  Voc est pronta para dar  luz.
      J?  Alan surpreendeu-se.
      O que quer dizer com j?  Pam gritou desesperada.  Estou sofrendo h nove horas!
     As enfermeiras entraram e o vestiram com as roupas do centro cirrgico. Pam foi preparada para o momento culminante do espetculo da vida e ele ficou esquecido 
num canto, sentindo-se impotente e culpado. Enquanto ela sofria as dores do parto, a mdica avisou:
      Papai, pode participar do processo, se quiser.
      Quer que eu participe, Pam?
      Por favor  ela pediu assustada, estendendo a mo em sua direo.  Alan...
      O que , amor?
      O P... o que significa?
      Querida, no acho que este seja o momento...
      Quero saber!  ela gritou, agarrando-o pela camisa.
      Pam, comece a fazer fora  a mdica instruiu.  Vou contar at trs.
      Alan...
      Um...
      O que significa...
      Dois...
      O P?
      Trs. Fora!
     Gritando de dor, ela contraiu todos os msculos do corpo e empurrou.
     Apavorado, Alan revelou.
      Presley! O P  de Presley!
     Ela relaxou, respirou fundo por alguns instantes e ofegante, repetiu:
      Presley?
      Minha me era f dele.
     Pamela ainda estava rindo quando a contrao recomeou, obrigando-a a fazer fora.
      J posso ver a cabea!  a mdica exclamou entusiasmada.  S mais um pouco, Pam. Fora!
     Ela respirou fundo, reuniu foras e empurrou, gritando to alto que Alan teve a impresso de ouvir as janelas tremerem. Duvidava que um dia recuperasse a audio.
      Aqui est  a doutora Campbell sorriu triunfante.  Um menino saudvel e forte.
      Um menino!  Alan gritou eufrico, beijando o rosto da esposa.   um menino!
     Exausta, porm feliz, Pam estendeu os braos para o recm-nascido. Alan teve a impresso de que morreria de alegria ao ouvir o choro estridente do filho.
      J escolheram um nome?  a mdica quis saber.
      Ainda no...
      Acabamos de escolher  Pam o interrompeu.  O nome dele ser Presley.


     FIM
     Um amor desastrado Wife is a 4-letter word  Stephanie Bond





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